O então ministro do Regime Militar, Roberto Campos, disse em certa ocasião que o Brasil só precisaria de 200 homens para entrar nos eixos. Roberto Campos estaria entre eles, folgadamente. De quantos homens precisaria a Província para voltar a ser Grande ABC? De não mais que 20. Se fosse escalar esse time de notáveis, teria certa dificuldade, mas superaria as barreiras. Tomaria algumas medidas profiláticas para facilitar a escolha. Esse Conselhão seria bem melhor que o marqueteiro Conselhão da Dilma Rousseff, em fase de reativação.
Começaria a definição da lista do Conselhão Regional por medidas cautelares, preventivas. Sugeriria que não participasse gente que tem a ideologia exacerbada como ponto de ignição analítica. É impossível lidar de forma prática, objetiva, tendo a companhia de blocos de inteligência congelada.
Tratar com radicais de direita ou de esquerda é uma perda de tempo quando se pretende alcançar horizonte em que a técnica deve prevalecer. O pragmatismo é inimigo número um da ideologia arraigada. A ideologia arraigada sempre dá um jeitinho de aflorar os ânimos e embotar a racionalidade. Quem acompanha o dia a dia da politica nacional, no Congresso e nas colunas de jornais, identifica o tamanho da encrenca que não leva a nada. Por mais que o contraditório teoricamente seja o motor de propulsão do progresso, nada de constrói com tatuagens interpretativas.
Fechando as portas
Também sugeriria que ficasse de fora do Conselhão Regional quem tenha vínculos partidários sólidos. independente da rigidez ideológica. Quando se pertence a grupos partidários sobreveem potenciais de manipulação em proveito eleitoral próprio. Se a ideologia desnaturada interdita a estratégia, ou seja, o enxergar do longo prazo, o partidarismo embaralha o curto prazo, a tática. Um Conselhão sem tática e sem estratégia é um convite ao fracasso. Vira uma Torre de Babel.
Os leitores já perceberam que a classe politica e o entorno não teriam vez no Conselhão Regional. Eles só atrapalhariam o movimento. Tornariam os passos enviesados ao condicionarem soluções inadiáveis a movimento das pedras partidárias.
Sei que é utopia imaginar um Conselhão Regional independente da politica, da gestão pública tradicional, mas é assim que tem de ser para que os resultados no curto, médio e longo prazo se consolidem.
Por que o Clube dos Prefeitos está no mercado institucional há 25 anos e não fez praticamente nada que possa ser chamado de compromisso com a regionalidade? Porque a política, a ideologia empedernida e tudo que deriva disso estão presentes como fonte inibidora.
Os chamados homens públicos só entrariam em campo após tratado de convivência com o Conselhão Regional. A partir desse ponto, todos trabalhariam em conjunto. Os principais programas de recuperação econômica da região seriam apresentados formalmente, com metas a serem cumpridas.
Os leitores entenderam exatamente o que quero dizer: o Conselhão Regional desenvolveria propostas de programas que teriam definição de prioridades pelos próprios integrantes com olhos postos na área econômica. Todo o resto com o qual gestores públicos devem mesmo se preocupar não teria a menor importância numa primeira etapa para cada um dos integrantes do grupo. Sem arrumar a casa da economia regional para, de imediato, minimizar a sangria de investimentos ditados pelo encalacramento do mix de produção exageradamente dependente do setor automotivo, sem isso, não tem o resto.
Suruba ideológica
Garanto aos leitores que o Conselhão Regional seria muito mais efetivo, incisivo, produtivo e tudo o mais que o Conselhão criado por Lula da Silva em 2003 com figuras de destaque de corporações brasileiras e que agora, após longa agonia e quase que total desmobilização, a desesperada presidente Dilma Rousseff está reconvocando.
O Conselhão da Dilma reúne todos os ingredientes para fracassar como fracassou o Conselhão do Lula. É uma suruba ideológica, um salve-se-quem puder corporativista, um toma-lá-dá-cá de conflitos que tentam se ajustar na base de hipocrisias recíprocas e, mais que tudo isso, uma senhora embromação na tentativa de levar ao distinto público a imagem de que a presidente da República conta com o apoio de diferentes espectros da sociedade. Tudo papo furado.
Tão papo furado que um dos novos integrantes do Conselhão da Dilma é o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Rafael Marques, cuja semelhança com os antecessores no cargo o qualifica como espelho mal-ajambrado. Rafael Marques carrega todos os vícios do sindicalismo regional. Ele é intestinamente corporativista, marqueteiro, desinteressado do futuro das pequenas empresas, alinhadíssimo às montadoras e autopeças internacionais. É um dos propagadores mais fieis e alucinados do PPE, Programa de Proteção do Emprego, que atende aos desejos das grandes empresas, especialmente as montadoras, com danos colaterais de desequilíbrio da concorrência a agravamento da crise nas pequenas indústrias.
Rafael Marques é um Robin Hood às avessas do sindicalismo regional. O balanço do PPE e a enchente de demissões de trabalhadores industriais em São Bernardo o reprovam. Somente a fragilidade política de Dilma Rousseff pode explicar a presença de Rafael Marques no Conselhão. Como tantos outros, é claro.
Sindicalismo fora
No Conselhão Regional eu não teria dúvidas de sugerir que sindicalista nenhum fosse convidado. Eles carregam, além do peso do politiquismo explícito, uma segunda enfermidade completamente fora de qualquer projeção do trabalho a ser realizado: o corporativismo seletivista que despreza o conjunto da sociedade ao mesmo tempo em que penaliza os empreendedores que caiam no conto de soluções fáceis.
O Conselhão do Lula e agora de Dilma Rousseff não é modelo que sirva ao Brasil e tampouco como inspiração à Província do Grande ABC. O Conselhão Regional deveria ser montado à revelia dos poderosos de plantão. Seria uma espécie de governo paralelo. As propostas passariam a infernizar a vida dos prefeitos de plantão, porque os retiraria do berço esplêndido histórico.
Temos esses 20 potenciais indicados na praça. Resta saber se eles topam enfrentamento menos declaradamente hostil que o proposto pelo Defenda Grande ABC de viés explicitamente denunciatório das maracutaias que infestam esse bicho de sete cabeças.
A Rede Nossa São Paulo é mais ou menos o que sugerimos. A diferença é que nosso foco seria pronunciadamente econômico num primeiro e indispensável estágio definidor de ações a efetivar. Não nutro a menor esperança de que teremos um Conselhão Regional que não resvale em eventual iniciativa chapa branca. Mas não custa nada cutucar os podres poderes públicos de plantão com a vara do inconformismo programada para incomodar.
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09/04/2026 SERÁ QUE FINALMENTE ESTAMOS DESPERTANDO?