O festival de farpas em que se transformou o painel sobre o Grande ABC e a Baixada Santista promovido pela Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) retrata de forma cristalina a enorme distância que separa a região da tão sonhada integração regional. Foi um evento raríssimo aquele realizado em julho no hotel paulistano Gran Meliá WTC. Afinal, reuniu integrantes da Agência de Desenvolvimento e de Ciesps regionais que simplesmente não se entendem desde que os centros das indústrias, ao lado de associações comerciais igualmente inadimplentes com obrigações financeiras de manutenção institucional, resolveram boicotar em bloco o organismo concebido pelo prefeito Celso Daniel.
Como cães e gatos encarcerados no mesmo recinto do 2º Congresso da Indústria Paulista, alas opostas se digladiaram e expuseram as vísceras da fragmentação regional sem se constranger com a presença de representantes da Baixada Santista — região portuária com a qual o Grande ABC precisa somar forças.
As cotoveladas verbais começaram depois que Paulo Eugênio Pereira Júnior conclamou o empresariado a participar da Agência de Desenvolvimento da qual é secretário-executivo, durante breve apresentação da trajetória da instituição criada em 1998. “Temos um acúmulo de discussões na região, mas tem faltado maior participação das empresas. É curioso vir até São Paulo para nos encontrar” — observou Paulo Eugênio, que aproveitou a oportunidade do Congresso para reiterar o convite à readesão de Ciesps e associações comerciais.
Confronto verbal
O que deveria ser compreendido como tentativa de reaproximação foi tomado como afronta. Presidente do Ciesp de Santo André, Shotoku Yamamoto deu resposta atravessada à sugestão de que empresários e representantes da Agência deveriam se reunir mais frequentemente em território regional.
Categórico, disse que o fato de todo o Estado de São Paulo estar ali naquele momento sinalizava que a Fiesp prestigiava a região — resta saber de que forma, já que as ramificações locais da entidade não moveram uma palha para evitar o desmanche industrial refletido na perda de 39% do Valor Adicionado nos oito anos de governo Fernando Henrique Cardoso. Na sequência, Shotoku Yamamoto foi ainda mais incisivo. “Não podemos ser uma entidade de eventos, mas sim de resultados” — disparou, em óbvia alusão aos seminários e workshops sobre desenvolvimento regional promovidos pela Agência e aos quais Paulo Eugênio acabara de se referir durante a apresentação.
O presidente da Acisa (Associação Comercial e Industrial de Santo André), Wilson Ambrósio da Silva, foi mais sutil, mas também procurou minar a instituição regional. Cutucou os brios de Paulo Eugênio ao dizer que a deserção em massa dos Ciesps e associações comerciais deveu-se ao fato de a Agência estar em situação inerte naquele momento. Não se sabe se ele se referia à delicada situação financeira causada pela inadimplência dos grupos que se diziam cheios de razão. “Se for feito convite, estamos dispostos a discutir o papel da Agência em conjunto” — arrematou Ambrósio, para em seguida deixar claro que Fiesp/Ciesp devem comandar as ações.
Trocando as bolas
Se os Ciesps da região tivessem capitaneado ações no sentido sugerido, as supostas lideranças empresariais não teriam assistido com passividade bovina ao processo de desmantelamento industrial e a Agência de Desenvolvimento que tantos criticam nem precisaria existir. Além disso, é difícil acreditar em boas intenções e justificativas de alguém que confunde economia com interesses político-partidários, como no recente caso em que se utilizou da Acisa — uma entidade estatutariamente apartidária — para atacar o PT (Partido dos Trabalhadores).
Disse Ambrósio ao Diário do Grande ABC por ocasião da visita à Acisa do então candidato peessedebista à Prefeitura de Santo André, Newton Brandão: “Sugiro que os candidatos que fazem oposição ao PT se unam. Esse é o pensamento que tem norteado a nossa diretoria. Portanto, vocês devem se sentar quantas vezes forem necessárias para se unir”.
Diretor do Ciesp de São Caetano, Willian Pesinato recuperou o caminho da razão. “Precisamos fazer autocrítica e vencer nossas vaidades, vencer nossas paixões e esquecer nossas ideologias a fim de mirar o alvo para trabalhar juntos” — apelou o empreendedor e dirigente. “Os que participam da Agência são sempre a mesma meia dúzia” — concluiu Pesinato, em convergência com a necessidade de adensamento institucional sugerida por Paulo Eugênio.
Reinvenção da roda
Os desentendimentos vieram à tona na sequência de um pálido retrato da economia do Grande ABC exibido pela Unicamp (Universidade de Campinas), que recebeu da Fiesp a atribuição de traçar planos de desenvolvimento para as várias regiões do Estado. Nada foi acrescentado de pragmático e transformador ao Grande ABC porque a Unicamp limitou-se a reproduzir informações repassadas pelos próprios Ciesps.
O professor Mariano Laplane mostrou dados populacionais, além do número de estabelecimentos em cada cidade e os principais setores econômicos. Neste quesito uma dúvida ficou no ar, já que a predominância do setor de móveis foi identificada em São Caetano e não em São Bernardo, como seria de se esperar em se tratando da cidade nacionalmente vinculada à movelaria.
Se a mobilização da Unicamp fosse somada ao agregado de conhecimento que a Agência de Desenvolvimento garimpou em seis anos de atividades, provavelmente os diagnósticos seriam mais aprofundados. A iniciativa isolada nutrida com dados estanques e suspeitos, já que têm origem em entidades historicamente comprometidas com o status-quo — ainda mais em véspera de acalorada eleição para presidência da Fiesp —, representa, na melhor das hipóteses, o ineficiente processo da reinvenção da roda.
Realismo acadêmico
Credite-se ao professor da Unicamp o senso de realismo e a humildade de reconhecer que o know-how acadêmico só se transforma em ferramenta útil quando devidamente utilizado pelo conjunto social coeso e comprometido. “Longe de nossa pretensão trazer um programa pronto, que só será formatado com participação dos atores locais” — ressalvou Mariano Laplane, que enfatizou três recomendações gerais: interação de agentes locais, projetos comuns e ações de longo prazo.
A melhor radiografia da economia regional foi tirada por Armando Laganá, pesquisador da Escola Politécnica da USP e assessor do governo do Estado de São Paulo na Câmara Regional. Além de reconhecer que o Grande ABC perdeu Valor Adicionado nos últimos anos, sem citar a virada de jogo com o saldo positivo de 5,67% em 2003, Laganá observou que a região perde empresas de alta tecnologia para as regiões de São José dos Campos, São Carlos e Campinas por falta de uma instituição aglutinadora de pesquisa e desenvolvimento. “Aí eu destaco a oportunidade de fomentar o segmento de eletrônica embarcada para veículos, aproveitando a produção já presente na região” — vislumbrou Laganá, que prescreve a criação de centros setoriais de difusão tecnológica para pequenas empresas. Ele engrossou o coro dos que pedem maior participação do capital nas discussões regionais. “A participação do setor empresarial é fundamental e tem sido pequena na região”.
Porto de Santos
Entre representantes da Baixada Santista as principais reivindicações são a expansão e a regionalização do Porto de Santos. “O Brasil é o único entre os grandes países onde os portos são controlados pelo governo federal” — reclamou o consultor e professor universitário Kalenin Pock Branco. É imprescindível que o Grande ABC se mobilize em torno da eficiência portuária sob o ângulo da competitividade sistêmica. Mas primeiro é preciso pôr ordem na casa.
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18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL