Regionalidade

Vácuo que precisa ser
ocupado urgentemente

DANIEL LIMA - 07/05/2003

Porque há um vácuo institucional na região -- algo sobre o qual escrevemos insistentemente -- não só é possível como inadiável constituir novo fórum de idéias, debates e propostas que coloque sobremodo o temário do Desenvolvimento Econômico Sustentado numa posição de interlocução cooperativamente crítica com os tomadores de decisões.


Desde 1992, quando escrevi artigo a respeito, clamo por uma instituição cerebral para o Grande ABC. E isso sairá do forno, finalmente. Com inúmeras vantagens proporcionadas pelas circunstâncias que tornaram a região a presa mais fortemente atingida pela varredura de uma globalização irresponsavelmente adotada pelo governo que antecedeu a Lula da Silva.


Poderia escrever quilômetros de frases sistemicamente lógicas para consubstanciar os enunciados que acredito serem férteis na tentativa de reenquadrar a institucionalidade do Grande ABC em lentes mais focalizadas. Por isso, o desafio da síntese é muito maior. Quando não se tem muitas informações, práticas e desventuras, como o que o Grande ABC colecionou nos últimos anos, a missão de delinear os horizontes de nova organização coletiva é naturalmente menos complexa e delicada. Quando ocorre o contrário e o banco de dados de frustrações está sobrecarregado, o cuidado deve chegar ao extremo porque armadilhas que parecem óbvias renovam-se insidiosamente. Perder o controle dos processos é permitir vôos cegos inadvertidamente imaginados como céu de brigadeiro.


É um compromisso com o futuro o que vem por aí em matéria de novidade institucional para o Grande ABC sair do atoleiro estratégico-intelectual em que se encontra porque está enredado em corporativismos estúpidos. Não é preciso reunir mais que duas, três ou mesmo quatro dezenas de cabeças interessadas para dar novas diretrizes regionais e estabelecer saudável, produtivo, transparente e responsável jogo democrático de pressões sobre agentes públicos e privados detentores de condições materiais e orçamentárias para promover mudanças.


Não poderemos cair na infantilidade de, sem tempo ou dinheiro, transformarmo-nos em agentes executivos das propostas. Fosse o cérebro objeto físico que interessasse apenas aos patologistas especializados, e não ferramental a serviço de transformações sociais, até se admitiria que a nova organização entrasse para a história regional como apêndice que a qualquer momento pode ser atirado às traças. Quando se sabe, entretanto, que a sociedade do conhecimento é ativo valiosíssimo, a entidade cerebral sobre a qual nos referimos traveste-se de referencial a ser cuidadosamente avaliado.


O que vem de novidade por aí na estrutura institucional do Grande ABC não será algo qualquer, podem acreditar. Hão de sensibilizar a todos os pressupostos de despertar a consciência coletiva de que sem capital social o que chamam de comunidade não passa de aglomerado de individualidades.


Algumas dezenas de profissionais preparados para cooperar criticamente com instituições públicas e privadas do Grande ABC podem escrever um novo roteiro regional. O mergulho em que nos encontramos é superável, mas não cai do céu. Arregaçar as mangas é pouco. É preciso, sobretudo, iluminar os caminhos que devemos trilhar.


E, como mostra a Reportagem de Capa de LIVRE MERCADO deste maio, "Nosso Futuro é de Plástico", estamos deixando escapar entre os dedos da escuridão divisionista a oportunidade de iniciar novo roteiro de sucesso.


A nova entidade pode até ser um grande fracasso, por eventualmente não demover as muralhas da China dos detentores do poder, mas pelo menos saberemos do que morreremos. Não será de morte morrida, mas de morte matada.


Francamente, não acredito nessa possibilidade, porque a força do argumento será sempre mais poderosa que o argumento da força.


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