Prometi em 21 de junho último preparar série de matérias sobre a influência do governo federal petista na Província do Grande ABC. É o que estou começando a fazer em textos de cronologia errática mas que compreenderão o período de posse do ex-metalúrgico Lula da Silva e os dois primeiros anos do governo Dilma Rousseff, sucessora retirada do bolso do colete de pragmatismo de pesquisas especializadas que apontavam a viabilidade eleitoral de uma mulher em Brasília. Vivemos o que chamaria de Década Desperdiçada.
Tivesse os antigos companheiros de sindicalismo observado as demandas de regionalidade da Província do Grande ABC com mais carinho, mais desprendimento pessoal e a objetividade de somar aliados levada ao extremo no campo político-eleitoral, não teríamos chegado ao final dessa jornada de análise atribuindo com muito esforço uma nota média três de zero a 10. E só não fracassamos ainda mais porque fomos beneficiados por fatores externos à região.
Para chegar à conclusão de que a nota média de eficiência da Província do Grande ABC durante os 10 primeiros anos da gestão petista no governo federal não passa de três, utilizamos cinco vetores com o mesmo peso relativo:
a) Institucional
b) Econômico
c) Político
d) Administrativo
e) Social
Vamos tratar desses pontos ao longo desta série. Convido os leitores a fazerem exercício avaliativo tendo como premissa e referência a média geral três. Isto quer dizer que o total de pontos do conjunto de fatores expostos não pode ultrapassar nem ser inferior a 15. Para facilitar a vida dos leitores que pretenderem participar dessa que chamaria de Loteria de Ineficiência Petista na Província do Grande ABC, antecipo que apenas em um dos quesitos atribuo a nota zero, embora não faltassem disposição e vontade para alargar o terreno de reprovação completa. Mas não fui generoso nos dois quesitos em que nos demos relativamente bem, atribuindo nota cinco a cada um, entre o 10 possível. Os outros dois quesitos obtiveram nota inferior a cinco.
FHC pior, mas melhor
Comparar a nota média dos 10 anos petistas encerrados em dezembro de 2012 com os anos Fernando Henrique Cardoso seria uma covardia.
Vivemos naquele período o que não é risco algum chamar de Era da Quase Destruição da Província do Grande ABC. Com muito esforço, não passaria de 1,4 a nota média geral dos anos FHC. Um pouco menos da metade do governo do PT.
Entretanto, a nota média dos petistas é muito mais comprometedora à região. Afinal, perdemos uma grande oportunidade de mudar os rumos locais por razões que esta série de análise haverá de esclarecer. O governo Fernando Henrique Cardoso não tinha qualquer laço cultural, econômico e social com a região. Bem ao contrário do governo petista. Poderíamos ter feito muito mais com os petistas em termos de impacto do que perdemos relativamente com o governo Fernando Henrique Cardoso. Jogos fora de casa com FHC e perdemos de goleada. Com Lula da Silva e Dilma Rousseff ganhamos por escassa vantagem.
Para mergulhar nos anos petistas na Província do Grande ABC recorri ao passado mas como um conjunto de informações que não podem ser descoladas de qualquer observação mais profunda. Quem enxergar a Província apenas pelas lentes do passado recente correrá o risco de acreditar que a viseira ganhou a forma e o conteúdo de lentes potentíssimas. Seria contraproducente enxergar eventuais tons cor de rosa nos últimos 10 anos quando a escuridão vivenciada durante o governo FHC deixou vácuo que pode provocar ilusão de ótica.
Encadeamento histórico
É indispensável entender que a Província do Grande ABC é um encadeamento de registros que não se desencaixam das ações presentes nem sucumbirão ao peso do futuro, seja qual for o futuro. Não se isola um coração enfermo do restante do organismo nem tampouco um coração saudável ficará imune a abusos do corpo. A Província do Grande ABC de hoje e de amanhã é resultado das intervenções e das omissões no passado de ontem e no passado de hoje quando o futuro chegar.
Considero o governo federal petista e a relação com a Província do Grande ABC a quinta macroetapa histórica da região. Veja os pontos demarcatórios da subdivisão econômico-social-institucional da Província, a partir da industrialização automotiva no começo dos anos 1950:
a) Industrialização compulsória.
b) Sindicalismo liberto
c) Sindicalismo arrogante
d) Globalização ensandecida
e) Década Desperdiçada
Quem se meter a escrever qualquer coisa substancialmente forte em conteúdo e sinceramente descomprometida de forças de pressão que costumam oprimir a liberdade de pensamento e a liberdade de expressão jamais poderá abdicar desse quinteto temático de multidimensionamento político, econômico, social, institucional e administrativo.
As entranhas da Província do Grande ABC metabolizam todos esses ingredientes, para o bem e para o mal. Exceto o movimento sindical formulado e levado a campo única e exclusivamente por conflitos corporativos, principalmente nas companhias multinacionais que faziam gato e sapato dos trabalhadores, não temos nada no histórico regional a catalogar como massa crítica democrática, reformista, transformadora. Não somos Província por acaso. O passado nos condena, o presente é um acinte e o futuro é tenebroso a todos que têm em mente que a perspectiva traçada não pode ter outro ponto de convergência senão a modernidade produtiva, o equilíbrio social e o comprometimento institucional muito além do corporativismo intramuros e do compadrio dos oportunistas sem alma.
A expectativa de que o PT nascido em berço regional se configuraria núcleo de extraordinárias mudanças locais é um fracasso retumbante. Desde a morte de Celso Daniel, em 2002, pouco antes da primeira vitória eleitoral de Lula da Silva, o bom senso recomendava que não se deveria esperar algo diferente senão a mediocridade tanto dos petistas quanto dos supostos contrapontos que, em larga escala, caíram na gandaia da cooptação política.
Sem nenhum exagero – e não fossem fatores fora do controle regional a nota média geral da Década Desperdiçada do petismo no governo federal seria vergonhosa – vivemos o período mais árido de inteligência, de discernimento, de coragem e de empenho na Província do Grande ABC. Chegamos ao fundo do poço justamente quando deveríamos estar nadando de braçadas. E o pior é que o fundo do poço é manipulado de tal maneira que há ainda na praça quem entenda que estamos mesmo numa jornada de sucesso.
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18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL