Esse Clube dos Prefeitos não toma jeito mesmo. Agora vem com a conversa mole, liderada pelo prefeito dos prefeitos oficial, Luiz Marinho, de juntar-se aos aproveitadores que querem a volta da CPMF para tapar os buracos orçamentários da gestão petista. Como ao longo das últimas décadas são bons de conversa os prefeitos da região! Há exatamente 12 anos eles, prefeitos de então, anunciaram aos quatro ventos que lançariam um indicador social do nível da qualidade de vida da região. O então Imes, que até já mudou de marca, porque se chama USCS, esse palavrão que significa Universidade Municipal de São Caetano do Sul, foi utilizado como bucha de canhão para dar ares de seriedade àquele anúncio. Estamos esperando até agora.
Como escrevi em 20 de dezembro de 2003, há exatamente 12 anos, portanto, “tremo de inquietação quando o poder público se mete a trilhar o caminho estatístico”. Ora, se tremo, então foi ótimo que o tal índice não tenha ganhado vida. Mas que era interessante a proposta, não posso negar, mesmo desconfiando dos propósitos dos prefeitos e de assessores sempre loucos para ocupar manchetes e manchetíssimas sem o compromisso de prestar contas à sociedade desorganizada. Não só desorganizada, mas agora, com o advento de redes sociais, dividida nos respectivos guetos de interesses pessoais.
Palavrão impronunciável
Chamava-se IRQVU o natimorto indicador que o Clube dos Prefeitos prometeu à comunidade regional. Não resisti, naquele artigo de 12 anos, ao zombar da sopa de letras adotada para o Índice Regional de Qualidade de Vida Urbana. “Bem que poderia ter uma roupagem menos complicada. Quem vai conseguir pronunciar essa marca numa emissora de radio ou de televisão? Nos jornais, então, vai ser um problemão arrancar um título com tantas letras” – escrevi à época.
E fui adiante no metralhamento público daquela compactação nominal: “Problemas de acasalamento entre vogais e consoantes à parte, sonoridade também deixada de lado, não é isso o que realmente me preocupa. Segundo o noticiário do Diário, o indicador regional será apresentado de forma semelhante à do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), com notas entre 0 (menor nível de qualidade urbana) e 1 (maior nível). Segundo o coordenador do trabalho, David Garcia Penof, do Imes, o indicador de qualidade de vida terá maior abrangência e será específico para combinar variáveis externas com pesquisa local” – expliquei naquele texto.
Segundo aquela matéria que preparei aos leitores desta revista digital à época uma newsletter, já que contava com a revista impressa LivreMercado, o IRQVU de mau gosto seria composto de cesta com sete componentes: saúde, educação, qualificação urbana, emprego e renda, segurança pública, saneamento e condições de morais. O instrumento atenderia à demanda do Clube dos Prefeitos e da Agência de Desenvolvimento Regional à orientação dos técnicos das prefeituras na elaboração de políticas públicas.
Objetivo suspeitíssimo
Continuarei a transplantar a este artigo trechos redigidos no passado na tentativa de oferecer certa dinâmica à narrativa. Escrevi também que “sem sociedade, é provável que muito se esconda”, referindo-me à proposta de estatização do projeto. Motivos não faltavam e continuam a não faltar para desconfiar da gestão estatal. Escrevi à época: “Querem um exemplo prático de que a imprensa de maneira geral compra gato por lebre sem pestanejar? Pode até ser que não seja gato, mas não custa desconfiar de um release divulgado há três semanas pela Prefeitura de Mauá. Dava-se conta de que algumas dezenas de indústrias estariam se atirando nos braços do Polo de Sertãozinho. Não havia nada de efetivamente sólido no material de imprensa distribuído e que virou manchetes em vários veículos que garantisse a veracidade das informações. Insisto: podem ser informações corretas, éticas, mas nada até agora assegura esse perfil. E a mídia nem se importou com isso, porque o que interessa à maioria é não perder a oportunidade de dar uma boa notícia” – escrevi há 12 anos.
Mas o principal motivo que levou este jornalista a desconfiar da sustentabilidade ética do indicador proposto pelo Clube dos Prefeitos ficou clarificado nos seguintes declarações de Maria Inês Soares, publicadas no Diário do Grande ABC: “A prefeita de Ribeirão Pires e vice-presidente do Consórcio Intermunicipal, Maria Inês Soares, disse que a publicação terá objetivo de divulgar a imagem da região para atrair investimentos externos”. Não resisti ao seguinte comentário: “Então, sentiram o golpe baixo? Se o medidor de qualidade de vida do Grande ABC vai incursionar pelos campos da segurança pública, da saúde, da educação, do saneamento, das condições de moradia, da qualificação urbana, do emprego e renda, e se isso será ferramenta de marketing, está mais do que claro o convite a uma cerimônia de casamento improvável entre a credibilidade e o triunfalismo” – escrevi.
No último parágrafo daquele artigo fiz a seguinte sugestão aos prefeitos: “Por isso, caros prefeitos do Grande ABC, cuidado com o andor estatístico porque o santo da credibilidade é de barro”.
Indicador aproveitável
Recorro ao passado de um texto que julgo importante porque mostra que é contínuo o despertar de ideias miraculosas de autoridades públicas da região, mas cujo desfecho é uma calamidade. O esquecimento daquele macroindicador foi uma ótima consequência, porque poderíamos ter de conviver com novas invencionices oficiais. Mas, pensando bem, se o conceito daquele projeto fosse alterado e desse lugar a agentes privados suficientemente libertos dos tentáculos oficiais, eis que teríamos um arrazoado estatístico valioso não necessariamente para atrair investimentos, porque seria uma tremenda ação de prestidigitação, mas para que a verdade sobre a infraestrutura social da região ficasse muito mais à vista e retirasse os gestores públicos do comodismo de esperar pelo reforço providencial da CPMF. Desde que, claro, aquele indicador fosse confrontado com dados de outros municípios nos referidos quesitos. Como cansamos de realizar nesta revista digital.
Aliás, o indicador do Clube dos Prefeitos que ficou na poeira do tempo era uma tentativa da prefeita dos prefeitos, Maria Inês Soares, abafar a atuação do Instituto de Estudos Metropolitanos, organização que criamos para medir muito mais que sete indicadores sociais. Eram 15 vetores nas áreas criminal, econômica, tributária e social envolvendo mais de meia centena de municípios paulistas.
Aquele projeto que durou alguns anos e que, por ser mais completo e interessante que qualquer outro já anunciado na região, poderia, isto sim, ser adotado pela Província do Grande ABC, desde que a Província fosse diferente do que é. Claro.
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18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL