Não ousaria afirmar que eles passariam à história como modelos de integração econômica, mas bem que os prefeitos Carlos Grana (Santo André), Donisete Braga (Mauá) e Paulo Pinheiro (São Caetano) poderiam dar um peteleco extraordinário na inação regional ao compartilharem planejamento, estudos e medidas incisivas para recolocar a Avenida dos Estados no eixo desenvolvimentista. O prefeito paulistano Fernando Haddad poderia participar como convidado especial dos encontros que dariam novos rumos a essa serpentina fétida, suja e degradada que virou um mico logístico numa região dominada pelos mais competitivos Rodoanel, Anchieta e Imigrantes.
Seis meses depois do texto que virou manchetíssima (manchete das manchetes) desta revista digital, volto ao assunto diante da manchetíssima de hoje do Diário do Grande ABC, a reboque da rememoração de que se completaram 20 anos desde que a publicação lançou campanha de recuperação daquele espaço. Para variar, nada se consumou de positivo.
A diferença entre o que escrevi em primeiro de julho do ano passado sob o título “Quando a Avenida dos Estados vai deixar de ser mico na Província” e a reportagem de hoje do Diário do Grande ABC é exatamente o fato de que produzi breve análise, enquanto o jornal reporta-se a informações centradas no aspecto estrutural. E, mais que isso: enquanto o jornal prefere lidar com a superficialidade dos desarranjos de infraestrutura da Avenida dos Estados, e discretamente com a origem dos problemas (inapetência dos gestores públicos locais e do governo do Estado), em julho do ano passado instalei sobre o viés econômico como núcleo das complicações eternas.
Buscando novos caminhos
Resumidamente, diria que os problemas apontados pelo Diário do Grande ABC nos aspectos de conservação e melhoria da Avenida dos Estados (abordados complementarmente por mim naquele texto de julho) são cafés pequenos diante do verdadeiro caminho da salvação logística que se pretende para revitalizar as economias de Santo André, São Caetano e Mauá. Trata-se da preparação do entorno da Avenida dos Estados para recolher organizadamente atividades produtivas e de serviços compatíveis com as exigências ambientais.
Donisete Braga, Paulo Pinheiro e Carlos Grana têm poucos meses para dar um tiro de largada num processo de reestruturação e reocupação planejada da Avenida dos Estados. O mandato de cada um está na reta final e não parece muito ajuizado assegurar que seriam reeleitos. Na pior das hipóteses, para eles, seriam semeadas propostas que os sucessores haveriam de dar prioridade, desde que, também, a mídia regional ligue o motor de ignição de mobilizações e, portanto, saia do varejismo de pautas político-administrativas mequetrefes.
Poderia discorrer muito mais sobre o futuro, o presente e o passado da Avenida dos Estados. Há 80 textos nesta revista digital que fazem abordagem direta ou indireta àquele que já foi o principal ponto a ligar a Capital e a Província do Grande ABC. Tempos de industrialização de Santo André e São Caetano, principalmente. Tempos que ficaram no passado na medida em que, primeiro a Anchieta, e, depois, a Imigrantes, emergiram no mapa de competitividade regional. Uma baixa competitividade logística, por sinal. O desenvolvimentismo puxado pela iniciativa privada ganhou outros rumos, principalmente em direção ao Interior mais próximo do Estado muito bem abastecido de estradas.
Coordenação tripartite
A reestruturação física da Avenida dos Estados, tão necessária e de vez em quando lembrada pela mídia regional, como hoje o foi pelo Diário do Grande ABC, seria consequência natural de um plano de combate à vulnerabilidade econômica contínua e desalentadora.
Mais que importante veio logístico que perdeu a força ante novos concorrentes do outro lado da Província, a Avenida dos Estados e seu entorno poderiam ser uma associação perfeita de massificação controlada de residências e incremento estratégico de comércio e serviços. Até mesmo atividades industriais de pequeno porte e não poluentes ganhariam musculatura.
A plataforma de embarque à modernidade da Avenida dos Estados não deve se limitar a apenas um ou mesmo dois dos municípios da região sob influência direta daquele traçado quase centenário. Santo André, Mauá e São Caetano estão no mesmo barco. E a Capital poderia adicionar mais elementos de competitividade, porque conta com extenso traçado daquela via.
O projeto lançado por Celso Daniel no final dos anos 1990, o chamado Eixo Tamanduatehy, que já foi para a cucuia entre outros motivos porque está defasado pela ocupação aleatória de espaços importantes, poderia, portanto, ser reformulado, tanto quanto renomeado. Deixaria de ser um empreendimento público com olhos no capital privado que se fixou apenas o território de Santo André e passaria a ser o Eixo Avenida dos Estados, de compartilhamento de responsabilidades entre gestores públicos municipais.
Uma tabelinha impossível
Celso Daniel lançou o Projeto Eixo Tamanduatehy sem parceiros de Mauá e de São Caetano porque não os tinha como companhias confiáveis. Mais que isso: havia entre Celso Daniel e o então prefeito de São Caetano, Luiz Tortorello, uma rivalidade que ultrapassava o terreno ideológico entre um petista moderado e um conservador extremista. Luiz Tortorello era extravagantemente anti-regionalista. Regionalidade só lhe interessava se estivesse no comando do barco. Fora isso, a abominava.
Não parece haver entre Carlos Grana, Donisete Braga e Paulo Pinheiro animosidade a ponto de fecharem mutualmente a porta a uma interlocução prospectiva sobre o destino da Avenida dos Estados.
Duvido que efetivem essa sugestão. Se o fizerem, devem levar em conta algumas amarrações que dariam consistência à medida, sem as quais tudo poderia parecer jogada eleitoral. Entre essas medidas a principal é a contratação de consultoria especializada em competitividade tendo a logística como ponto central e o desenvolvimento urbano como irmão siamês. Há profissionais nas três administrações municipais que poderiam integrar a força-tarefa que transformaria problemas em soluções.
Contradição a ser superada
A Avenida dos Estados é uma mancha de ineficiências sobrepostas a exalar fedor muito além do extenso companheiro de trajeto, o leito do Rio Tamanduateí. O rastro contínuo de cheiro apodrecido da Avenida dos Estados também é metafórico. Trata-se de contradição urbana e econômica ao desprezar de forma acintosa todas as premissas que a colocariam como peça valiosíssima do tabuleiro de revitalização dos municípios mais direta e potencialmente beneficiados pelo traçado integracionista.
O que a natureza fez com o Tamanduateí e os empreendedores públicos do passado acentuaram com a construção da Avenida dos Estados ainda sobrevive, mal e porcamente, é verdade. É possível que a Avenida dos Estados deixe de ser o mico de incompetências fertilizadas no passado. Que os prefeitos dos três municípios botem para fora dos respectivos gabinetes assessores que só pensam em quinquilharias administrativas e políticas e convoquem gente especializada em salvar espaços apodrecidos.
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18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL