Sejamos minimamente honestos: quem tem coragem ou interesse ou determinação ou ousadia de investir para valer em setores produtivos na Província do Grande ABC diante do que somos hoje e fomos no passado de hostilidades ao capital? Enquanto o ambiente regional não sofrer radical alteração, situação que passaria por recolocar investimentos da indústria de transformação como carro-chefe, sufocando o noticiário e eventos inúteis que infestam nosso calendário -- como a festa aos 25 anos do Clube dos Prefeitos, ontem à noite -- tudo se converterá em perda de tempo e de novos acúmulos de perdas.
Deve sair hoje, um pouco mais tarde, o PIB dos Municípios Brasileiros de 2013. O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) sempre divulga esses estudos com dois anos de atraso. É um baita atraso. O que deverá surgir em forma coletiva, ou seja, da Província do Grande ABC como um todo, será uma nova queda, a terceira consecutiva, mas bastante discreta, porque se segue a duas outras. Quando vierem os números de 2014 e, principalmente, deste 2015 com mais de dois dígitos de mergulho do PIB da Província, todos se darão conta dos estragos. Dar-se-ão conta é força de expressão. No fundo, as institucionalidades da região são tão mesquinhas na tomada de pulso do que aqui se passa que nada as retirará da inércia.
Catástrofe à vista
A sinalização mais clara de que o PIB dos Municípios da Província do Grande ABC que vai aparecer de forma oficial no final de 2017 será uma hecatombe teve como avant-première o que chamo de Manifesto dos 300, quando, em agosto último, lideranças do pequeno empresariado industrial de Santo André, principalmente, saíram às ruas acompanhadas de familiares e trabalhadores. Foi uma reação inédita na história do capitalismo regional. Eles deram um grito de socorro que poucos ouviram, quando não muitos desdenharam. Se foram às ruas, como foram, nada mais indicativo do desastre que vivenciavam longe dos holofotes dos grandes negócios.
Por isso, tenho insistido em lembrar a mídia regional, sobretudo os jornais diários impressos e digitais. Saiam de seus casulos, da submissão quase permanente aos mandachuvas e mandachuvinhas que ditam as regras na região. Reajam. Se já sofrem com os danos colaterais de uma economia em permanente fragilização, imaginem quando se acentuarem ainda mais os buracos no setor industrial.
Não se esqueçam de que ainda temos em média 30% do PIB Regional atrelado ao PIB Industrial, ante10% do Brasil. O que nos pareceria uma vantagem estratégica de fato é uma grande e estrondosa ameaça. Não somos uma ilha e sentiremos contrações mais rigorosas nos próximos anos. Estamos cada vez mais isolados do mundo produtivo. Nossas cadeias da indústria de transformação perdem espaço no universo.
Modelo falido
Deixamos sistematicamente de lado o fator competição, que gera produtividade. Particularmente na Província, os sindicalistas mais retrógrados que se pretendem modernos ao citarem medidas que brotaram e se solidificaram na Europa, são um estorvo ao dinamismo que há muito estamos perdendo. O Programa de Proteção ao Emprego é uma falácia que já exumei neste espaço. Mas o que fazer se a mídia cai fácil no conto da carochinha trabalhista?
A República Sindical da Província tem-se provado tão destrutiva internamente quanto o desgoverno federal, porque age ininterruptamente há décadas. Da tomada dos chãos de fábrica nos tempos ditatoriais de empresários gulosos demais os sindicalistas se transformaram em algozes do desenvolvimento econômico regional ao utilizarem armaduras ideológicas das quais não abrem mão.
A postura editorial do Diário do Grande ABC desta sexta-feira, que caiu de pau na festa mequetrefe de 25 anos de criação do Clube dos Prefeitos, deveria ser regra não exceção na cobertura jornalística dos veículos da região. E não existe nessa premissa nenhum sentido retaliatório como alguns imbecis insistem em propagar para se manterem intocáveis.
Nosso modelo institucional está falido. É indispensável reoxigenar nossas entidades de classe empresarial e sindical. A costura antiquada precisa ser revista. Está fora de moda. Os representantes mais encardidos da sociedade, aqueles inconformistas que decidiram se calar porque cansaram de malhar em ferro frio, precisam ganhar protagonismo. A mesmice de puxa-saquismo está nos levando para o brejo.
É claro que duvido que a proposta venha a ser sequer levada a sério, mas seria uma revolução regional se a mídia local se unisse e convergisse direcionamento a uma agenda econômica da qual jamais transigiria enquanto os resultados não se solidificassem. Uma pauta econômica que fosse levada tão a sério que ocuparia espaços físicos e digitais com insistência e relevância. Que movimentos como o dos 300 de Santo André não fossem desdenhados, quando não ignorados.
Novos protagonistas
Precisamos modificar o ambiente regional com série de medidas e essas medidas poderiam ser alinhavadas, no campo econômico, por um grupo de profissionais de visão assemelhada e complementar e ao qual não faltariam bom senso e o espírito crítico de que estamos caminhando celeremente para o desfiladeiro.
Uma corrida que foi interrompida durante alguns anos do governo Lula da Silva por conta da febre consumista, situação que beneficiou tremendamente nossa principal matriz econômica, a indústria automotiva.
Tempos que não voltarão mais com os mesmos impactos inclusive porque cada vez mais se espalham pelo território nacional concorrentes de nossas montadoras e autopeças menos competitivas, porque manietadas pelo sindicalismo protecionista.
Esse grupo, com visão econômica e independência de ação certamente não cairia do cavalo do entusiasmo que eventualmente exercitaria por força de finalmente termos buscado uma alternativa de sensibilização dos poderes constituídos. Afinal, no mapa de investimentos monitorado por companhias especialistas em destrinchar espaços onde o capital é recepcionado com entusiasmo e perspectivas de sucesso, descobre-se que os nossos mais de 800 quilômetros quadrados constam de uma zona cinzenta a recomendar muita cautela.
Zona cinzenta
Só estamos nos radares de companhias varejistas porque com quase três milhões de habitantes ainda somos atraentes a redes mercadistas, entre outros motivos porque os pequenos negócios familiares entregam a rapadura da clientela à sedução de marketing dos grandes conglomerados. De resto, cada planta industrial que se reduz ou se escafede de vez invariavelmente se transforma em empreendimento imobiliário. Quanto não contribui à pulverização da rede de igrejas evangélicas.
A cacetada que o Diário do Grande ABC deu no Clube dos Prefeitos na edição de hoje deveria ser o marco de uma ação sistemática que justificaria a aprofundaria as raízes da Carta do Grande ABC, a qual aquele jornal publicou na primeira página de 11 de maio. Todas as fórmulas de cavalheirismo informativo, que também poderia ser chamado de entreguismo da agenda aos agentes públicos e privados de baixa produtividade, já se comprovaram nefastas.
Bordoadas neles, eis a melhor fórmula para tentar evitar o pior.
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18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL