O prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho, vai seguir prefeito dos prefeitos da Província do Grande ABC, eleito que será à presidência do Clube dos Prefeitos. Convenhamos que Marinho não tem sido dos piores, como tantos outras já foram, mas está longe de marcar história como Celso Daniel, o criador da institucionalidade regional.
Uma revolução sugerida a Luiz Marinho, para que faça do segundo mandato um marco que o retiraria mesmo que levemente da condição de Executivo obreiro mas pouco versado em agregado intelectual, é que desloque o orçamento do Clube dos Prefeitos da sarjeta. Os R$ 19,7 milhões previstos para este ano são quase nada perto dos R$ 178 milhões que as sete prefeituras da região reservaram aos respectivos Legislativos em 2012. Gasta-se, portanto, muito mais com supostos fazedores de leis, encabrestados pelos Executivos, do que com o planejamento de uma regionalidade em frangalhos. O custo para supostamente sustentar a governança interna é excessivo.
Como a Província do Grande ABC caiu na farra do desencanto generalizado e incapaz de reagir às seguidas notícias sobre a permanente perda de competitividade econômica, é pouco provável que Luiz Marinho saia da toca da mediocridade geral dos gestores públicos locais. Gostaria, entretanto, de queimar a língua.
Fazer do Clube dos Prefeitos uma engenhosa e providencial linha de montagem de projetos que alterem para valer a estrutura econômica regional com visíveis sinais de esgotamento deveria ser prioridade absoluta. E isso só se faz com dinheiro para seduzir especialistas em regionalidade a prestarem serviços de inteligência com base em experiências macrometropolitanas. Preferencialmente especialistas que compreendam a dimensão do buraco em que nos metemos, da Doença Holandesa do setor automotivo cada vez mais descentralizado, mais competitivo e menos dependente de nossas fábricas de custos de produção reconhecidamente maiores.
Para melhorar o figurino
Luiz Marinho teve a boa ideia de engendrar contribuição uniforme de 0,3% do orçamento de cada Município da Província do Grande ABC para a manutenção do Clube dos Prefeitos. Daí os quase R$ 20 milhões projetados para esta temporada. É um bom começo, mas é pouco. Para que se encontre um ponto de convergência com o caráter de urgência que deveria reger a economia na região, o orçamento do Clube dos Prefeitos poderia ser multiplicado. E, mais que isso, partir de premissa diferente da reserva de 0,3% da arrecadação própria de cada Município.
O tratamento contributivo igualitário conflita com as desigualdades econômicas e sociais dos sete municípios. Desiguais devem ser tratados desigualmente. Nesse caso, o referencial deveria ser o PIB (Produto Interno Bruto) de cada Município, que ancoraria a participação relativa de cada integrante do Clube dos Prefeitos. As receitas do Clube dos Prefeitos poderiam ser referenciadas pelos recursos arrecadados diretamente pelas prefeituras, como hoje, mas o percentual relativo a cada participação seria ditado pelo mapa municipal no bolo do PIB.
Um exemplo para facilitar o entendimento: se o orçamento desta temporada do Clube dos Prefeitos fosse de R$ 50 milhões, São Bernardo e São Caetano contribuiriam com 55% do total, já que é este o percentual que detêm no PIB mais atualizado, relativo a 2011. Nada mais justo. O peso relativo de contribuição seria de acordo com a geração de riqueza. A linearidade de 0,3% que pauta o Clube dos Prefeitos sacrifica quem tem menos recursos orçamentários. Sem contar que limita excessivamente o poderio político-administrativo de mudanças que se fazem necessárias.
Uma instituição estratégica como o Clube dos Prefeitos não pode valer pouco mais que 10% das despesas gerais dos Legislativos da região porque a distância financeira sugere a exata dimensão do quanto falta ser percorrido para que regionalidade não seja um palavrão na dialética de gerenciamento público excessivamente municipalista que ainda domina a cena da Província.
Uma derrota vergonhosa
Uma cruzada pela redução geral dos gastos com os vereadores, excessivos por natureza e safadeza, ofereceria à sociedade claro sinal de que alguma novidade se delinearia no setor público tão desmoralizado. Sem contar que há infindáveis outras fontes de desperdícios a ser golpeadas para abrir espaços a desafios regionais de planejamentos promissores, porque escancarariam as portas a investimentos estaduais e federais à procura de projetos.
É verdade que o financiamento do Clube dos Prefeitos em moldes mais consistentes e, portanto, transformadores de uma realidade cada vez mais complexa, é apenas um dos muitos vetores a confrontar os atuais comandos de Paços Municipais. O gigantismo de demandas setoriais que rouba da entidade a agenda mais estrutural é enfermidade cuja cura parece improvável.
Há transposição acrítica para o campo da regionalidade dos valores conceituais de gestores municipalistas. Por razões diversas, inclusive ou principalmente políticas, multiplicam-se prioridades. O Clube dos Prefeitos precisa encontrar o eixo que o faria girar em torno de soluções econômicas sem as quais tudo o mais não tem a menor importância, porque se tornará inatingível. Quem desdenha do poder de mudanças gerado pelo crescimento econômico não pode ser encarado como gestor público sério.
Por essas e por outras a reeleição de Luiz Marinho no Clube dos Prefeitos é uma notícia sem apetrechamento modificador da situação regional. Por mais que tenha se lançado a uma empreitada que tanto rejeitou durante quatro anos de administração de São Bernardo, Luiz Marinho ainda está longe, muito longe, do necessário. A reorganização do Clube dos Prefeitos passa necessariamente por um golpe na mandíbula da mesmice estrutural que transformou a entidade em oitava instância de conteúdo conceitual municipalista. Seria Luiz Marinho, até outro dia renitente municipalista, o autor da proeza que Celso Daniel tanto solidificou como mensagem desbravadora de novos tempos?
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18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL