Regionalidade

Municipalismo exagerado
pode enxergar fantasmas

DANIEL LIMA - 27/06/2003

No livro Complexo de Gata Borralheira, conhecido de todos que têm alguma relação de responsabilidade municipal e regional, o personagem São Caetano é espécie de estranho no ninho no Grande ABC. Colado à Cinderela Capital, São Caetano vive situação de dupla personalidade.  


 


Ao mesmo tempo em que pretende renegar relações com as vizinhas locais, porque se sente em situação social e econômica de notória vantagem, sabe que ao se juntar à glamorosa e esfuziante São Paulo perderá o brilho e acentuará o gataborralheirismo. Resumo da ópera: fecha-se em torno de si mesma e exercita o bairrismo mais pronunciadamente vigoroso intra-territorial no Grande ABC, com as vantagens e as desvantagens que essa condição oferece.


 


Como se sabe -- pelo menos foi o que procurei transmitir naquele livro --, os demais municípios do Grande ABC são gataborralheirescos tanto quanto São Caetano, porque vêem São Paulo como o suprassumo da seletividade, por piores que sejam muitos dos referenciais que se transformam em falso brilho. A diferença desses municípios é que não exercitam o enclausuramento tão evidente como São Caetano.


 


Os vetores sociais, culturais e econômicos explicam o comportamento, porque são mais difusos. Há porções de relacionamentos típicos de São Caetano em bairros de classe média dos demais municípios da região, como se sabe. Se no passado a condição econômica alicerçava o separatismo, mais recentemente quem dá o tom é a falta de segurança pública.


 


Mais poderia escrever sobre as mutações internas do gataborralheirismo que permeia os municípios do Grande ABC, mas não é o caso. O ponto sobre o qual pretendo chegar como cidadão do Grande ABC nascido em Guararapes, ex-domiciliado em Mauá e em Santo André e já há duas décadas em São Bernardo, é que o grau de complexidade e de suscetibilidade que cerca as relações com parte do grupo que gira em torno da Prefeitura de São Caetano tem semelhança em enrosco interpretativo com as estéreis e desgastantes discussões futebolísticas. Por isso, perdem o sentido da racionalidade.


 


Mais que no futebol, diria, as relações institucionais internas no Grande ABC são francamente irritantes, porque a gênese do municipalismo repartido em sete pedaços emergiu de Santo André da Borda do Campo como núcleo patrocinador das afiliadas sem deixar de passar, também, pela unificação em torno de São Bernardo. Veio depois, como se sabe, o fracionamento com Santo André e, daí, surgiram os demais municípios. Ou seja: pelo menos cinco dos sete municípios não foram unidades autônomas ao longo dos tempos. É como a dissidência palmeirense que emergiu do Corinthians e provocou, como se sabe, a mais acirrada rivalidade paulista.


 


Particularmente aos mais conservadores de cada Município, que procuram manter intactas as demarcações cartográficas, manifestar-se sobre conceitos de República do ABC é heresia. Emparedados pelo viés municipalista, esses agentes abominam o regionalismo. Por isso, simplesmente vetam qualquer possibilidade que ultrapasse o incontrolável traçado urbanístico que não respeita vontades exceto econômicas.


 


A título de quê escrevo estas linhas? Por causa da edição de anteontem do CapitalSocial, quando me referi ao título de São Caetano no Índice de Desenvolvimento Econômico Equilibrado e pelo fato de que, somados os sete municípios que compõem o Grande ABC, caímos para o 11º lugar. Vejam o fragmento do texto que provocou uma reação descabida:


 


 O 11º lugar do Grande ABC é um sinal de que o oásis São Caetano vai-se desmanchando na medida em que os números atravessam suas fronteiras e se dirigem aos demais municípios. Nada pior, porque São Caetano tem participação relativa reduzida no conjunto de sete municípios. Por isso é um oásis, ora bolas!


 


Um leitor assíduo deste espaço, homem inteligente e cujo nome não tornarei público porque seu emeio contestatório foi dirigido em off, simplesmente viu discriminação a São Caetano, quando, de fato, o que expusemos foi um elogio à situação do Município. Para que não haja dúvida, vou traduzir aquele inadvertidamente mal-interpretado enunciado. Leia-se o seguinte:


 


 O 11º lugar do Grande ABC é um sinal de que o oásis São Caetano de território de 15 quilômetros quadrados e campeão do IDEE, como do IDH, não se reproduz nos demais municípios locais e ao redor de mais de 800 quilômetros quadrados que representam a área regional.


 


É uma pena que às vezes se tenha de recorrer a uma linguagem jornalística convencional para que se possa ser entendido por aqueles que colocam o municipalismo conservador acima de tudo. Nada necessariamente contra a defesa intransigente de qualquer dos territórios municipais da região, mas não é preciso enxergar fantasmas textuais, certo?   


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