O mínimo que se poderia esperar do Clube dos Prefeitos do Grande ABC é que tivesse montado um comitê de acompanhamento das obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) na região. Mas quem disse que existe preocupação de quem comanda a politica regional em exibir alguma porção de empreendedorismo estatal mesmo quando supostamente a obrigação de realizar obras é do governo federal? Quem estaria disposto a colocar o guizo da transparência informativa no pescoço do gato partidário?
O último balanço mequetrefe de que se teve notícia na região sobre o PAC foi registrado nesta revista digital em dezembro de 2014. Se de lá para cá não escrevi mais nada de substantivo é porque nada de substantivo houve. Até então, apenas 9% das obras do PAC estavam concluídas. Como o governo federal fez água nos últimos anos, não existe mensagem positivista que dê certo.
E como o Clube dos Prefeitos é uma grande estatal que não dá certo, quem esperar por informações que comprovem o fracasso da empreitada vai perder tempo. A máxima de Rubens Ricúpero, ministro de Fernando Henrique Cardoso, de que o “eu não tenho escrúpulos, o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde” vale para os agentes públicos de todos os espectros ideológicos.
Também vale, para definir a situação em que se encontra o PAC na Província do Grande ABC, a máxima de Millôr Fernandes, para quem politico profissional jamais tem medo do escuro; tem medo é de claridade.
Porta estandarte
O prefeito Luiz Marinho, de São Bernardo, porta estandarte do PAC na Província, mantém envergonhado silêncio. Já se foi o tempo em que se vivia período em que o governo federal gastava a rodo e praticava bicicletas fiscais para manter a economia artificialmente aquecida. Como deu tudo errado e a presidente Dilma Rousseff caiu do cavalo de um mandato alcançado com anabolizantes que não resistiram ao Tribunal de Contas da União, seria natural que o PAC mergulhasse no ostracismo na região.
Segundo a matéria que assinei naquele final de ano de 2014, e que se baseava em reportagem do Diário do Grande ABC, foram projetadas 235 obras na região e apenas 22, ou 9,3% foram concluídas. Recomendava naquele texto que o Diário do Grande ABC deveria interpretar o fracasso coletivo das instituições da região. Afinal, a publicação pegara apenas no pé da então ministra Miriam Belchior.
Se ao Clube dos Prefeitos compete maior responsabilidade em dar publicidade ao PAC na região, as demais instituições sociais deveriam engrossar movimento de prestação de contas. Mas o que esperar se os dirigentes dessas organizações, que só olham para o próprio umbigo de interesses localizados, também não estão nem aí com o cheiro da brilhantina da transparência?
Lembrei-me das obras do PAC ao ler a manchetíssima do Diário do Grande ABC de ontem sobre a resposta que o Clube dos Prefeitos decidiu dar ao jornalista Beto Silva que, na coluna Cena Política de quinta-feira, conforme registrei neste espaço, cobrou o mapa dos pontos de enchentes na região. Desde 1985 o Diário do Grande ABC elaborou um mapeamento dos pontos vulneráveis na região.
A ação do Clube dos Prefeitos, que vai se reunir hoje para debater entre outros assuntos uma resposta ao jornal, está muito aquém do desejável. Mapa de enchentes é muito pouco para uma região que precisa eliminar muitos desses pontos de improdutividades urbanas. O que deveriam mostrar, portanto, seria algo como o mapeamento de obras efetivadas. Quem sabe um gráfico entre o ontem e o hoje do inferno das enchentes?
Dinheiro para campanha
Sei lá quantos desses pontos de enchentes na região foram contemplados pelo PAC do governo federal. É provável que a maioria conste da relação de centenas de obras previstas. Seria inconcebível que não constassem do trabalho de campo que identificou os locais onde a população mais sofre durante o período de chuvas.
Enquanto isso, o que o Clube dos Prefeitos aperfeiçoa em divulgação é a campanha de trânsito seguro, com gastos muito acima e desproporcionais em relação às prioridades materiais que nos assolam.
É capaz de algum espertinho semântico tentar dizer que este jornalista está a desprezar vidas humanas imprudentes ou vítimas do trânsito. Não é nada disso, claro. O que estranho mesmo é que quando há alguns milhões de reais em jogo para campanhas publicitárias, o setor público se comprova bastante interessado e ativo.
Longe de mim acreditar que exista maracutaia nessa empreitada específica, embora o escândalo da Petrobras esteja recheadíssimo de exemplos nesse sentido, mas o dinheiro gasto poderia ser utilizado em algo muito mais produtivo à região. Por exemplo: um plano estratégico para colocar ordem nessa barafunda de inúmeros projetos e escassas realizações, dando-se prioridade sobretudo às situações que repercutam diretamente na competitividade econômica.
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18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL