O sindicalista Luiz Marinho, vice na chapa de José Genoíno ao Palácio dos Bandeirantes, não teria cargo decorativo se as urnas eletrônicas de 27 de outubro o consagrarem vencedor. Informações de assessores do candidato que pode ajudar o Grande ABC a fazer barba e cabelo no segundo turno garantem que a função administrativa de Luiz Marinho estaria voltada para dar vida e luz à ideologia regionalista que Celso Daniel difundiu no Poder Público e a revista LivreMercado e este Capital Social transformaram em temática nuclear para superação das agudas dificuldades econômicas e sociais do Grande ABC.
Devagar, devagar, a candidatura de Luiz Marinho a vice-governador desperta o apoio mesmo que tardio, informal e envergonhado de algumas entidades empresariais do Grande ABC. Sabe-se que já há movimento para resgatar parte da dívida que o empresariado tem com esse sindicalista de desempenho construtivista e moderado. A iniciativa de entidades de classe que lançaram manifesto nas páginas do Diário do Grande ABC para pressionar o governo de Geraldo Alckmin a optar pelo prefeito peessedebista Maurício Soares como companheiro de chapa provavelmente não será clonada. Mas alguma coisa diferente da indiferença deverá ganhar formato impresso, em forma de anúncio ou mesmo de texto jornalístico, por força de encontro entre os interessados em reparar a falha.
Sem qualquer intenção de desmerecer o alinhamento ao prefeito Maurício Soares, cujos resultados até hoje são excomungados pelo chefe de Executivo da Capital Econômica do Grande ABC, a candidatura de Luiz Marinho está muito mais sintonizada com o quadro socioeconômico da região atingido fortemente pelos governos do Partido da Social-Democracia Brasileira, Fernando Henrique Cardoso em Brasília e Mário Covas-Geraldo Alckmin em São Paulo.
Como mostramos ainda outro dia em estudo inédito, o Grande ABC perdeu 34% do PIB -- como pode ser resumido o conceito de Valor Adicionado -- durante os sete primeiros anos pós-Plano Real. Primeiro, porque a equipe econômica federal sobrevalorizou a moeda, incentivou a guerra fiscal e abriu desmesuradamente a economia nacional, atingindo em cheio o coração automotivo do Brasil até então concentrado no Grande ABC. Segundo, porque a equipe econômica do governo estadual subestimou os efeitos da guerra fiscal. Optou preferencialmente pela recuperação dos cofres públicos e à limpeza das tranqueiras deixadas pelo antecessor.
Tanto o governo federal quanto o governo estadual, como se observa, foram desajuizados com o Grande ABC. Não levaram em conta que aqui residem 2,350 milhões de habitantes e que o setor automotivo está para nosso equilíbrio social e econômico assim como o oxigênio para a natureza.
Essa sinfonia transformou-se em anos de chumbo também porque a institucionalidade do Grande ABC é balela que tentam vender para enganar contribuintes, formadores de opinião, eleitores, enfim, a cidadania. Todos os movimentos criados ou que supostamente se revigoraram durante esse período tiveram desempenho muito aquém das necessidades práticas. Apesar de boa-vontade de um ou outro agente público de liderança empresarial e de mobilizador social, o que resultou de barulhentas manifestações não passou de sopro insustentável para apagar as labaredas da destruição irresponsável.
Governo estadual
É verdade que o governo estadual foi menos insensível aos acontecimentos no Grande ABC durante esse período em que a ordem era maquiar as informações e ludibriar a platéia. Principalmente no atendimento a São Bernardo do prefeito Maurício Soares. A habilidade política de Maurício Soares, o brilhantismo com que sempre conduz o cronograma de obras conectado com o processo eleitoral e a identidade partidária determinaram a aproximação do governo estadual. Mas nem isso salvou a lavoura do governo do Estado na região. O retorno de investimentos para quem nutre os cofres paulistas é muito pouco.
Ora, se diante desse quadro que a maioria procurou esconder sob o tapete de triunfalismo obtuso um eventual candidato a vice-governador na chapa situacionista mereceu tanto desvelo, por que um candidato ao mesmo cargo, de oposição, é tão discriminado? As respostas, tão óbvias, não necessitam ser enfatizadas.
Amanhã, se o PT for situação no governo do Estado e se repetir o baixo desempenho do PSDB, não faltarão manifestações de apoio a eventual candidato à vice-governadoria. É assim que funciona o jogo de interesses econômicos, políticos e institucionais numa região que, ao contrário do que tentam fazer crer representantes de entidades sindicais, empresariais, políticas e sociais, é repeteco do Brasil. Vale mais a ilusão do que se pretende plantar no futuro do que os esqueletos do passado.
Lula é regional?
Querem exemplo mais consistente da preferência pelo situacionismo do que a própria candidatura de Lula da Silva? Residente em São Bernardo e construtor de história sindical que, juízos de valor à parte, tornou o Grande ABC referência nacional na relação entre capital e trabalho, Lula da Silva é simplesmente esquecido pelas instituições empresariais da região. Se a tentativa de colocar Maurício Soares como vice-governador de Geraldo Alckmin mereceu tanta mobilização de entidades de classe, o que dizer então de Lula da Silva?
Pesa contra Lula da Silva, e também contra Luiz Marinho, o fato de serem oposição e sindicalistas. A obtusidade dos defensores explícitos ou não de outros candidatos chega ao ponto de minimizarem um quadro que é francamente óbvio: por menos que Lula da Silva faça pelo Grande ABC, terra que o recebeu e o consagrou, sempre será muito mais que o governo continuísta de FHC. Simplesmente porque qualquer coisa é melhor do que a contabilidade negativa de 34% do PIB.
Se hoje vasta parcela das chamadas lideranças empresariais do Grande ABC finge-se de morta, esperando por reviravolta no quadro eleitoral federal para comemorar a derrota de Lula da Silva e de seus seguidores, como se isso fosse vitória do Grande ABC, depois de 27 de outubro, urnas abertas e apuradas e, com a provável vitória do candidato petista, vai correr para lamber-lhe os pés.
É assim que o empresariado nacional, de maneira geral, historicamente age. No Grande ABC não seria diferente. E sabem por quê? Porque o empresariado é avesso ao contraditório, aos entrechoques de opinião e suas lideranças adoram o colo dos gestores públicos que lhes oferecem benesses das quais usufruem em nome de toda a classe -- esta sim, penalizada pelo arrocho tributário e a aridez de planejamento.
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18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL