Mais que um cinturão azul, precisamos de um cinturão de prosperidade. Independentemente de cor. Até porque, a crise que vivemos já há alguns anos e renegada apenas pelos irresponsáveis não tem cor definida, porque é uma obra multicolorida de antigas e atuais gestões públicas (regionais, estaduais e nacionais), lideranças empresariais e atores sociais.
Quem acredita que as frases que antecedem a este parágrafo são desta data está muito enganado. Só troquei o original “cinturão vermelho” por “cinturão azul”. A frase que reproduzo com a troca de cor foi formulada por mim nesta revista digital, então news letter, em 22 de abril de 2004, portando há 12 anos, sob o título “Grande ABC está à espera de cinturão de prosperidade”. Retomo o assunto a propósito dos resultados eleitorais na Grande São Paulo.
Naquele texto de 14 anos atrás, recordei uma manchete do Diário do Grande ABC: “PT quer cinturão vermelho no ABC”. A matéria foi publicada em 23 de março de 2002 e retratava a declaração do presidente da Câmara dos Deputados, o petista João Paulo Cunha. Disse ele: “O PT vai investir pesado no Grande ABC para tentar conquistar as sete prefeituras da região nas eleições de outubro”. “Vamos fazer uma agenda das grandes lideranças no Grande ABC. Vai ter um acompanhamento de publicidade, vai ter apoio político, vai ter um olhar muito forte das lideranças do partido sobre a região” – afirmou.
Ou seja, e retomando o presente: o PT que acaba de ser eliminado do jogo politico de relevância na Província do Grande ABC deu com os burros nágua ao simplesmente partidarizar o território da região. Aliás, esse foi um dos pontos sobre os quais me debrucei ainda recentemente para afirmar categoricamente que o prefeito Luiz Marinho foi um dos piores gestores públicos da região em todos os tempos, exatamente porque como nenhum outro contou com contexto municipal, regional e federal amplamente favorável a uma grande jornada reestruturante.
Aprendendo a lição
Tomara que os tucanos que passaram a ter o controle geral da Província do Grande ABC nas eleições de outubro – tanto que aonde não mandam sozinhos passarão a ter o controle indireto – tenham aprendido a lição petista. Esse negócio de cinturão vermelho e de cinturão azul é bom para a Imprensa sem cabeça, que mal sabe do que se trata. Cinturão vermelho não se limitava, como ainda afirmam alguns jornalistas, aos municípios da Província do Grande ABC. A Grande São Paulo era o universo pretendido à ocupação estratégica. Como agora o é ao se anunciar o cinturão azul.
Recorro mais uma vez ao acervo desta revista digital para não deixar dúvida sobre o que estou afirmando. Em seis de novembro de 2000, o jornal O Estado de S. Paulo publicou a seguinte manchete: “PT quer fazer da Grande São Paulo uma vitrine”. Reproduzi trechos daquela matéria no livro que lancei em primeiro de abril de 2003 (“Meias Verdades”). Leiam:
O PT conseguiu triplicar o número de prefeituras sob seu comando na Grande São Paulo e já planeja desenvolver uma atuação conjunta com seus nove prefeitos. Interessado na eleição presidencial de 2002, o partido quer projetar nacionalmente os programas sociais. O número de cidades pode parecer pequeno, mas no centro dessa região está encravada uma importante vitrine: São Paulo, que coloca a prefeita eleita Marta Suplicy à frente dessa estratégia. “Todos os prefeitos poderão lançar, no mesmo dia, o bolsa-escola”, observa o deputado João Paulo Cunho, coordenador do Grupo de Trabalho Eleitoral. “Isso é bom porque nos dará visibilidade”. Além da possível repercussão da gestão integrada dos prefeitos, o deputado sonha em aumentar o número de pessoas atendidas pelo projeto, que pode ser adotado em várias cidades simultaneamente. Resta saber o poder de investimento dos futuros prefeitos. Marta Suplicy tem admitido que poderá herdar uma administração de cofres vazios” – escreveu o Estadão naquele novembro de 2000, logo após as eleições municipais.
Entre meias verdades
Quem trocar alguns nomes de petistas por nomes de tucanos e substituir Marta Suplicy por João Doria não estará cometendo nenhum crime de lesa identidade. A matéria do Estadão foi reproduzida quase que integralmente no livro “Meias Verdades”, num dos capítulos que preparei para mostrar que o que se consome na mídia é, em muitos casos, uma combinação de enganação e embromação.
O escopo de “Meias Verdades” era simples: eu apresentava uma reportagem de veículos de comunicação, e contrapunha a realidade dos fatos. No caso do projeto petista, seleciono alguns parágrafos da análise que preparei para o livro lançado, repito, em primeiro de abril de 2003 numa festa simples para presentes 800 convidados:
Passados mais de dois anos desde a vitória de Marta Suplicy, a integração dos municípios da Grande São Paulo administrados pelo Partido dos Trabalhadores não passa de ressaca pós-eleitoral. Apesar de todas as potenciais facilidades ensejadas pela convergência de ações metropolitanas desses municípios – porque todos estão sob o mesmo guarda-chuva do partido político reconhecidamente mais estruturado e sistêmico do espectro nacional --, as medidas estratégicas cooperativas foram sufocadas pelas ações táticas de sobrevivência. A carência de cultura de integração das metrópoles brasileiras, cujos dirigentes são tão parceiros quanto gatos e ratos, recomenda que iniciativas cooperadas sejam preparadas por medidas legais. Mas isso apenas não basta: a participação da sociedade nas instâncias de diagnóstico, formulação, operação e monitoramento das propostas é tão importante quanto a vontade política de quem está na administração pública. Fosse diferente, a Região Metropolitana de São Paulo, herdada da rigidez de planejamento do regime militar, não teria calamidade como sinônimo. (...) O ex-prefeito Celso Daniel, principal agente público da Região Metropolitana de São Paulo a dedicar devoção às questões regionais, desacelerou o empenho com que se lançou quando descobriu que estava jogando sozinho o jogo da coletivização gerencial dos sete municípios do Grande ABC. Azar dos contribuintes, porque os problemas que os afrontam no dia-a-dia metropolitano não têm demarcação territorial – estão por todas as partes – escrevi há 13 anos.
Passado atualizado
Como percebem os leitores, tudo é tão lamentavelmente atual que só de ouvir falar de cinturão azul, depois do cinturão vermelho, tenho urticárias. O que impressiona nestes tempos de informações em excesso e cérebros escassos na mídia em geral é que os papagaios só repetem o que dizem os agentes públicos, muitos dos quais sem noção alguma do significado de metropolização.
Regionalidade sempre foi e continuará a ser uma das preocupações deste jornalista. Embora este site tenha espaço específico para o assunto, que conta com quase 300 matérias, a verdade é que regionalidade permeia todas as editorias.
Por isso, quando se prenunciam novos golpes eleitorais com vistas a novas tentativas de fortalecimento partidário que culminariam com a disputa presidencial, é indispensável que se sinalize para a possibilidade de que estão a preparar alguma traquinagem para enganar o distinto público.
Sinceramente, e com todas as letras, sou completamente cético à possibilidade de a metrópole paulista ganhar dinâmica que junte teoria e prática na busca por novo modelo de gerenciamento que redundaria em melhoria contínua da qualidade de vida de mais de 20 milhões de habitantes.
Baixa conectividade
Somos uma selva de improvisações e desatinos entre outros motivos porque não existe no setor público um grupo de profissionais com liberdade de atuação para mudar o quadro. As instâncias de planejamento da Grande São Paulo são arquipélagos burocráticos sem conectividade com a vida real.
O cinturão de prosperidade econômica com fundas reações sociais é uma premissa sobre a qual apenas o então prefeito Celso Daniel, criador da Agência de Desenvolvimento Econômico e do Clube dos Prefeitos, se dedicou para valer e mesmo assim por tempo limitado pela imobilidade dos demais companheiros de viagem.
Celso Daniel já se foi há 14 anos e não houve sequer um agente público que sugeriu a possibilidade de que tenha herdado alguma rebarba da vocação metropolitana que ele tanto estimulou.
O cinturão azul que já se desenha não passaria, portanto, de uma jogada político-partidária legítima por sinal, mas sem compromisso com o conjunto da população. Sem essa sinergia, tudo é muito mais improvável.
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18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL