Se a convergência de agentes públicos, privados e institucionais é condição indispensável para o fortalecimento de políticas setoriais, Santo André caminha na direção certa ao ganhar ares de capital nacional do plástico com a realização de seminário seguido de rodada de negócios. O seminário lotou o Teatro Municipal de Santo André na noite de 8 de outubro e a rodada de negócios reuniu cerca de 300 empreendedores no salão do Clube Atlético Aramaçan ao longo do dia seguinte. Os eventos promovidos pelo Grupo de Trabalho Petroquímico Plástico da Câmara Regional e pela Secretaria de Desenvolvimento e Ação Regional de Santo André tiveram o signo da complementaridade. O seminário inspirou reflexão sobre os rumos da cadeia do plástico às vésperas da expansão do Pólo Petroquímico de Capuava, programada para outubro de 2008. Já a rodada de negócios atendeu anseios pragmáticos por estreitamento de relações comerciais.
O sucesso do seminário só não foi maior porque faltou regionalidade. Prefeitos e secretários de Desenvolvimento de Mauá, São Bernardo e São Caetano não apareceram. De Diadema veio o vice-prefeito e secretário de Desenvolvimento Econômico e Emprego Joel Fonseca. Sinal claro de que diferenças políticas e partidárias continuam atrapalhando a integração regional.
A visão do Teatro Municipal praticamente lotado ganha colorido especial quando se recorda que o público deixou a desejar na edição do ano passado. A recuperação resulta de medidas adotadas pelos organizadores — funcionários da Secretaria de Desenvolvimento e Ação Regional de Santo André. O seminário deste ano foi estrategicamente realizado das 18h30 às 22h30 para facilitar a participação de micro e pequenos empreendedores — diferentemente do anterior, que se estendeu de manhã ao final da tarde. Além disso, teve formato de talk show ancorado pelo jornalista Milton Jung. Ele usou a experiência na Rádio CBN (Central Brasileira de Notícias) para orquestrar dois blocos de debates. O primeiro focado em acesso a crédito e o segundo voltado à inovação de produtos e processos.
Conteúdo prejudicado
A escolha do jornalista foi acertada como marketing promocional, mas prejudicou o conteúdo. Como não conhece a realidade do Grande ABC nem do setor petroquímico e plástico, Milton Jung recorreu a perguntas óbvias e genéricas em vez de centralizar os debates nas prioridades regionais. Tampouco demonstrou discernimento à filtragem ao endereçar perguntas da platéia, ao final dos dois blocos. Formulou questões equivocadas. Como ao questionar o prefeito João Avamileno sobre o Pólo Petroquímico do Grande ABC sofrer tanto e não crescer como deveria se existe tanta convergência entre os “companheiros” presentes ao seminário e o governo federal partidariamente alinhado. Após atualizar o interlocutor com breve retrospectiva das perdas econômicas impostas pela globalização e a mobilização regional em torno da criação da Câmara Regional e da Agência de Desenvolvimento, João Avamileno disparou: “Você cita o Partido dos Trabalhadores, mas foi através do meu partido que conseguimos maior participação no governo estadual, então governado por Mário Covas, a ampliação do Pólo Petroquímico do Grande ABC e a criação da Universidade Federal do Grande ABC” — citou.
Apesar da ausência de executivos das demais prefeituras e da pouca intimidade de Milton Jung com aspectos locais e setoriais, quem foi ao Teatro Municipal teve satisfação garantida. Sobretudo porque integrantes do painel de abertura apimentaram o debate. O presidente do Sindicato dos Químicos do ABC, Paulo Lage, aproveitou a presença de Lídia Barreto, gerente de Planejamento da Petrobrás, para cobrar liberação de matéria-prima adicional ao Pólo Petroquímico de Capuava. “A ampliação em curso é bem-vinda, mas não resolve nossos problemas. Passo mais importante será dado quando entrar em debate a duplicação do Pólo de Capuava. Aí sim teremos condições de gerar mais empregos de qualidade.”
Processamento e demanda
A mesma linha foi seguida pelo ministro da Previdência Social, Luiz Marinho. “Não é justo que a demanda por plásticos esteja concentrada no Estado de São Paulo e o processamento de matérias-primas não esteja. Por que encarecer os plásticos produzindo do outro lado do País e o consumindo aqui?” — questionou Luiz Marinho.
O ministro da Previdência lembrou que avanço substancial foi registrado quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva rompeu com o pouco-caso do governo anterior ao exigir que a Petrobrás atendesse antigo desejo de ampliação. “O governo anterior avisou que não faria a ampliação, mas o presidente Lula mandou fazer” — destacou. Mas o ministro também não se deu por satisfeito. Exortou a representante da Petrobrás a intervir a fim de estabelecer equilíbrio produtivo. Quando a ampliação estiver concretizada, a capacidade da Petroquímica União saltará de 500 mil para 700 mil toneladas de eteno por ano.
Entretanto, Copene, da Bahia, e Copesul, do Rio Grande do Sul, processam mais de um milhão de toneladas de eteno cada. E o complexo gás-químico Rio Polímeros deu partida em 2005 com 500 mil toneladas por ano, volume semelhante ao da PQU. A PQU já respondeu por 100% da produção nacional de eteno como primeira central de matérias-primas do País — participação que caiu para menos de 20% após a descentralização produtiva incentivada pelo governo federal.
Isonomia já
O deputado estadual Vanderlei Siraque reforçou a reivindicação por isonomia tributária dos fabricantes de resinas paulistas em relação aos concorrentes de outros Estados. São Paulo cobra 18% de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) nas operações internas, isto é, nas vendas dentro da própria unidade federativa — muito acima dos 10% da Bahia e dos 12% do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul. “Até pensei que o vice-governador e secretário de Desenvolvimento Alberto Gold-man viria pessoalmente nos dar a boa notícia, mas pelo jeito vamos ter de aguardar mais um pouquinho e permanecer na luta” — ironizou Vanderlei Siraque. No lugar de Alberto Goldman compareceu o chefe de gabinete Sérgio Zola, espécie de representante do representante, como o próprio emissário deixou claro. “Com a impossibilidade da vinda do secretário, estava prevista a presença do secretário adjunto Carlos Américo Pacheco. Mas ele também não pôde vir” — explicou Sérgio Zola, antes de se sair com o protocolar “estamos à disposição”.
Disposição é o que falta para que o governo do Estado aprove a redução do ICMS ao patamar dos concorrentes. A Secretaria da Fazenda informa que o assunto encontra-se em análise técnica, mas é preciso acelerar o processo de decisão porque a competitividade da cadeia plástica não pode esperar. Afinal, o que está em jogo é a criação de 12,5 mil postos de trabalho nas empresas de terceira geração a partir de outubro do ano que vem. A cada 16 toneladas de processamento na segunda geração é criado um emprego na terceira. A capacidade de processamento da Petroquímica União saltará de 130 mil para 330 mil toneladas/ano.
Passando por cima
O secretário executivo da Agência de Desenvolvimento Econômico, Fausto Cestari, traçou prognóstico audacioso ao afirmar que o setor petroquímico e plástico reúne condições para superar a importância do segmento metal-mecânico para a economia do Grande ABC. Acreditando-se que Fausto Cestari não fez estimativa com base na expectativa de aprofundamento das perdas das montadoras e autopeças, seriam necessárias várias medidas para que a projeção fosse alcançada — e que vão além da isonomia tributária e da duplicação do Pólo Petroquímico do Grande ABC.
A lista de procedimentos inclui oferta de áreas bem localizadas e a preços convidativos para absorver ampliação e instalação de empresas transformadoras de plástico; ganho logístico com o trecho sul do Rodoanel e intervenções complementares no entorno do Pólo Petroquímico do Grande ABC; aproximação entre universidades, instituições de pesquisa e micro e pequenos empreendedores e, principalmente, comprometimento dos prefeitos acima de interesses políticos e eleitorais. Essas medidas ganharam conotação documental no folder distribuído aos protagonistas do seminário e aos participantes da rodada de negócios.
Após a abertura, o palco do Teatro Municipal foi transformado em sala de estar para acolher a primeira fase do talk show, cujo tema principal era acesso a crédito e investimento. Aí veio a surpresa desagradável da noite: a gerente de Planejamento da Petrobrás, Lídia Barreto, se ausentou: alegou necessidade de tomar vôo para o Rio de Janeiro. A executiva se dispôs a responder a uma pergunta de Milton Jung, que aproveitou para avaliar o grau de comprometimento da Petrobrás com a cadeia petroquímica do Grande ABC. Lídia Barreto desviou do assunto ao comentar que o propósito da Petrobrás não é a reestatização do setor petroquímico — como se especulou após a aquisição da Suzano Petroquímica — e partiu.
Mais produção
Ao deixar o Teatro Municipal, a representante da Petrobrás não ouviu o presidente da Unipar, Roberto Garcia, reivindicar matéria-prima adicional para o Pólo Petroquímico do Grande ABC, como Paulo Lage e Luiz Marinho no painel de abertura. A Unipar é controladora da PQU e da Polietilenos União. “Temos condições de duplicar o Pólo Petroquímico de São Paulo. Este é o nosso plano” — expôs Roberto Garcia, quando questionado por Milton Jung sobre a propalada Companhia Petroquímica do Sudeste, que pode ser formatada com o alinhamento de ativos do Grupo Unipar e da Petrobrás. Mais especificamente, Milton Jung quis saber qual das duas centrais se sairia melhor na batalha por investimentos — se a mais antiga de São Paulo ou a caçula do Rio de Janeiro, chamada Rio Polímeros. Roberto Garcia procurou dar a conotação de que as centrais são parceiras, não concorrentes. “Quando se fala em Petroquímica do Sudeste, o que queremos é valorização do bloco do Sudeste. Se não fosse a ampliação em curso no Pólo Paulista e o surgimento do Pólo do Rio de Janeiro, não estaríamos falando na Petroquímica do Sudeste, mas na Petroquímica da Bahia e do Rio Grande do Sul. Estamos procurando fazer uma coligação vitoriosa” — esclareceu.
O gaúcho Milton Jung retrucou com ironia. “O seu entusiasmo me deixou preocupado. Estou com medo de que parentes ficarão desempregados lá no Rio Grande do Sul.” Ao que Roberto Garcia respondeu: “Esse risco não existe, porque o Rio Grande do Sul tem condição muito mais segura e estável. Foi o terceiro Pólo do País, mas saiu na frente e dispõe de base competitiva com escala de produção muito maior”.
Mais participantes
Além de Roberto Garcia, o primeiro bloco do talk show teve participação de Nilton Sacenco, secretário substituto do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, do prefeito anfitrião João Avamileno e do representante do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) Eduardo Fernandes. Nilton Sacenco abordou temas macroeconômicos como taxa de investimento em relação ao PIB (Produto Interno Bruto), PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), a provável conquista do grau de investimento pelo Brasil no ano que vem, entre outros, mas passou ao largo do tema principal. Já Eduardo Fernandes conquistou salvo-conduto da platéia ao abordar o principal instrumento de crédito para empresas de terceira geração, de pequeno e de médio porte: o cartão do BNDES, que acena com taxa de juro subsidiada para equipamentos e insumos no limite de R$ 250 mil por instituição financeira conveniada — leia-se Banco do Brasil, Caixa Econômica e Bradesco.
O segundo bloco do talk show, sobre inovação de produtos e processos, teve contribuição valiosa de Mário Salermo, chefe do departamento de Engenharia de Produção da Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo). Com base nas dificuldades estruturais dos empreendedores da terceira geração, Mário Salermo sugeriu modelo inovador de parceria entre academia e iniciativa privada. “Todos os cursos de engenharia têm estágio obrigatório não somente na USP mas em outras escolas. Alunos do quinto ano praticamente não têm aulas, uma vez que atuam em empresas com supervisão de professores. Que tal aplicar este modelo às empresas de terceira geração? É possível fazer convênio com USP, Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e Universidade Federal do Grande ABC para ajudar na modernização gerencial da cadeia do plástico. O papel de articulação pode ser desempenhado pela Agência de Desenvolvimento Econômico. Não custa quase nada, mas é preciso ter alguma capacidade de governança” — sugeriu Mário Salermo.
“A região é privilegiada em concentração de universidades. Podemos fazer um milhão de coisas desde que haja aproximação para trabalhar de forma dirigida. Não se trata de fazer pesquisa por pesquisa, mas pesquisa voltada à descoberta de novas funcionalidades para os produtos” — endossou Cláudio Marcondes, gerente de Serviços Técnicos da Suzano Petroquímica.
Futuro ameaçador
A pena de não se aproveitar oportunidades como a sugerida por Mário Salermo é o risco real de padecer no futuro cada vez mais globalizado, como alertou José Ricardo Roriz Coelho, presidente do Siresp (Sindicato da Indústria de Resinas Plásticas) de São Paulo.
“A região tem força de trabalho, cinturão de universidades, proximidade do Porto de Santos, maior mercado consumidor do País e uma central petroquímica que investe. Temos de transformar o Grande ABC em referência mundial do plástico. Se a segunda geração não tiver a terceira geração para consumir seus produtos, seremos obrigados a exportar para a China, como já aconteceu com as indústrias têxtil, de calçados e de lâmpadas” — alertou José Ricardo Roriz Coelho.
O segundo bloco do talk show contou também com Mauro Azanha, gerente de Desenvolvimento de Produtos da Petroquímica União, e Murilo Azevedo Guimarães da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos). Murilo Azevedo fez apresentação institucional do órgão vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia e Mauro Azanha lembrou que todas as indústrias de segunda geração contam com centros de prestação de serviços para dar suporte à terceira geração, e que os empreendedores deveriam aproveitar o benefício de forma mais intensa.
Rodada de negócios
A rodada de negócios reuniu no dia seguinte cerca de 300 empresários com aplicação de fórmula cada vez mais utilizada dentro e fora do Grande ABC: aproximação entre fornecedores e compradores em potencial — as chamadas empresas-âncora. O salão social do Clube Atlético Aramaçan foi tomado por 17 grandes mesas quadradas, cada qual ocupada por uma âncora, um coordenador e 16 fornecedores potenciais. A cada 20 minutos os fornecedores trocavam de mesa. Todos se apresentaram e trocaram cartões ao final do dia. As âncoras foram Philips/Walita (eletrodomésticos), Bandeirantes e Líder (brinquedos), Zanella Motos, Autometal, CGE e Faurecia (autopeças), Romi (máquinas), Brastemp/Cônsul (linha branca), Coop (varejo), Fratta e Copafer (construção civil), Biolivas, Bombril e Sholler (embalagens), além de Activas e Unipar (resinas). Os coordenadores responsáveis pelo controle do tempo de apresentação eram representantes de instituições como Abief (Associação Brasileira da Indústria de Embalagens Plásticas Flexíveis), INP (Instituto Nacional do Plástico), Centro Universitário da FEI (Fundação Educacional Inaciana Pe. Sabóia de Medeiros) e Sebrae-SP (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas). E a listagem de fornecedores potenciais contemplava empresas do Grande ABC e da Grande São Paulo.
Mas que o nome do evento em segunda edição não seja tomado ao pé da letra para não gerar falsa expectativa. “Algumas empresas fecham negócios durante a rodada, mas o mais comum é o primeiro contato para relacionamentos comerciais posteriores” — destaca David Gomes de Souza, diretor da pasta de Desenvolvimento e Ação Regional de Santo André. Ao final da Rodada de Negócios, os participantes receberam presente especial: kit composto de DVD com a história e os desafios da indústria petroquímica e da cadeia de terceira geração, além de folder com diretrizes para o desenvolvimento do setor no Grande ABC.
Total de 520 matérias | Página 1
18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL