Em menos de 24 horas, a sede tríplice de Consórcio Intermunicipal, Câmara Regional e Agência de Desenvolvimento Econômico acolheu dois eventos voltados à regionalidade. Na noite de 14 de junho a Agência de Desenvolvimento promoveu o chamado Primeiro Encontro Empresarial Regional, que reuniu técnicos do Sebrae e empreendedores da região para discutir estratégias de associativismo no auditório lotado. Na tarde do dia seguinte, representantes da sociedade civil se reuniram com Adler Kiko Teixeira, presidente do Consórcio Intermunicipal, no âmbito da Câmara Regional. A ocorrência de dois eventos em intervalo tão curto é positiva na medida em que reflete aparente apetite com que as novas lideranças se lançam ao prato do regionalismo.
Fausto Cestari assumiu a secretaria executiva da Agência no início de abril, no lugar de Silvio Minciotti, e Adler Kiko Teixeira tomou posse da presidência do Consórcio em março, em substituição a William Dib. Mas para quem acompanhou as duas reuniões a leitura não é tão satisfatória. A impressão transmitida pelo teor das discussões é de que tanto a integração dos atores produtivos quanto a interlocução da sociedade regional com agentes políticos estão em estágio bem inferior ao esperado e às necessidades da região.
O tema do Primeiro Encontro Empresarial Regional era Formação de Central de Negócios, mas o que acabou exposto e discutido foi o velho e bom conceito de associativismo, que a própria Agência de Desenvolvimento tenta inocular com resultados ainda limitados nos APLs (Arranjos Produtivos Locais) de ferramentaria, plásticos e autopeças. Fausto Cestari destacou que a Agência cumpre papel de indutora e não de executora de ações que, a seu ver, devem ser encampadas pelas secretarias municipais de desenvolvimento em parceria com empresas.
Depois, o auditório acompanhou palestra de Fabio Ignácio, consultor do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas).
A tônica da apresentação foi o conceito de que ações associativistas devem contemplar muito mais do que compras conjuntas para o barateamento de insumos com economia de escala. “O ideal é que a sinergia entre empresas de um mesmo segmento evolua a ponto de contemplar uso coletivo de equipamentos, capacitação de mão-de-obra, desenvolvimento e pesquisa tecnológica e mercadológica, busca de informações técnicas e de mercado, além de incursões de acesso a crédito” -- destacou o especialista, numa abordagem que ele mesmo identificou como provocativa. “Assim é possível obter ganhos de produtividade, lucratividade, aprimoramento da qualidade e redução do custo operacional, além de baratear compras” -- complementou.
Fabio Ignácio explicou que seria necessário passar por ciclo de três módulos de capacitação, que envolvem de ações de planejamento de marketing e vendas conjuntas, no módulo básico, até iniciativas de relações institucionais, gestão estratégica e distribuição conjunta, no avançado. E que o processo se estenderia por 14 meses a partir da formatação do grupo.
Apesar dos esforços retóricos do palestrante, é improvável uma parceria entre o Sebrae e os atores locais para aplicação do produto batizado como Central de Negócios. Fausto Cestari e integrantes da mesa não se entusiasmaram por julgar o percurso elaborado por Fabio Ignácio demasiado moroso, burocrático e acadêmico, incompatível com a realidade de micro e pequenas empresas.
Num trecho particularmente importante da palestra, Fabio Ignácio identificou comportamentos padronizados que comprometem ambição associativista: empresários não frequentam a sede da associação e quando frequentam, só vão para reclamar; ao participar de qualquer atividade encontram apenas falhas no trabalho de quem procura acertar; nunca aceitam uma incumbência, pois sabem que é mais fácil criticar do que fazer; fazem apenas o mínimo necessário e rotulam os que fazem mais como sendo integrantes de um grupinho; não lêem os comunicados da associação alegando que não trazem nada de interessante e, por fim, não dão opinião nas reuniões de diretoria, mas falam tudo que lhes vem à cabeça depois, para outras pessoas.
Que esses comportamentos de risco sirvam de alerta para a segunda fase do APL de plásticos que a Agência de Desenvolvimento vai pôr em marcha com suporte de Suzano Petroquímica, Fiesp e Banco Mundial através do braço financeiro IFC.
Após a palestra de Fabio Ignácio, Nívio Roque e Ricardo Fioravanti apresentaram ações e resultados dos respectivos sistemas de compras conjuntas da Apolo (Associação das Indústrias do Pólo Petroquímico do Grande ABC) e do Pólo de Cosméticos de Diadema. Nívio Roque contou que as empresas do Pólo Petroquímico já economizaram mais de R$ 60 milhões com a contratação conjunta de serviços como transporte, restaurante, segurança, vigilância, jardinagem e manutenção. “O nosso lema é: na busca de redução de custos comuns não existe concorrência, e sim inteligência” -- destacou.
A economia é fruto do aumento da eficiência e da economia de escala, como Nívio Roque detalhou com o serviço de transporte. “Antes o transporte dos funcionários do Pólo Petroquímico era realizado por seis ou sete empresas diferentes e o nível de ocupação dos ônibus não passava de 50%. Depois da centralização houve redução de 20% no número de ônibus em circulação e o índice de utilização aumentou para 85%. Além disso, a melhor distribuição das linhas permitiu que os ônibus passassem mais perto da casa dos funcionários” -- detalhou o comandante da Apolo e executivo da Polietilenos.
Ricardo Fioravanti explicou que a experiência do Pólo de Cosméticos de Diadema difere da apresentada por Nívio Roque. As empresas são majoritariamente de micro e pequeno porte. São cerca de 35 participantes que conseguem descontos expressivos na aquisição de insumos com leilão reverso. “As fabricantes de cosméticos informam o preço máximo que estão dispostas a pagar por determinada matéria-prima e os fornecedores concorrem dando lances a menor” -- explicou.
O exemplo do Pólo de Cosméticos animou Norberto Perrela, representante do APL de autopeças, disposto a recorrer à assessoria de Ricardo Fioravanti. Osvaldo Baradel, coordenador do APL de plásticos, disse que as compras conjuntas estão em fase inicial e que o grupo realizou algumas experiências simples que significaram abatimento de 30% na aquisição de insumos. “Os resultados da Apolo e do Pólo de Cosméticos de Diadema dão ânimo para entrarmos com mais força na seara das compras compartilhadas durante a segunda etapa do APL de plásticos” -- comentou Osvaldo Baradel.
A mesa de expositores do Primeiro Encontro Empresarial Regional completou-se com Francisco Antonio Soeltl, presidente da MicroPower e representante do setor de Tecnologia da Informação de São Caetano. Após explicar que o segmento de empresas de TI em São Caetano deve-se tanto à presença de trabalhadores especializados quanto à política de atração tributária com o rebaixamento de ISS (Imposto Sobre Serviços), Francisco Soeltl observou que leilão reverso pode ser ótima ferramenta para aquisição de matérias-primas, mas não funciona para contratação de serviços. Por isso, as empresas de TI estão mais preocupadas em harmonizar competências locais para atender aos mercados nacional e global.
Recomeço
Se para a Agência de Desenvolvimento a indução de trabalhos associativistas ainda representa desafio, a Câmara Regional vive estágio semelhante. A reunião realizada na tarde de 15 de junho representou tentativa de reabilitação de organismo reconhecidamente convalescente. “Precisamos reanimar a Câmara e dar a importância que já teve no passado. Para tanto é preciso evitar que caia no esvaziamento” -- disse Adler Kiko Teixeira diante de duas dezenas de representantes da chamada sociedade organizada, entre os quais cinco representantes do Fórum da Cidadania, incluindo a presidente Maria Helena Musachio, o gerente executivo da Acisa (Associação Comercial e Industrial de Santo André), Luis Antonio Sampaio da Cruz, além de representantes do Sindicato dos Bancários do ABC, da Aesp (Associação das Escolas Particulares), do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, da Coordenadoria dos Cursos de Ciências Biológicas da UniABC, da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de Mauá, do Instituto Biosfera e até do diretório do Partido Progressista de Santo André.
Coube a Renato Maués, diretor do Consórcio Intermunicipal, a tarefa de traçar contextualização histórica da instituição. Com apoio de projeção de slides, Renato Maués remontou à formação da Vila de Santo André da Borda do Campo, no século XVI, até chegar à criação das instituições regionais nos anos 1990. Na sequência, Adler Kiko Teixeira ouviu reivindicações que oscilaram da urgência de preservar a biodiversidade num mundo que caminha para o apocalipse ecológico até a importância da educação tributária para crianças. Maria Helena Musachio e outros integrantes do Fórum da Cidadania insistiram na importância de garantir a preservação da Chácara Baronesa, foco de invasões e habitações irregulares na divisa de Santo André e São Bernardo. Mas o presidente do Consórcio e coordenador da Câmara Regional julgou inadequado o espaço para discussão. “Precisamos focalizar temas regionais, não pontuais, para que a Câmara não caia no esvaziamento” -- insistiu Adler Kiko Teixeira -- sob protestos dos membros do Fórum da Cidadania.
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18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL