Estou em dúvida se vou à festa de inauguração da nova sede do Consórcio Intermunicipal do Grande ABC, marcada para o próximo dia 19. Desconfio de que vamos ter muitos discursos cor-de-rosa, como se a região nadasse de braçadas num País à deriva.
Sei que o presidente eleito Lula da Silva vai estar presente.
Sei também que o presidente em fim de mandato Fernando Henrique Cardoso não dará as caras como, aliás, se comportou durante os oito anos de mandato -- exceto na inauguração de uma planta produtiva da Ford, em São Bernardo.
Sei também que o principal agente público que amarrou o quanto pôde o burro da regionalidade no pau da esperteza municipalista não estará presente, caso do saudoso Celso Daniel. Menos mal que ele será homenageado com a denominação do edifício que também já está sediando a Agência de Desenvolvimento Econômico e a Câmara Regional.
Se todas essas instituições tivessem funcionado a contento não estaríamos na roça como agora. Mas meu medo de ouvinte presente nesse espetáculo de tríplice inauguração é que os agentes públicos continuem a vender ilusão. E que jornalistas triunfalistas reproduzam bobagens como se verdades fossem.
Já não ando com paciência para repetecos de ilusionismo. Os mágicos de plantão já não me agradam mais porque seus truques se tornaram manjadíssimos. É verdade que alguns novos atores pensam que, exatamente por serem novos, vão conseguir ludibriar a platéia mais atenta. Mal sabem que o saco já estourou faz tempo.
Desencanto e sabotagem
Só espero que não confundam desencanto com sabotagem. Sim, porque tem gente que mal consegue escrever direito, que mal consegue dirigir uma equipe de redação, que mal pode ir ao banheiro sozinho porque perdeu o comando das próprias fezes, tem essa gente que quer dar lição de regionalidade. Quer tapar o sol com a peneira. Quer fazer da Câmara Regional, do Consórcio e da Agência símbolos inexpugnáveis de uma regionalidade que, todos sabem, é fantasia de Papai Noel.
É bem possível que, mal orientado ou mesmo porque está na fase de paz e amor, o presidente Lula da Silva repita em seu discurso velhos conceitos desmoralizados que os homens públicos da região verbalizam com o mesmo sentimento de compromisso coletivo de quem espera pelo adversário num canto de esquina, navalha na mão.
Vai ser indigesto ir à inauguração oficial dessa tríplice casa da pretendida regionalidade do Grande ABC, no próximo dia 19, ouvir firulas vernaculares e a platéia aplaudir por educação. Será que estou enganado e os discursos serão comedidos? Será que o Grande ABC dividido não será vendido como espécie de União Européia?
E os toscos candidatos a Celso Daniel, então, quantos não teremos entre as autoridades públicas locais? Será que uma delas vai de calça comprida ou mesmo de vestido?
O outro lado
De qualquer forma, mesmo correndo todos esses riscos e de até sorrir e cumprimentar por educação um ou outro agente público e privado que aprecia mesmo o servilismo, talvez valha a pena ir até lá. Afinal, haverá a recompensa de encontrar gente inteligente, honesta, que veste de verdade a camisa do Grande ABC.
Pensando bem, dá até para suportar os malabarismos semânticos de quem diz em público exatamente o contrário do que expõe em conversas reservadas.
No fundo, no fundo, espero que o Grande ABC institucionalizado que vai à festa não caia novamente na besteira de satisfazer-se com mais uma demonstração de suposta densidade representativa. Lulacá, Urgente! é muito mais que a presença física de Lula da Silva numa festa. É a capacidade organizacional para trazer um pouco de todos os poderes econômicos de Brasília para o Grande ABC.
Que nosso Complexo de Gata Borralheira não se satisfaça simplesmente com o discurso de Lula da Silva nem tampouco com a referência material à memória de Celso Daniel, que é essencialmente filosófica.
Consórcio Intermunicipal de Prefeitos, Agência de Desenvolvimento Econômico e Câmara Regional são obras institucionais inacabadas. Até agora, verdade seja dita, mais prometeram que realizaram. Basta ver o estado socioeconômico em que estamos. Nossos piores anos da história coincidem com os anos de criação e atuação desses organismos. O que significa isso? Que buscamos mecanismos adequados para o vendaval que nos atingiu, mas não tivemos capacidade de articulação para definir prioridades. Caímos no varejismo de pontualidades e esquecemos que nossos males são estruturais.
E não adianta virem com o discurso conformista de que é preciso dar tempo ao tempo, porque o trem-bala da globalização não pede passagem. Temos que conciliar ações de curto, médio e longo prazo de tal forma que o que é realizado hoje embale a proposta de amanhã e favoreça-o depois de amanhã.
Espero, sinceramente, que os agentes escalados para discursar durante a inauguração deste dia 19 tenham pelo menos a responsabilidade social de construir mensagens que retratem o quadro de esfarelamento regional. Até mesmo para que, quando as relações entre a região e Brasília se consolidarem para o atendimento de nossas reivindicações, o presidente Lula da Silva não seja obrigado a responder que estamos chorando de barriga cheia.
Enfim, que todos aqueles que eventualmente falarem em nome do Grande ABC não esqueçam de que estamos sob escombros deixados por Fernando Henrique Cardoso. Não cometam a heresia de tentar transformá-los em ouro e o evento seja apenas um rasga-sedas.
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18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL