Ganha um doce de batata doce o leitor que responder à pergunta do título. Surgiu a ideia do questionamento depois de ler no Diário do Grande ABC que Fernando Henrique Cardoso só esteve uma vez na Província do Grande ABC nos últimos oito anos, quando fez uma palestra no antigo Imes, em São Caetano. Nem o Diário sabe quantas vezes FHC veio à região num período muito mais importante, quando dirigiu a Nação como um médico e tratou a Província como um monstro. Como se sabe, FHC volta ao noticiário local por conta de conferência que fará em Santo André na próxima segunda-feira.
Antes de responder à pergunta que fiz aos leitores, nada melhor que aferir a promoção do evento de segunda-feira. Sabe-se que os 200 convites colocados à venda não têm a vazão esperada. Esqueceram-se de que somos uma Província e nem mesmo o fato de Fernando Henrique Cardoso ter sido um algoz regional retira ou abranda a qualidade intelectual que o diferencia da grande maioria dos agentes públicos.
Sei lá se vão reduzir os preços dos convites, nem sei se a boca livre vai correr solta, mas o fato é que, temática contraproducente à parte, não faltou coragem desafiadora à programação, porque somos uma sombra periférica da luminosidade da Capital mais importante do País.
No conjunto regional não existe o que alguns tolos chamam de sociedade civil organizada. Os babacas oportunistas a desfraldar essa expressão que sintetiza a etimologia de capital social, fonte inspiradora da marca desta publicação, mal sabem o que dizem mas o fazem porque são mesquinhos. Fernando Henrique Cardoso tem luminosidade cultural para grandes acontecimentos. A Província mal sabe quem é Fernando Henrique Cardoso, para o bem e para o mal.
Houvesse cidadania regional na Província do Grande ABC, uma programação como essa com Fernando Henrique Cardoso não precisaria consumir meia página de anúncio por edição do Diário do Grande ABC para os convites se esgotarem. As próprias entidades sociais e econômicas absorveriam a oferta com rapidez, porque sempre é importante ouvir com atenção e zelo alguém com o currículo do ex-presidente. Menos evidentemente, para não constrangê-lo, sobre as omissões e as perseguições que seu governo moveu contra redutos sindicais na região, do oposicionista Lula da Silva, e cujos estragos reverberaram em todos os setores.
Constrangimentos políticos
Faz o Diário do Grande ABC um esforço tão grande para dar sustentabilidade à programação do evento que nem mesmo poupa de constrangimentos alguns políticos entrevistados na edição de domingo e que se manifestaram sobre a vinda do ex-presidente. Vá lá que os tucanos de carteirinha ou que trocaram de partido como Paulinho Serra, em Santo André, defendam a sardinha político-ideológica do ex-presidente, mas ler o que li saído da boca do prefeito petista de Santo André, Carlos Grana, que tanto atacou FHC durante os oito anos presidenciais, é de lascar. Até que ponto chega a conveniência de dizer exatamente o que consta da pauta jornalística ditada pelo jornal promotor da conferência da próxima segunda-feira.
Quanto à interrogação do título, fui ao meu acervo particular para a resposta, mas, em seguida, vasculhando a Internet, encontrei algo ainda mais representativo. Está no arquivo do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, então presidido pelo agora prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho, e tendo como secretário-geral o agora prefeito de Santo André, Carlos Grana, a resposta esperada: “Em março de 1997, FHC vai até São Bernardo inaugurar uma nova linha de montagem da Ford, o KA. Os metalúrgicos preparam uma recepção ruidosa em frente à Ford. Enquanto 600 metalúrgicos assistem à solenidade do lado de dentro da fábrica, mais 15 mil metalúrgicos protestam, do lado de fora, contra a política da exclusão e de desemprego. Na solenidade, FHC diz que a reforma da Previdência não propõe a elevação do limite de idade para se requerer a aposentadoria. Lula, durante plenária da Federação dos Metalúrgicos da CUT, afirmaria que FHC é mentiroso” – expõe o site.
A pergunta que faço é simples: pelo andar da carruagem e ante as pressões para valorizarem o passe do conferencista Fernando Henrique Cardoso, que à luz da qualificação que ostenta dispensaria esse tipo de salamaleque, até que ponto ex-sindicalistas hoje convertidos em agentes públicos sempre em busca de votos, vão se submeter a uma nova leitura do período do tucano no ambiente regional?
Um presidente da República que desdenha da força econômica da Província do Grande ABC e durante oito longos anos só passa de passagem uma única vez por aqui só é menos indelicado e pouco afeito à regionalidade do que os anfitriões do lançamento do KA na fábrica da Ford, no caso os sindicalistas chefiados por Luiz Marinho, abusivamente hostis ao então chefe do governo federal.
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18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL