Regionalidade

Migalhas não interessam;
buraco é bem mais embaixo

DANIEL LIMA - 22/10/2003

O Complexo de Gata Borralheira e as Meias Verdades que historicamente conduzem os passos de tartaruga institucional desta República Republiqueta formam a gênese de nossos problemas. Deitamos e rolamos na arte de nos contentar com ninharias de repasses orçamentários dos governos do Estado e Federal. Adoçam nossa boquinha provinciana com guloseimas do estrabismo individualista de deputados, de bancadas partidárias ou regionais, enquanto o que nos atinge de fato é a fome de investimentos estruturalmente direcionados a mudar o rumo dos acontecimentos econômicos e sociais.


 


Somos uma instituição sem capacidade crítica nem analítica. Deixamo-nos levar pelo barco à deriva da pontualidade frágil de projetos sem consistência enraizadora e disseminadora de riquezas coletivas. Somos balões de ar comprimido que escapam facilmente das mãos inábeis de quem prefere mesmo shows temporais de pirotecnia verbal. 


 


A contratação de bandas, fanfarras e orquestras triunfalistas para recepcionar possíveis embora sempre tardios repasses de dinheiro estaduais e federais ao Grande ABC é estupidez em forma de rodas-gigantes cujos protagonistas mudam com o tempo, mas a coreografia é incansavelmente a mesma.


 


A espécie de prostração que tomou conta de determinados redutos só porque o governo federal não tem dado atendimento ao Grande ABC, num total de 23 emendas aprovadas no Orçamento da União de 2003, não passa de erro de cálculo de amadores em barracas de tiro ao alvo da superficialidade. O fato de nenhum centavo ter sido liberado até agora -- de um total miseravelmente vexatório de R$ 4,440 milhões -- não deveria ser lamentado com tanta ênfase. Paradoxalmente, o atendimento desses valores seria muito mais danoso aos pressupostos do que chamamos de Lulacá, Urgente!, do que propriamente a não liberação de recursos.


 


Dinheiro enganador


 


Vamos explicar essa equação de forma simples mas contundente, cujo sentido é surpreendente apenas para quem usa a viseira de um regionalismo desbotado: se vier dinheiro federal da região entre os vários quesitos propostos pelos deputados em suas convencionais rações de barganhas políticas, a emenda soará pior que o soneto, porque possibilitará a impressão de que estaremos devidamente abastecidos em nossas necessidades.


 


Preocupados com biografias políticas, sempre de olho nas próximas eleições, deputados não se dão conta de que a equação que extratifica o reerguimento socioeconômico do Grande ABC está a léguas de distância de suas paixões individuais aos próximos pleitos.


 


Para uma região devastada pelo governo federal que se foi e que precisa, portanto, de verdadeiro Plano Marshall a recompor parte da envergadura industrial abruptamente eliminada, é vexatória a falta de sensibilidade de acenar felicidade diante de eventuais migalhas que lhes seriam liberadas. Sim, porque os R$ 4,4 milhões reservados ao Grande ABC em 21 emendas do governo federal, de total igualmente ridículo de R$ 346,6 milhões dos deputados paulistas para ser distribuídos no Estado de São Paulo, se não são migalhas de fato é porque se tornam esmolas de verdade. Satisfazer-se com tão pouco é como considerar gloriosa a pilotagem desses carrinhos emborrachados e preparados para os choques nos parques de diversão em vez dos desafios das pistas de Fórmula-1.


 


Banana, muito melhor


 


Tomara que o governo Lula da Silva dê uma banana para o Grande ABC nesta temporada de repasses aprovados pelo antecessor, porque não será essa ninharia que vai iniciar o processo de reconstrução regional. Pelo contrário: na medida em que o governo federal resolver abrir minguados cofres negociados politicamente pelo staff de Fernando Henrique Cardoso, é mais que provável que os áulicos regionais se dêem por satisfeitos e felizes, como se tivéssemos encontrado o mapa da mina da recomposição tão desejada. Estaríamos trocando uma semana inteira de Disneylândia por uma tarde fugaz de Playcenter.


 


Passados 10 meses desde que Lula da Silva assumiu a Presidência da República, não há sequer um indicativo consistente de que o Grande ABC esteja na alça de mira preferencial de investimentos. Pelo contrário: assenta-se declaradamente um descaso estonteante contra a região mais debilitada pelo antecessor, porque nem ao trabalho e à sapiência de escalar um articulador regional com plenos poderes e sensibilidade de levar o Grande ABC a Brasília e trazer Brasília ao Grande ABC foi concertado. O circo de horrores deixado por Fernando Henrique Cardoso parece não ter mudado de gerenciamento, embora demissões e admissões tenham sido providenciadas e o leão tenha rosnado de forma diferente nos últimos tempos. 


 


Pelo andar da carruagem, é mais que provável que esse distanciamento das próprias raízes regionais que o embalou em direção ao mundo demarque a trajetória de Lula da Silva e de tantos outros petistas que fizeram carreira na região. A impressão que se retira dessa situação é a mais comum e previsível quando se envolve individualidade: a inquietação generalizada de todos que daqui partiram em direção a vôos nacionais está consolidadamente marcada pelo interesse próprio e, em segundo plano, pelo corporativismo profissional e político-partidário. Questões regionais abrangentes, extra-partidárias, extra-corporações, que se lixem.


 


Mesmo ao se considerar a fogueira administrativa em que se meteu, com o transatlântico chamado Brasil em chamas econômicas e sociais depois de oito anos do vendaval da internacionalização irresponsável e sem contrapartidas que nações do Primeiro Mundo exigem nas relações bilaterais ou multilaterais, o governo Lula da Silva é um desencanto regional. Nada a ver com as mixarias orçamentárias que alguns lhe cobram porque querem lustrar o ego parlamentar. A inação regional durante os 10 primeiros meses de mandato sai do terreno exclusivo da desatenção para se enquadrar em área mais contundente, relacionada ao descaso puro e simples.


 


É lamentável constatar que o governo Lula da Silva ainda não tenha sido catequizado pelos companheiros egressos do Grande ABC sobre a amplitude dos desastres sociais e econômicos que nos atingiram e que poderiam ser resumidos nos 39% de perda real do Valor Adicionado durante os oito anos de Fernando Henrique Cardoso. Descemos a ladeira da qualidade de vida de forma vertiginosa e desumana.


 


O governo Lulacá da Silva e também o governo Geraldocá Alckmin só deverão ser reconhecidos como referenciais de redução da debacle que aqui se instalou nos últimos tempos se fizerem incursões profundamente incisivas. A importância do Grande ABC ao equilíbrio da Região Metropolitana de São Paulo, a área mais degradada no País na última década, exige muito mais que simples penduricalhos de repasses de ocasião que mal tapam os buracos pontuais de algumas áreas. A responsabilidade social de governar é uma obra conjunta das esferas federal, estadual,  regional e municipal, mas, infelizmente, pelas razões expostas, preferimos o jogo de cena de comemorações ou lamentações frágeis.


 


Enquanto perdurar esse chove-não-molha de fingimentos e individualidades, dessa mesquinharia típica, mais e mais vai aumentar o poço que separa o Grande ABC fomentador de mobilidade social dos tempos de industrialização desorganizada mas geradora de riqueza e o Grande ABC patrocinador de espetáculos circenses de péssimo gosto.


 


Já se foi o tempo em que se podia mascarar a realidade com frases feitas, com slogans, com manipulações. Quando a instabilidade socioeconômica bate na bunda -- e são poucos que não estão sentido a água fria do banho de incompetência em que o governo FHC nos meteu --, todos aqueles que pretenderem se antepor à gravidade do quadro provavelmente merecerão a vestimenta característica dos donos do picadeiro -- sem, entretanto, ter o menor talento para o sucesso que só quem é mesmo da arte é capaz de garantir.


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