O entrevero envolvendo o prefeito Luiz Marinho e o empresário Ronan Maria Pinto, dono do Diário do Grande ABC, na disputa pela presidência do Clube dos Prefeitos do Grande ABC, é sintoma de uma enfermidade que precisa de terapia radical: a Província do Grande ABC é palco de disputas de grupos pelo controle do poder político e econômico. O antídoto é a mobilização da sociedade.
E é esse o nó górdio regional. Um nó górdio mais forte nestes tempos em que as redes sociais deslocaram de vez o foco dos possíveis combatentes locais a esferas do poder central. Nossa regionalidade desaba porque agora estamos engajados em disputas nacionais. O escândalo da Petrobrás conta com maior aderência regional do que a soma de todas as nossas inquietações.
Estava decidido a esmiuçar a briga entre o prefeito dos prefeitos Luiz Marinho e o empresário Ronan Maria Pinto, mas há questões mais importantes para colocar na mesa de debates sobre o Clube dos Prefeitos. Permito-me apenas dizer que os dois perderam esse jogo de soma zero. Ronan perdeu porque foi denunciado por Marinho como agente paralelo de ação política, ao tentar convencer os demais prefeitos a não votarem no projeto de terceiro mandato do prefeito de São Bernardo. Marinho acusa o empresário de delito ético nas páginas do jornal ABCD Maior. Não se tem notícia de reação do dirigente do jornal. Marinho perdeu porque transmitiu a ideia de que recuou tardiamente do projeto de seguir à frente do Clube dos Prefeitos, já que havia mais de 30 dias estimulava a empreitada.
Modernidade e transparência
O Clube dos Prefeitos precisa de lufadas de modernidade e transparência, mas pelo visto o prefeito Luiz Marinho quer mesmo limitar as novidades ao uso de novos recursos financeiros com a opacidade de uma organização avessa à comunidade. A tessitura institucional do Clube dos Prefeitos é um modelo perfeito dos regimes socialistas que já ruíram de podres. Há quase um quarto de século, desde que foi criado, o Clube dos Prefeitos sustenta distância quilométrica da sociedade. E tudo indica que, agora, com dinheiro farto a coordenar obras regionais, seguirá uma cartilha ainda mais reservada.
A primeira medida de Luiz Marinho como prefeito dos prefeitos após o estouro da boiada do escândalo da Petrobrás seria convocar os demais titulares dos paços municipais e montar uma frente de trabalho para estabelecer medidas que retirem da instituição a desconfiança que paira sobre todos os entes públicos. Em condições normais de tempo e temperatura política, essa seria uma ação republicana. Mas quem disse que Luiz Marinho tem vocação à claridade?
A importância do Clube dos Prefeitos num contexto de democratização que contemplaria gente independente da sociedade como integrante de um Conselho Consultivo obrigatoriamente com assento e voz em todas as reuniões de diretoria ultrapassaria os limites atuais. A tal ponto que o orçamento turbinado nos últimos anos é ainda ridículo ante os desafios regionais.
O modelo sonhado para o Clube dos Prefeitos e que combinaria equilíbrio de forças entre administradores públicos, representantes econômicos e forças independentes da sociedade poderia proporcionar reviravolta no estado de apoplexia regional. O problema é que não parece existir o menor interesse da agremiação em encaminhar qualquer instrumento que destrave a porta fechadíssima à sociedade.
Ordem cronológica e sorteio
A possibilidade de permitir três eleições seguidas, em fase de aprovação e que valeria a partir de 2016, é uma aberração tanto quanto a definição do novo ocupante da presidência ao sabor das circunstâncias políticas, como tem sido desde sempre. Um rodízio anual da presidência com base numa tabela pétrea, sabendo-se, por exemplo, a ordem cronológica dos municípios que terão presidente nos anos restantes desta década, resultado de sorteio, quebraria a espinha dorsal da politização que Luiz Marinho exercita em regime semelhante ao da maioria dos antecessores.
Outros pontos precisam ser acrescentados ao estatuto do Clube dos Prefeitos, inclusive em relação ao orçamento anual. É indescartável às políticas de cunho regional que os municípios locais contribuam proporcionalmente de acordo com receitas próprias e que esses valores sejam anualmente elevados, até atingir patamar previamente estabelecido. O caminho do dinheiro e de consequentes investimentos é o melhor remédio para a Província do Grande ABC dar vez à interação dos administradores municipais. Deixar o encontro das águas ao sabor das vontades individuais é depender demais do imponderável.
Também os recursos humanos que poderão integrar o acervo técnico do Clube dos Prefeitos à formulação de ações públicas que harmonizem e racionalizem os investimentos que ultrapassam os limites de ganhos municipais devem ser acrescentados ao portfólio do Clube dos Prefeitos. Entretanto, nada que lembre a contratação de servidores como se deu recentemente, sem respaldo de informações que justificassem a medida.
Limites aos recursos humanos
Para evitar que o Clube dos Prefeitos caia na gandaia do empreguismo misturado com aparelhamento técnico, critérios de produtividade deverão ser rigorosamente estabelecidos e monitorados. E mais: é indispensável que despesas com os recursos humanos tenham limites estatutários severos a fim de evitar o empreguismo devorador de orçamentos futuros. Estão aí as universidades públicas estaduais a confirmar a tese de que em casa em que prevalece o assembleísmo, a barafunda emerge.
Há muitas outras possibilidades de evitar que o Clube dos Prefeitos se torne mais improdutivo do que se consolidou ao longo da história. Até recentemente a escassez de dinheiro poderia ser arguida como justificativa ao fracasso, mas desde que passou a ser reconhecida como instituição que preenche o arcabouço jurídico de ente autônomo, a perspectiva de novos tempos deixou de ser fantasia.
A investida de Luiz Marinho e o contragolpe de Ronan Maria Pinto fazem parte do Clube dos Prefeitos que precisa ser dinamitado. Resta saber se haverá gente qualificada e regionalmente comprometida com o futuro a fim de retirar a entidade do varejismo estrutural.
Acompanho o Clube dos Prefeitos praticamente desde os primeiros momentos de criação. Só no acervo desta revista digital a expressão “Clube dos Prefeitos” aparece 224 vezes, a partir de fevereiro de 2005, quando adotamos essa marca em substituição ao sofrível “Consórcio Intermunicipal”. Antes desse período, são 130 registros.
Já propusemos série de medidas a fim de dar à instituição dinamismo que jamais teve porque quase sempre se pautou pela política partidária e pelo individualismo do comandante de plantão. Menos, muito menos, nos tempos de Celso Daniel, idealizador e insuperável na entrega a um projeto que pretendia destruir na prática o que os emancipacionistas da metade do século passado perpetraram com objetivos que se comprovaram contraproducentes -- ou seja, a subdivisão do território regional em sete pedaços municipais conflitantes, arrogantes e improdutivos em políticas públicas.
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18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL