O anacrônico e claramente avocativo e autobajulativo conceito de mobilidade social propagado por um sociólogo conhecido internacionalmente, atual presidente da República do Brasil, corroborado por outro, menos conhecido e seguidor do primeiro, o professor uspiano José de Souza Martins, não pode ser consagrado como idéia de afirmação de um modelo econômico que, todos sabem e sentem, se converteu em falácia.
Dizer que o ex-retirante e ex-metalúrgico Lula da Silva, presidente eleito do Brasil, é generalização da mobilidade social brasileira nestes tempos de escaladas descendentes de salários formais e de inchaço da informalidade, do desemprego, do subemprego e do empreendedorismo autônomo de subsistência, é no mínimo um oportunismo semântico e dialético que cala fundo apenas nos incautos.
Parem com isso, senhores sociólogos, porque mobilidade social no Brasil de estagnação econômica e de fragilização social já há duas décadas é uma tremenda mistificação. Ou por acaso não somos 56º colocados no ranking global de carestia e 46º no de competitividade?
Lula da Silva é presidente do Brasil não porque seja fruto de mobilidade social, da mesma forma que Vicentinho Paulo da Silva virou deputado federal, Paulo Pereira da Silva presidente da Força Sindical, apenas para citar alguns exemplos. Lula chegou à Brasília porque é uma prova incontestável do tipo de rebento social que mais aflora neste País -- a mobilidade corporativa.
Sim, Lula da Silva, a despeito de todas as qualidades pessoais que o colocam inclusive a salvo de depredadores oportunistas que tentam desqualificá-lo só porque não frequentou os bancos universitários reprodutores de um modelo padronizado de conhecimentos compartimentados, esse Lula da Silva que até os sete anos de idade não comera um pedaço de pão sequer porque se alimentava de café preto e de farinha de mandioca, esse Lula da Silva é um filhote bem nutrido da mobilidade corporativa de uma Nação construída pelo colonialismo hierarquizador. Exatamente desde que os portugueses aqui desembarcaram com seus espelhinhos, seus cléricos, seus dísticos e uma voracidade incomum em saquear nossas riquezas.
Classe média decadente
Tivesse continuado a vidinha de metalúrgico comum, como milhares de companheiros que seguiram sua rebeldia e liderança no final dos anos 70, Lula da Silva teria se perdido nas brumas do passado. Como aqueles milhares de metalúrgicos que o ajudaram a construir um movimento corporativo em contraponto ao seletivismo social das elites, Lula não passaria de um classe média baixa decadente, porque é isso que se vê aos mangotes há muitos anos neste território, desde que o governo de Fernando Henrique Cardoso promoveu a mais insidiosa e acelerada abertura econômica que uma área nacional poderia resistir -- o Grande ABC frontalmente violentado pela deserção industrial a reboque da chegada do capital internacional privilegiado pelo rebaixamento de alíquotas, protegido pela discriminação às autopeças nacionais, despedaçado pela sobrevalorização da moeda, entre tantas epidemias macroeconômicas que atingiram seu organismo.
Não fosse Lula da Silva ser o que todos sabem que é -- um homem carismático, absorvedor de conhecimentos, hábil no aprofundar de suas picadas nos guetos corporativistas primeiro de operários e depois de intelectuais e políticos de carreira -- a ascensão ao Palácio do Planalto não passaria de miragem. Mas longe está de expressar a ascensão social preconizada porque as ramificações do poder dependem intrinsecamente de habilidades pessoais muitas vezes, ou na maioria dos casos, em contraponto ao desmanche desenvolvimentista. Principalmente para quem é de oposição político-administrativa.
Considerar o presidente eleito generoso fruto de mobilidade social que tentam atribuir a um suposto País de justiça social, de cidadania, de desenvolvimento econômico sustentável, um País igualitário nas oportunidades, tudo isso não passa mesmo de um jogo de expressão. Afinal, como pode reivindicar tantos troféus sociais e econômicos se o Brasil está em 74º lugar em matéria de abertura comercial, segundo garante a Fundação Heritage, de Washington, ou em 73º lugar em abertura econômica?
Parem com isso
Por favor, parem com isso senhores sociólogos que, como papagaios, repetem à exaustão e ao longo dos tempos velhos conhecimentos adquiridos em academias, esquecendo da dinamicidade dos dias, das transformações econômicas e das remexidas sociais que alteram os rumos dos acontecimentos. Não fosse assim, o Brasil não estaria em 51º lugar no balanço de pagamentos e em 29º no nível de desemprego -- com a observação de que as pesquisas não descem aos porões da informalidade e do rebaixamento salarial que disfarçam a face horrenda da desesperança.
Esses mesmos sociólogos, e tantos outros sociólogos, enfiam no mesmo saco de gatos conceituais a essência da democracia. Acham que chegamos ao máximo do exercício da cidadania quando, de vez em quando, enfiamos nossos dígitos em urnas eletrônicas e votamos tão democrática quanto modernamente. Bobagem. As eleições são apenas um fragmento -- importante, mas um fragmento -- do imenso universo do conceito contemporâneo de democracia.
Como ainda lembrou recentemente o professor Cristovam Buarque, democracia são várias fatias que se dividem harmoniosamente. Democracia alimentar, democracia de transporte, democracia de saúde, democracia de saneamento básico. Democracia eleitoral é uma democracia interrompida tanto quanto mobilidade corporativa é simplesmente mobilidade social seccionada pela repartição de poder entre aqueles que catapultam carreiras em raias diferenciadas dos pressupostos do capitalismo humanizado com que todos sonham.
O que há algumas décadas parecia uma constatação pétrea de que a ascensão na escala social seria como torrente de água contra a qual ninguém poderia opor resistência, hoje não passa de uma folha seca que o vento da globalização mal conduzida leva para lugares nunca antes imaginados.
Senhores sociólogos que andam a propagar Lula da Silva como o corolário da mobilidade social que invalidaria toda a realidade de um Brasil que não consegue crescer, prestem atenção mais uma vez para a diferença entre mobilidade social e mobilidade corporativa.
Lula da Silva como tantos outros que estão em Brasília, no Executivo, no Legislativo, no Judiciário, como tantos que estão nas Capitais, nos municípios, a exercer mandatos públicos, a comandar entidades de classe, a dirigir sindicatos, a exibir nas lapelas símbolos de suas cidadelas conquistadas, todos esses, senhores sociólogos, são a mais refinada expressão do corporativismo brasileiro. São infantarias indestrutíveis em suas jornadas sobretudo voltadas para a defesa de interesses específicos, muitas vezes disfarçados por uma verborragia de responsabilidade social que se esgota em projetos de puro efeito marquetológico.
Apenas grupos organizados
São grupos organizados que fazem jus à tradição colonial destas terras. Gente especializada em ascender na escala social por meio do desvio do elevador ou da escada chamada corporação. Não, não imaginem que sejam desclassificados. É verdade que, segundo o próprio Lula da Silva disse há alguns anos, há muitos picaretas entre eles na atividade pública, mas isso não vem ao caso. O que todos têm em comum é uma facilidade imensa em reconhecer os caminhos que podem levá-los ao poder, seja qual for o poder, e lutam por isso com tenacidade e brilho.
Senhores sociólogos, consagrados ou não, prestem atenção na diferença entre mobilidade social e mobilidade corporativa. Não confundam o grosso da sociedade que patina, patina, para tentar sobreviver, e muitos não têm feito outra coisa senão escorregar e escorregar, não confundam essa turma volumosa em quantidade com a turma densa em notoriedade.
Mobilidade social -- mesmo assim seletiva -- é o favelado que encontra uma alma bondosa e olhos perspicazes que traduzem aqueles dribles e chutes milimétricos num campo de terra batida de periferia em sinais evidentes de que há um talento a ser lapidado, uma jornada de glória a ser consumada.
Mobilidade social é o estudante universitário que vira doutor de qualquer coisa e não precisa emigrar para qualquer canto do planeta, de preferência para os Estados Unidos tão imperialistas como dizem por aqui os formadores de opinião, em vez de engrossar as filas de empregos que nunca chegam.
Mobilidade social, agora descendente, é o pai de família que, desempregado, arruma qualquer bico para evitar que os filhos passem fome e que, exatamente porque há tantos outros pais de famílias na mesma situação, não encontra outra saída senão contar com o reforço da mulher, que sai à cata de um emprego qualquer de diarista, limpando uma casa de classe média hoje, de classe rica amanhã, e torce para que suas patroas não tenham o chefe da casa ou mesmo a dona da casa que também trabalha fora vitimados pelo desemprego em nome de uma abertura econômica destemperada, de um gigantismo tributário voraz que saltou de 28% para 36% do PIB em oito anos.
Quem consegue identificar mobilidade social nos exércitos de jovens desempregados, indefesos diante da bandidagem? Jovens de todas as classes sociais. Jovens que muito cedo descobrem que a ocupação produtiva e pedagógica que lhes falta para exercer um ofício e fazer a roda da economia girar acabará substituída pelo oportunismo maquiavélico de atividades nada nobres que os tornarão presas fáceis de gente mais escolada pela marginalidade?
Vamos parar de brincar com essa conservadora expressão que tinha lá suas raízes de verdade nos tempos em que o PIB crescia persistentemente e valia a pena perguntar ao filho o que ele queria ser quando crescesse, porque se tinha a certeza absoluta de que não se ouviria como resposta um palavrão transtornado ou um balançar de cabeças de quem tem a consciência de que a resposta estava nos céus. Que país é esse que coloca 1,6 milhão de jovens no mercado de trabalho a cada ano e não consegue desenvolver-se para garantir pelo menos o emprego dos pais?
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18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL