Regionalidade

Colocando cérebros à
frente de logomarcas

DANIEL LIMA - 08/05/2003

Há cérebros espalhados por todos os cantos do Grande ABC. E esse é o nosso problema, quando deveria ser a solução. Somos uma colcha de retalhos, de fragmentos, de divisionismos territoriais, ideológicos, partidários, corporativos, sociais. Somos uma caricatura de República do ABC que prefere bajular o supérfluo à reverenciar o construtivo.


Como organizar boas cabeças da região num foco específico de atividades? Ora, é simples: colocando toda essa tropa no mesmo passo, independentemente das peculiaridades que as cercam e que ajudam a explicar por que somos um planeta de biodiversidades.


Se fôssemos uma República do ABC de fato, dessas com orgulho de suas conquistas, com respostas aos problemas, não apareceriam na praça aventureiros de vários tipos -- estatísticos, eleitorais, sociais, institucionais -- para nos aplicar sonoras sovas de irresponsabilidade.


Esse é o nosso desafio: fazer com que todos dancem, no bom sentido, a mesma dança, e que o ritmo esteja adequado ao contexto em que vivemos. Ultimamente alguns dançaram a rumba do triunfalismo vadio quando o ritmo era do bolero da precaução.


Como acondicionar numa mesma embalagem produtos tão distintos, como são essas cabeças mais comprometidas com o futuro do Grande ABC? Basta buscar nos compêndidos de práticas gerenciais contemporâneas que ali estão as respostas. A equação que se tem de colocar como desafio a todos que se juntarem nesse barco do resplandecer da intelectualidade regional precisa estar escravizada, também no bom sentido, pelo absoluto enquadramento das idéias, propostas e ações. Traduzindo: é preciso definir o núcleo duro sobre o qual, em hipótese alguma, haverá dispersão.


A pedagogia do Fórum da Cidadania é ilustrativa. No livro "Meias Verdades" faço espécie de exumação cronológica da entidade que surgiu como revolucionária nas relações regionais e que, agora, como se sabe, vegeta tristemente. Um dos maiores equívocos do Fórum da Cidadania, entre a coleção de barbaridades que penetrou em seu organismo enquanto suas lideranças imaginavam-se insuperáveis na articulação regional, foi a coreografia temática de exército trapalhão, cada um se dirigindo a um determinado objetivo geralmente difuso sem que houvesse a mínima cordenação sistêmico-estratégica.


O modelo que forjou o Fórum da Cidadania está superado. O modelo da entidade cerebral que pretendemos é oportuníssimo. Uma das diretrizes básicas da instituição é o compromisso com a sensibilização de quem decide nos setores governamentais e empresariais. Não fará parte do ferramental estatutário e operacional qualquer resquício de tentativa de ação prática no sentido conservador da expressão.


As parcerias serão estabelecidas com base nos instrumentos disponíveis pelos agentes envolvidos: a entidade cerebral entra com os conceitos amadurecidos em debates, em pesquisas, em insumos de inteligência, e os tomadores de decisões com respostas às demandas estratégicas que eles, por força das circunstâncias, nem sempre enxergam.


Vejam, por exemplo, que o nosso futuro é de plástico mas não há direcionamento estratégico do Consórcio de Prefeitos, da Câmara Regional e da Agência de Desenvolvimento Econômico que nos leve a apressar os passos e, em função disso, chegar às resoluções.


Por isso tudo, juntar cérebros, descontaminando-os de paradigmas obsoletos, passa a constar da ordem do dia de quem já está envolvido com a nova entidade que se desenha.


A despartidarização também estará entre as questões mais incisivas do núcleo temático. Diferentemente do Fórum da Cidadania, que patrocinou a hipocrisia de dissimular interesses político-eleitorais de vários de seus membros, a partir de líderes do movimento, a entidade cerebral não se oporá a vôos individuais de seus integrantes a destinos que bem entenderem, mas o espaço do qual compartilharão será exclusivamente técnico, de aplicação do conhecimento a serviço do conjunto da comunidade.


Ainda tenho muito a escrever sobre essa entidade cerebral. O que posso garantir é que o trem não sairá dos trilhos. Principalmente porque os passageiros estão sendo escolhidos não pelo viés atávico de logomarcas à frente dos cérebros, mas exatamente pelos cérebros a frente de tudo  -- inclusive de logomarcas.


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