Voltando a um assunto tratado neste espaço há alguns dias, a pergunta que se faz é a seguinte: quando o governo Lula da Silva vai indicar, mesmo que informalmente mas com todo o respaldo de coordenação, um embaixador de políticas públicas do governo federal no Grande ABC?
Na semana passada, tratamos superficialmente desse assunto ao comparar a designação de Fernando Leça como embaixador do governo do Estado no Grande ABC e a ausência de um interlocutor do governo federal. Sabe-se que a cobrança calou fundo nas hostes petistas, mas daí a traduzir-se em decisão efetiva vai muita diferença.
A barafunda em que poderá se transformar as relações entre o Grande ABC e o governo Lula da Silva provocaria mais transtornos do que soluções para o projeto do Lulacá, urgente! que a Editora Livre Mercado e CapitalSocial desbravaram.
Componentes de nitroglicerina pura é que não faltam para entornar o caldo. Primeiro, há interlocutores institucionais em excesso no Grande ABC e todos disputam as atenções do governo Lula da Silva. Segundo, há interlocutores em demasia do governo Lula da Silva no Grande ABC, e todos disputam as atenções das instituições locais.
Esse jogo aparentemente de soma 10 pode tornar-se um clássico de soma zero. Se as duas frases anteriores parecem o samba do criolo doido do saudoso Stanislaw Ponte Preta, a responsabilidade não é deste jornalista, mas dos protagonistas, coadjuvantes e figurantes da medição de forças e de prestígio da turma de Brasília e da turma do Grande ABC.
O despreparo sobre a cultura político-administrativa e econômica de emissários do governo Lula da Silva com relação às questões do Grande ABC chega ao patético. Basta recorrer, como exemplo emblemático, ao que aconteceu ainda esta semana, quando um dirigente do Ministério das Cidades propôs, em encontro no Consórcio de Prefeitos, a criação de uma Sabesp regional, suprimindo-se, portanto, as empresas e as autarquias especializadas de cada Município.
Não bastasse o fato de que a maioria das prefeituras do Grande ABC deve até as cuecas para a Sabesp paulistana, o que inviabiliza qualquer iniciativa que tenha os municípios como financiadores da proposta, a falta de integração regional seria suficiente para abortar tamanha ilusão.
Ou imagina o emissário do governo federal que, só porque reúne um grupo multiterritorial e multipolítico do Grande ABC ao redor de uma mesa e com cafezinho farto, a consolidação da regionalidade está garantida?
A bagunça institucional entre Grande ABC e governo federal poderá nos levar a algo absolutamente inacreditável, acreditem, e que poderia ser resumido na troca da inanição irresponsável pela abundância sufocadora. De que se trata, afinal, essa contraposição?
Sairemos -- a manter-se o quadro atual de carnificina representativa tanto de um quanto de outro -- do estágio de esquecimento absoluto ao que o Grande ABC esteve relegado pelo governo federal ao longo de décadas para, vejam só, uma presença tão sufocante quanto improdutiva.
Traduzindo em miúdos: à falta de Sarneycá, Collorcá, Itamarcá e FHCá, teremos um Lulacá disparatosamente mal-ajambrado. Ou, então, nos iludiremos com um Lulacá exponencialmente petista, sindicalista, corporativista, reforçando, assim, todos os vieses que construíram nossa cultura econômica e social, para o bem e para o mal.
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18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL