Regionalidade

Universidade Federal é farsa
desenvolvimentista. Confira

DANIEL LIMA - 23/10/2015

A Universidade Federal do Grande ABC (UFABC) é uma farsa acabadíssima que ajuda a comprometer a qualidade de vida na Província do Grande ABC, por conta dos descaminhos econômicos. Vou mostrar em mais um artigo, agora com o testemunho de um executivo da própria UFABC, o quanto essa instituição é inútil quando se coloca no prato de avaliações o interesse regional.


 


A nossa frágil regionalidade decorre entre outros motivos da ausência de uma instituição de ensino público comprometida com o andar da carruagem da economia. Por essas e por outras não se entende a notícia de que a UFABC foi contratada para, em parceria com outra entidade, gerir o Plano Plurianual Regional do Clube dos Prefeitos. Ou melhor: se entende sim, porque o Clube em questão é uma lástima como gestor da integração regional se o balizamento de atuação for a premissa de medidas de cunho desenvolvimentista.


 


A Universidade Federal do Grande ABC que temos há uma década é uma farsa porque não está de acordo com os pressupostos com que deveria ser concebida e chegou a ser defendida por profissional que há tanto tempo consta do topo de sua hierarquia. O distanciamento autofágico da UFABC das lides econômicas da região só não é mais acintoso e contraproducente que a irresponsabilidade coletiva dos mandachuvas e mandachuvinhas da região, tanto do Poder Público como de entidades de classe empresarial e sindical. Todos estão irmanados em defesa de um pacto de silêncio sobre a inutilidade regional da instituição.


 


Academicismo dominante


 


O exemplo que trago para este artigo ao reiterar mais uma vez que a Universidade Federal do Grande ABC é um monstro alienígena que sequestrou o que restava de potencial de transformações regionais é irrebatível. Envolve o especialista em regionalidade Jeroen Klink, a quem chamei no passado de executivo de ouro da Administração Celso Daniel. Esse holandês tropicalizado que ainda recentemente participou do programa Debate Aberto, que este jornalista apresentava na TV Diário do Grande ABC, tendo como contraponto o educador Valmor Bolan, disse no passado coisas sobre a UFABC que não resistiram ao academicismo daquela instituição.


 


O que vou reproduzir neste espaço foi garimpado ontem à noite no acervo da revista LivreMercado, publicação que durante duas décadas mostrou como se faz o melhor jornalismo regional do País. Aos poucos, como tenho dito, transfiro o que há de mais precioso daquela publicação às páginas desta revista digital. Nada que não obedeça a mais legítima das iniciativas. Tudo o que foi impresso por LivreMercado é de propriedade deste jornalista. Nada mais justo, porque comandei a equipe de redação desde a primeira edição. E assisti de camarote a derrocada da publicação nas mãos pouco hábeis de aventureiros que se pretendiam sucessores. Como se o agregado de conhecimentos do titular e de sua equipe de jornalistas fosse mercadoria.


 


Na edição de dezembro de 2005 (portanto há quase 10 anos), o então secretário de Desenvolvimento e Ação Regional da Prefeitura de Santo André, Jeroen Klink, foi nomeado Pró-Reitor de Extensão da Universidade Federal do Grande ABC, então em fase de implantação. A expectativa de que sabotagens curriculares em detrimento da regionalidade perpetradas por fanáticos de esquerda seriam desativadas cristalizava a esperança de que aquela instituição atenderia de fato aos pressupostos de desenvolvimento econômico. Respirava-se a possibilidade de novos ares na região.


 


Prestação de contas


 


A reportagem-análise foi preparada por André Marcel de Lima, um dos talentos formados na revista LivreMercado. O texto completo está disponível neste site, mas vários trechos merecem e devem ser pinçados a este artigo como provas do crime de mediocridade em que se transformou a região nesse período – como se períodos anteriores não fossem suficientes. Leiam o que se segue da edição de dezembro de 2005 de LivreMercado:


 


 Especialista em regionalidade, metropolização, arranjos produtivos e outros temas relacionados ao desenvolvimento entre atores econômicos locais, Jeroen Klink está animadíssimo com a possibilidade de transformar a UFABC em plataforma de know-how voltado ao universo produtivo. “Minha missão é moldar a UFABC às necessidades das cadeias produtivas” – define o holandês naturalizado brasileiro. (...). Jeroen Klink personifica a expectativa de que a UFABC não repetirá vícios do Ensino Superior gratuito brasileiro, como falta de convergência com as necessidades do universo produtivo e ausência de identidade regional. Ele assume a Pró-Reitoria de Extensão da UFABC ainda este mês, depois de se desligar da Secretaria de Desenvolvimento e Ação Regional de Santo André. “A UFABC não será apenas mais uma universidade pública. Será uma estrutura de disseminação de conhecimento e tecnologia a serviço das cadeias produtivas da região em que está instalada, como acontece nas melhores universidades europeias e, principalmente, norte-americanas” – garante o executivo público.


 


Manequim e centroavante


 


Bem mais tarde, em setembro de 2013, publiquei um artigo nesta revista digital sob o título “Ranking Folha prova: UFABC é manequim, não centroavante”. Reiterava naquele texto uma sucessão de análises críticas sobre a escola que o governo federal construiu na Avenida dos Estados. Naquele trabalho, resumia o que fora a trajetória da Universidade Federal do Grande ABC. Alguns trechos:


 


 Imposta à região porque a região não sabe se impor, já que é um mar de indolência cidadã, a UFABC custa os tubos para os cofres públicos federais a cada temporada, mas segue com a vocação que ninguém em sã consciência pretendia ver aplicada aqui, onde as necessidades são outras e mais urgentes: produz cérebros supostamente para o mundo, enquanto seguimos dependentes da Doença Holandesa do setor automotivo em meio ao tiroteio da descentralização da atividade que certamente vai nos atingir na medida em que o protecionismo em forma de renúncias fiscais afrouxar-se. Tão perniciosa quanto a mobilização ideológica que esculpiu a UFABC sob conceitos arraigadamente academicistas para fazer-se presente em passarelas internacionais segue sendo a associação de cinismo, silêncio e bajulação em torno da instituição na região. (...). A expansão da Universidade Federal do Grande ABC a outros municípios, além de Santo André e São Bernardo que já contam com cursos, será o acúmulo de novos desperdícios regionais caso não se corrija a rota curricular e pedagógica. Essa possibilidade equivale a chutar um vespeiro. Os mandachuvas da instituição agarram-se aos preceitos que determinaram a criação da instituição e que, em termos de custos para o futuro da região, equivale a discutir qual é o melhor cardápio da culinária francesa embaixo da ponte – escrevi há mais de dois anos.


 


Vocação produtiva


 


Sempre é importante lembrar que a vocação produtiva da UFABC foi uma das muitas bandeiras levantadas por este jornalista à frente da revista LivreMercado. Um mês antes da reportagem-análise de André Marcel de Lima, à qual nos referimos na abertura deste artigo, aquele jornalista produziu outro texto valiosíssimo sobre o assunto na mesma publicação. O título “UFABC precisa de correção de rota” explicitava o encaminhamento editorial de LivreMercado.


 


Vejam alguns trechos daquela reportagem-análise de LivreMercado de novembro de 2005:


 


 Agentes socioeconômicos comprometidos com o futuro do Grande ABC precisam promover força-tarefa a tempo de corrigir a rota pedagógica e curricular da UFABC; caso contrário, a materialização do projeto da universidade federal se constituirá como corpo estranho à realidade local e em nada contribuirá para o desenvolvimento econômico sustentado. Se a sociedade não se mobilizar para viabilizar a implantação da UFABC em bases pragmáticas, como suporte a matrizes produtivas estrategicamente selecionadas, perder-se-á oportunidade valiosa de aproveitar na plenitude a boa vontade demonstrada pelo governo federal. E a negligência seria imperdoável para a região historicamente preterida pelas esferas superiores de poder constitucional. A importância de corrigir os rumos da UFABC veio à tona no primeiro Ciclo de Debates promovido pela Editora Livre Mercado, que marcou a transformação do Conselho Deliberativo do Prêmio Desempenho em Conselho Editorial. A exposição no auditório da Faenac (Faculdade Editora Nacional), de São Caetano, foi a mais crítica e detalhada já realizada sobre o tema. Por isso, o clima esquentou entre Valmor Bolan, reitor da Faenac, e Cleuza Repulho, secretária de Educação de Santo André, integrante da comissão de implantação da UFABC. Também participaram do debate o consultor Jaime Guedes e o empreendedor educacional Alessandro Bernardo, além do mediador Daniel Lima, diretor-executivo de LivreMercado.


 


Distância quilométrica


 


Mais reportagem-análise de LivreMercado de novembro de 2005:


 


 O pomo da discórdia é a distância quilométrica entre o modelo prêt-à-porter adotado para a UFABC e o ideal de figurino sob medida, concebido de acordo com as especificidades da região. Na exposição inicial, Cleuza Repulho esforçou-se para transmitir a sensação de que o projeto avança a passos largos e de que se consolidará como universidade diferenciada de todas as que o governo federal já produziu. “O reitor e o vice-reitor já foram nomeados. Cientistas renomados do Brasil e do Exterior estão formatando uma universidade diferente, voltada a tecnologia de ponta e pesquisa, além de cursos de bacharelado em ciências naturais” — ressaltou, ao exibir imagens tridimensionais em telão do campus programado para Santo André. (...).  “Precisamos de uma universidade empreendedora, conectada às necessidades das cadeias produtivas, inclusive patrocinada por empresas, e não do modelo elitista, burocrático e atrasado que marca o Ensino Superior brasileiro. A UFABC não tem de surgir de cientistas que não conhecem a realidade local, mas do seio da sociedade organizada do Grande ABC. Da forma como foi apresentada, a UFABC servirá apenas para atender à burguesia de dentro e de fora da região” — disparou Valmor Bolan. Cleuza Repulho tentou refutar o alerta de que o projeto da UFABC estaria desconectado do universo produtivo com a argumentação de que os cientistas cuidam da formatação curricular norteados por ampla pesquisa. A realidade nua e crua, entretanto, é que o Grande ABC nunca se lançou à missão de descobrir o rumo a tomar. “Não existe, em qualquer lugar deste País, um grupo ou estudioso que consiga vislumbrar o futuro da região. Não há estudos nesse sentido” — considerou Daniel Lima. “O Grande ABC não sabe para onde vai economicamente e temo que a economia e a universidade se desloquem em direções antagônicas por querermos colocar o telhado antes de construir a casa” — observou o jornalista. (...). A previsão orçamentária anual para a UFABC em pleno funcionamento é de R$ 150 milhões. “Até por necessidade financeira o modelo precisa ser diferente. Empresas podem atuar como patrocinadoras na medida em que tiverem as próprias necessidades atendidas” — sugere Valmor Bolan.


 


Antidepressivo à mão


 


É por essas e outras temáticas desta Província que estou pensando seriamente em adotar medida preventiva ao sentimento que me toma todas as vezes que me dedico a vasculhar o acervo de LivreMercado e catapultá-lo a estas páginas digitais: sinto sintomas claríssimos de depressão profissional. É preciso ser muito irresponsável, vadio, oportunista e trambiqueiro para mergulhar nas páginas da história regional e não se sentir frustrado, quando não revoltado.  


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