Regionalidade

Logística não
faz milagres

ANDRE MARCEL DE LIMA - 05/06/2004

O primeiro evento do Ciclo de Debates Metropolitanos foi um estouro de bilheteria: mais de 500 convidados lotaram o Teatro Municipal de Osasco para acompanhar exposição sobre a importância do fator logístico para o desempenho econômico de cidades e regiões metropolitanas, realizada pela Editora Livre Mercado com apoio da Editora Capital Social e do IEME (Instituto de Estudos Metropolitanos).


Não é a toa que a cidade de 652 mil habitantes foi selecionada para sediar o debate sobre essa condição de competitividade inter-regional que pode ser descrita como a melhor distância entre dois pontos. Cortada pela Rodovia Anhanguera ao norte, pela Raposo Tavares ao sul e pela Castelo Branco ao meio, além de beneficiada pelo traçado oeste do Rodoanel, Osasco oferece acessibilidade para investidor nenhum botar defeito.


Está incrustada na face oeste do maior mercado de consumo do Brasil — a Grande São Paulo — ao mesmo tempo em que mantém proximidade estratégica com o próspero Interior paulista. Essa posição geoeconômica privilegiada atrai indústrias, magnetiza grandes centros de distribuição e se consolida como motor de arranque para a performance econômica que transforma Osasco em feliz exceção à regra de deterioração econômica na Grande São Paulo. 


Exceção na metrópole


A cidade é a única tradicionalmente industrial da metrópole paulista que contabilizou aumento real de Valor Adicionado entre dezembro de 1995 e dezembro de 2002, conforme levantamento realizado pelo IEME. A taxa atingiu 8,9%, enquanto o Grande ABC perdeu 31% de VA e a Região Metropolitana amargou recuo de 10,2%.


A principal conclusão do encontro cai como luva para o Grande ABC e outras regiões tentadas a acreditar que a chegada do Rodoanel implica automaticamente no milagre da multiplicação de indústrias, empregos e impostos: o Rodoanel deve ser encarado como tremendo componente facilitador, mas que por si só está longe de representar o antídoto para todos os males.


É preciso combinar esse benefício viário com políticas públicas estimuladoras de investimentos sob pena de a região não reter novas empresas e tornar-se apenas mais uma rota de passagem. “Se não houver poder público engajado ou empenhado para aproveitar a oportunidade que se apresenta, o crescimento pode ficar comprometido. Em vez de se colher todo o potencial proporcionado pela nova condição de acessibilidade, a oportunidade se esteriliza. A logística é como uma caneta que pode ser muito bem aproveitada por um escritor hábil ou inútil nas mãos de quem não sabe escrever” — observou Paulo Tromboni de Souza, secretário-adjunto dos Transportes do Estado de São Paulo, questionado pelo mediador da mesa, o jornalista Daniel Lima, inquieto com o tratamento salvacionista do Rodoanel Sul pelas autoridades públicas do Grande ABC.


Tromboni integrou o time de expositores ao lado de Marcos Pazzini, diretor da Target Marketing e Pesquisas, Celso Giglio, prefeito de Osasco e presidente licenciado da Associação Paulista de Municípios, Markenson Marques, diretor-presidente da Cargolift Logística e Transportes, instalada em Osasco.


Vantagens adicionais


A constatação de que é preciso adotar abordagem pró-ativa para colher os frutos do Rodoanel é exemplificada na trajetória recente de Osasco. A cidade também sofreu com o surto de evasão que transferiu indústrias da metrópole paulista ao Interior do Estado a partir dos anos 80, mas conseguiu dar a volta por cima porque agregou facilidades domésticas ao impacto do Rodoanel. Avenidas importantes como a dos Autonomistas e Presidente Médici foram alargadas para proporcionar melhorias no fluxo interno, potencializado pela chegada da obra do governo estadual. Além disso, mais de 10 mil metros quadrados de asfalto foram recuperados.


Além de colocar o sistema viário municipal no patamar qualitativo exigido pelo Rodoanel, Osasco acenou com áreas próprias para instalação de grandes empresas nas margens das rodovias, a despeito de ocupar território diminuto de apenas 66 quilômetros quadrados para população de 652 mil habitantes. Atraiu mega-empreendimentos como o maior centro de distribuição de bebidas da América Latina, pertencente à Coca-Cola, o parque gráfico do jornal Diário de São Paulo, um condomínio de fornecedores da rede McDonald’s e a cidade cenográfica do SBT (Sistema Brasileiro de Televisão).


Áreas industriais


O prefeito Celso Giglio relatou que Osasco aperfeiçoou mais os mecanismos internos para atração de empresas com criação de novas áreas industriais ao norte, a oeste e ao sul do Município, próximas às rodovias e ao Rodoanel. A lei responsável pela liberação dessas áreas, de janeiro de 2004, também prevê pacote de incentivos fiscais que contempla isenção de IPTU (Imposto Predial Territorial e Urbano), ISS (Imposto Sobre Serviços) e taxas por 10 anos. “As principais exigências são para que a área produtiva seja superior a mil metros quadrados e a folha de pagamento seja superior a 100 salários mínimos” — informou o prefeito, com a ressalva de que empresas já instaladas e que desejam expandir a produção também podem se candidatar ao programa de incentivos tributários. 


A discussão sobre a necessidade de reunir estratégias municipais para desencadear os benefícios do Rodoanel é extremamente importante para o Grande ABC. A região precisa desatar os nós de uma legislação obsoleta que dificulta exageradamente a instalação de indústrias não poluentes mas é conivente com a ocupação predatória nas chamadas áreas de proteção de mananciais. Além disso, precisa formatar estratagemas fiscais que ajudem a equilibrar o jogo da competitividade numa conjuntura logística menos desigual com a chegada do Rodoanel. 


O secretário-adjunto estadual de Transportes, Paulo Tromboni, afirmou que o Rodoanel chegaria ao Grande ABC em 2008 — na melhor das hipóteses. “Se tudo der certo, vamos licitar o trecho sul até o final deste ano para começar as obras em 2005. Até a conclusão serão 42 meses” — afirmou o executivo, lembrando da recente viagem do governador Geraldo Alckmin à China em busca dos recursos para concretização do projeto. 


Só o trecho sul com seus quase 54 quilômetros de extensão está orçado em R$ 2,1 bilhões. Quando virar realidade, vai conectar os 32 quilômetros do já concluído trecho oeste com o sistema Anchieta-Imigrantes em São Bernardo, passando pela Avenida Papa João XXIII em Mauá, pela zona leste de São Paulo e pela região de Suzano e Poá. Para governo do Estado e União, o trecho sul é estratégico porque estabelece uma via expressa do Interior paulista rumo ao Porto de Santos, responsável por boa parte das exportações. 


Prioridade absoluta


Paulo Tromboni também situou o Rodoanel na perspectiva econômica da Região Metropolitana. O projeto da Secretaria de Transportes do Estado terá de superar inúmeros desafios financeiros até ser implementado, mas jamais poderia ser engavetado porque resulta da constatação de que 50% da carga transportada no Estado mais rico da federação tem origem ou destino na metrópole. “Essa realidade força o governo a ter um projeto de longo prazo que viabilize a transposição dos caminhões para uma via de fluxo mais rápido, menos custoso e mais eficiente” — considera Tromboni.


O executivo público comenta que no passado a concentração de caminhões em marginais como Pinheiros e Tietê fazia algum sentido, uma vez que praticamente toda a produção industrial estava na Capital paulista. Mas com o processo de descentralização iniciado nos anos 50 rumo ao Grande ABC e ao Vale do Paraíba e cada vez mais acelerado para diversos pontos do Interior e de outros Estados, tornou-se praticamente obrigatório investir na construção de um anel viário que desafogue o núcleo da malha e interligue as rodovias.


Só com mega-investimento em infra-estrutura será possível livrar o sistema viário metropolitano de curtos-circuitos frequentes com quilômetros diários de congestionamentos e prejuízos financeiros.


Ferroanel nos planos


Dos planos da secretaria estadual de Transportes também consta o Ferroanel para fazer com que parte da carga transportada por rodovias migre para os trilhos. “Na metrópole, 93% do transporte de cargas são feitos por caminhões e apenas 5% por ferrovias. O plano de longo prazo é integrar o Rodoanel ao Ferroanel de modo que em 20 anos um terço da carga seja transportada sobre trilhos” — explica Tromboni. Os dois anéis comporiam uma grande plataforma logística intermodal sintonizada com o imperativo da redução de custos em transportes.


Ao pesquisador Marcos Pazzini, diretor-fundador da Target Marketing e Pesquisas, coube a exposição de indicadores que consubstanciam comportamentos econômicos destoantes entre a região de Osasco beneficiada pelo Rodoanel, o Grande ABC e o restante da Região Metropolitana de São Paulo. Enquanto a Grande São Paulo perdeu 10% de participação no ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) entre 1995 e 2002 e no Grande ABC o tombo foi de 31%, a região composta por Osasco, Barueri, Carapicuíba, Taboão da Serra, Cotia, Itapevi, Jandira e Santana de Parnaíba cresceu 21,8%. 


Já a participação da chamada Grande Osasco no bolo de potencial de consumo estadual cresceu 5,1% no período, enquanto o Grande ABC registrou queda de 8,8% e a Grande São Paulo recuou 9,3%. “Se o ritmo de Valor Adicionado se mantiver, a região da Grande Osasco ultrapassará o Grande ABC em produção industrial nos próximos 36 meses” — mostrou Pazzini, cuja empresa mantém parceria estratégia com o Instituto de Estudos Metropolitanos. 


Como o conglomerado urbano da Grande Osasco soma 1,9 milhão de habitantes, cerca de 500 mil a menos que o Grande ABC de 2,4 milhões, a comparação per capita é ainda mais indigesta para a região à espera do trecho sul. Em 1995, o VA per capita de quem vivia no Grande ABC era 94% maior. Em 2002 essa diferença foi estreitada para 23,08%. 


Capital da logística


A realidade indicada pelos dados do IEME é percebida na prática por operadores logísticos como Markenson Marques, diretor-presidente da Cargolift, com unidades na paranaense Curitiba e em Osasco. Com experiência de quem define a rota de 180 caminhões para abastecer setores de ponta como a indústria automobilística e a de linha branca, Markenson afirmou com todas as letras que Osasco é o ponto logístico mais importante do Brasil. “Quando decidimos nos instalar em Osasco, há oito anos, a posição já era privilegiada. Com o Rodoanel, o que era bom ficou ainda melhor” — assegura. 


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