Regionalidade

Clube dos Prefeitos precisa
exercitar múltipla dimensão

DANIEL LIMA - 19/01/2016

O Clube dos Prefeitos do Grande ABC não deve se restringir à potencial união dos sete pedaços territoriais que raramente convergem para a mesma direção, embora tenha sido esse o propósito basilar que levou os administradores públicos da região, liderados por Celso Daniel, a criar a instituição em 1990.  O que quero dizer com isso é que é possível e, mais que isso, saudável, quando não compulsório, que o Clube dos Prefeitos se divida para que se multiplique em pedaços específicos com no mínimo dois e no máximo sete diferentes participantes. Escrevo a propósito do artigo de outro dia sobre a proposta de união entre Santo André, São Caetano e Mauá para a reestruturação física e econômica da Avenida dos Estados.


 


Não necessariamente a Avenida dos Estados é uma demanda a ser enfrentada pelo Clube dos Prefeitos no formato convencional de sete pedaços, mas seria ótimo se o fosse. Exatamente porque reúne o interesse de apenas três dos sete municípios abrangidos pelo traçado daquela via, o Clube dos Prefeitos parece ignorar completamente a aplicação de medidas corretivas que se acumulam há décadas.


 


Isso não quer dizer que se a Avenida dos Estados permeasse todos os territórios do Bicho de Sete Cabeças em que se transformou a região o resultado seria outro. A falta de vocação resolutiva principalmente nas questões econômicas é antiga e insidiosa enfermidade dos agentes públicos locais. Nada diferente dos agentes privados.


 


Barraco sindical


 


A situação se agravou desde que o Partido dos Trabalhadores, sempre tutelado pelos sindicalistas da Central Única dos Trabalhadores, tomou conta do barraco da regionalidade ao interferir pronunciadamente tanto no Clube dos Prefeitos quanto na Agência de Desenvolvimento Econômico. O viés trabalhista não é bom conselheiro quando se trata de proposições em que o capital é prioritário. Afinal, sempre se manifestarão restrições enviesadas. Faz parte do receituário ideológico. É da natura sindical opor-se ao capital. O bom senso nem sempre ou quase nunca é levado em conta.


 


Com os interesses específicos de Santo André, São Caetano e Mauá na recuperação da Avenida dos Estados levados à instância de regionalidade que reúne todos os prefeitos locais, o potencial de visibilidade dos problemas apontados seria pelo menos mais intenso. Mas nada impede também que os três municípios deixem para trás o Clube dos Prefeitos essencialmente monolítico, embora improdutivo, como tem sido ao longo da história, para buscarem resultados.


 


Se tivesse que escolher a melhor alternativa para tratar de questões que envolvam diretamente dois ou mais municípios da região não teria dúvida em apontar a regionalidade integral explicitada pelo Clube dos Prefeitos. Há várias maneiras de definir prioridades segmentadas por territórios mutuamente interessados sem ficar na dependência do prefeito dos prefeitos de plantão. Aliás, soluções que envolvam apenas parte dos sete municípios deveriam ser incentivadas e, mais que isso, retiradas da formalidade presidencial.


 


O prefeito Luiz Marinho não tem interesse algum nas soluções da Avenida dos Estados. Tampouco Lauro Michels, de Diadema, e os titulares de Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra. A Avenida dos Estados não tem a explicitude de agregar valores a esses territórios, embora de fato seja uma parte relevante do mosaico de logística regional.


 


Iria mais fundo ao dizer que para Luiz Marinho e as forças econômicas de São Bernardo, o traçado degradado e sem vocação econômica fértil da Avenida dos Estados é um aliado à manutenção do eixo desenvolvimentista longe dos territórios de Santo André, São Caetano e Mauá. Faz muito tempo que Avenida dos Estados perdeu o posto de competitividade logística que a Anchieta, a Imigrantes e, apesar de tudo, o trecho sul do Rodoanel ostentam. Os três concorrentes deixam a Avenida dos Estados a comer poeira, embora estejam muito distantes do nível necessário para sensibilizar investimentos. Como as estatísticas têm comprovado, Anchieta e Imigrantes chegaram à exaustão e o Rodoanel é muito distante do centro gravitacional da economia da região.


 


Regionalidade dividida


 


Os prefeitos Carlos Grana, Paulo Pinheiro e Donisete Braga podem, portanto, adotar postura de regionalidade que caberia à perfeição para o relançamento de novas bases estratégicas. Eles deveriam levar, em conjunto, para os interiores institucionais do Clube dos Prefeitos, os desafios que se apresentam para revitalizar a Avenida dos Estados e, ao mesmo tempo, criarem uma subdivisão diretiva com autonomia absoluta para atuarem em defesa de medidas restauradoras.


 


O Diário do Grande ABC não me deixa mentir sobre o histórico negligente do Clube dos Prefeitos no monitoramento da Avenida dos Estados. Ainda outro dia publicou uma reportagem que sustentou a informação de um executivo daquela instituição dando contra de que jamais aquela serpentina de asfalto, buracos, matos e tudo o mais constou da agenda de avaliações. Nada que surpreendesse. O Clube dos Prefeitos não tem mesmo vocação econômica.


 


Entretanto, espertamente, um dos representantes técnicos do Clube dos Prefeitos, de origem petista, tratou de rolar a bola quadrada em direção ao governo do Estado na tentativa de limpar a barra de críticas mais que justas de quem não compreenda tamanho disparate. Ainda não tenho opinião formada sobre a responsabilidade do governo do Estado em forma de parceria com os representantes dos municípios diretamente envolvidos nos problemas apontados. Precariamente, me parece que aquele traçado deveria ser tratado como desafio estritamente regional e especificamente dos municípios que já se beneficiaram e há muito tempo sofrem as consequências da vulnerabilidade da avenida.


 


E o governo do Estado?


 


Repassar parte ou integralmente a bucha de canhão para o governo do Estado me parece derivação bastante esperta dos dirigentes do Clube dos Prefeitos. Pode-se até mesmo argumentar que os cofres estaduais poderiam, num cenário de investimentos potenciais, socorrer os orçamentos dos três municípios. Até concordaria. Mas para tanto o projeto de reconfiguração físico-logístico-urbanista da Avenida dos Estados deve saltar de estudos compartilhados.  Até mesmo o governo do Estado poderia ser chamado a colaborar, porque tem expertise para tanto.


 


O Clube dos Prefeitos precisa adotar uma política administrativa que transforme a soma de algumas ou de todas as partes muito maior que a individualidade de cada um dos sete pedaços territoriais que o representam. Quando o G-7 não passar de arremedo de regionalidade e qualquer outro G, G-2, G-3, G-4, G-5 e G-6 der uma arremetida sensacional na solução de problemas que necessariamente não são integralmente da região, os resultados se irradiarão a todos os municípios. Ou seja: a disseminação de ações compartilhadas entre parcelas de poder do G-7 provavelmente abrirá uma larga avenida favorável ao conjunto de representações que teimam em perder um jogo mais que desenhado à vitória.  


 


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Quando Avenida dos Estados vai ser prioridade de prefeitos?


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