Regionalidade

Esse trio tem tudo para colocar
Clube dos Prefeitos nos eixos

DANIEL LIMA - 22/11/2016

Acredite quem quiser, porque vou contrariar a lógica de ceticismo e vou produzir em seguida uma análise rápida e consistente que invade a área da confiança mesmo que desconfiada. É o seguinte: o Clube dos Prefeitos pode viver trajetória que o retiraria do calabouço da improdutividade de quase duas décadas. Basta que os prefeitos de Santo André, São Bernardo e São Caetano – todos tucanos da gema – decidam comandar a instituição em conjunto. Ou seja: abaixo o presidencialismo formal e indutor à preguiça dos demais titulares de paços municipais. 

Os demais prefeitos da região – também tucanos da gema ou adaptados – têm importância secundária, mas nem por isso descartável. Quem parte e reparte e junta todas as partes é muito mais que bom em matemática -- é um excelente estrategista. 

Imaginem, então, três estrategistas alinhados a uma causa em comum – acabar com a farra de muita espuma e poucos resultados da instituição criada por Celso Daniel no começo dos anos 1990. Já passou da hora de o Clube dos Prefeitos acordar. Ou ser sacudido. Somente unidos os três prefeitos das cidades mais poderosas da região poderão mudar o itinerário de solavancos. 

Muitas afinidades 

Se Paulinho Serra, Orlando Morando e José Auricchio arregaçarem as mangas e deixarem de lado qualquer resquício de vaidade e privilégios municipalistas nas causas genuinamente regionais, farão história na Província do Grande ABC. Esse organismo colegiado de araque que só funciona e mal funciona na base do presidencialismo de plantão exige roupagem de fato regionalista. Chegou a hora com esse triunvirato que o sortilégio eleitoral colocou nos respectivos paços municipais. 

Eles têm afinidades politicas, ideológicas, pessoais e outras mais. Só não torcem pelo mesmo time. Seria demais suportar três são-paulinos ou três palmeirenses. Dois deles vão comemorar domingo o título brasileiro que não veem há 22 anos. E são capazes de dizer que teriam conquistado mais que cinco títulos nacionais. Coisas do então presidente da CBF metido em encrencas financeiras internacionais.

Não será ainda neste artigo que vou elencar e sintetizar os 10 pontos cardeais que me levaram a dar nota zero aos últimos quatro anos de gestão do Clube dos Prefeitos. O que me move agora é uma lógica meridiamente clara: quem tem o poder econômico e financeiro na região, e por extensão o maior peso político e social, precisa e deve assumir responsabilidades e transformar o Clube dos Prefeitos em algo que não possa ser novamente catalogado como ilusionismo a serviço da malandragem semântica.

A imprensa regional pouco crítica é o escoadouro natural de propostas que não saem do papel. Somos seguramente a região mais próspera do País quando se separa a realidade da fantasia. Basta ficar com a fantasia. 

Domínio econômico 

Vou cobrar de Orlando Morando, Paulinho Serra e José Auricchio uma revolução à frente do Clube dos Prefeitos. Independentemente de quem seja o titular formal da presidência. É necessário acabar com esse negócio de centralidade presidencial. A conjugação de esforços desses três prefeitos, os quais não devem perder de vista, inclusive, as respectivas reeleições, é o grande passe de mágica para mudar tudo que há de ser mudado. 

É muita burrice desprezar uma massa numérica que carrega implicitamente muito de social. No ano passado, 2015, Santo André, São Caetano e São Bernardo foram responsáveis por 76% das receitas gerais dos municípios da Província do Grande ABC e por 80% dos investimentos. 

Ou seja: a dinheirama regional se move pelo ABC da Província do Grande ABC. Muito provavelmente porque o ABC antigo deixou-se perder na poeira de um municipalismo desagregador tivemos trajetória do chamado Grande ABC que deu com os burros nágua. Éramos muito mais ricos quando Santo André, São Bernardo e São Caetano não se deixaram levar por mesquinharias e, mesmo sem rompantes de regionalidade, controlavam as rédeas do poder regional. 

Equívocos a dinamitar 

Não gosto e não aprovo essa demagogia barata de rotatividade presidencial do Clube dos Prefeitos. Para ser mais específico, não gosto nem da rotatividade nem do sistema presidencial. Está mais que comprovado que a entrega do comando do Clube dos Prefeitos a titulares de paços municipais sem expressão econômica e política é um atraso. 

A proporcionalidade de ocupação do comando, se o presidencialismo tiver mesmo de sobreviver, deveria basear-se na musculatura econômica. O rodizio se daria proporcionalmente ao poder de fogo dos municípios. Com isso, claro, Santo André, São Bernardo e São Caetano assumiriam o timão em larga escala de tempo. 

Sei que não é politicamente agradável escrever essas coisas, mas quem disse que competitividade regional se faz com salamaleques? Com todo o respeito que me merecem, colocar os prefeitos dos demais municípios da região no mesmo ritmo temporal de comando da organização coletiva que os representa sem levar em conta o valor econômico qualificado é flertar com oscilações estratégicas e táticas.  O peso institucional de Santo André, São Bernardo e São Caetano está muito acima do dos demais municípios. 

É claro que não vão mexer nesse vespeiro. Mas deveriam. Mesmo assim, ou seja, mesmo sustentando critérios anacrônicos, o Clube dos Prefeitos pode conhecer nova realidade se Paulinho Serra, José Auricchio e Orlando Morando se unirem e trouxerem suplementarmente os demais titulares dos paços municipais como reforços. 

Capital econômica 

São Bernardo do prefeito Orlando Morando tem maior cacife para comandar o Clube dos Prefeitos. O prefeito Luiz Marinho demorou demais para perceber que poderia ganhar nova dimensão política à frente daquela organização coletiva. Esperou o Clube dos Prefeitos habilitar-se legalmente a receber dinheiro do governo federal, principalmente. Mas se danou porque veio a crise fiscal e o prometido foi adiado -- e deverá ir às calendas. 

Na temporada passada São Bernardo dominou as receitas totais das sete prefeituras da região. Foram 39,13%, com R$ 3.683.371 bilhões do total regional de R$ 9.408.434 bilhões, segundo dados da Secretaria do Tesouro Nacional. A vantagem de São Bernardo é mais expressiva no outro lado da moeda, de investimentos. Foram nada menos que R$ 492.367 milhões de um total regional de R$717.102 milhões. 

Perceberam os leitores o grande nó a desafiar o Clube dos Prefeitos? Se não perceberam, vou clarear. Peguem as receitas gerais dos sete municípios e comparem com os investimentos totais. A participação dos investimentos é pífia, de apenas 9,55%. Ou seja: de cada R$ 100 arrecadados de todas as fontes possíveis pelos municípios da Província, menos de R$ 10 geraram investimentos. Somos, portanto, uma região sucateada. Santo André nos áureos tempos de viveiro industrial aplicava mais de 50% das receitas gerais em obras. 

Quando se leva em conta que 54,77% dos investimentos realizados no ano passado se concentraram em São Bernardo, Capital Econômica da região, imaginem o quanto sofremos como conjunto, como bicho de sete cabeças? 

Caso de fracasso 

O que quero dizer com tudo isso é que não tem cabimento os três principais municípios da região, centros difusores dos demais, deixarem de lado medidas de bastidores e de práticas que conduzam seus titulares de paços municipais a compartilharem posição de destaque no Clube dos Prefeitos. Chega de mecanismo estatutário que transformaram os prefeitos desses municípios em forças secundárias.

A funcionalidade do Clube dos Prefeitos ao longo da história é um case de fragoroso fracasso, porque, embora consorciados, os prefeitos que não ocupam a presidência simplesmente abrem mão de qualquer participação mais ativa. 

Antes que uma reforma estrutural consistente vire realidade (e é isso que proporei num texto já prometido), esse triunvirato romper com a tradição malévola de isolacionismo presidencial do Clube dos Prefeitos. Quem parte e reparte e muitas vezes não fica sequer com uma parte, é burro e não entende da arte. 

Não vou dar sossego aos atuais prefeitos de Santo André, São Bernardo e São Caetano na condução do Clube dos Prefeitos. Eles têm a opção de se tornarem reformadores ou manterem a tradição de conformistas calamitosos.  



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