Regionalidade

Clube dos Prefeitos: Morando
emite sinais muito preocupantes

DANIEL LIMA - 30/11/2016

O prefeito eleito de São Bernardo, Orlando Morando, emite sinais perturbadores de que vai continuar a faltar combustível na aeronave da regionalidade e que, por isso mesmo, poderemos seguir uma rotina de tragédias sucessivamente anunciadas e consumadas, embora sempre minimizadas. Perdoem-me pela sutil (sutil?) correlação de imagem com a mais provável causa da queda do avião que matou o time da Chapecoense e muito mais gente. Essa é a maneira que encontrei de chocar mais uma vez quem tem um mínimo de compromisso com a região. 

O plano de voo que os novos prefeitos da região estão programando para o Clube dos Prefeitos é um roteiro antigo de um filme cada vez mais piorado. Um filme que já assisti teimosamente muitas vezes. Falta a todos os prefeitos eleitos – até prova em contrário – o que imaginei que as circunstâncias atuais seriam demolidoras e, portanto, embalariam novos procedimentos.  

O que se pretende de imediato é incorporar à inutilidade e dispersão do Clube dos Prefeitos uma dieta orçamentária sem embasamento técnico e também um partidarismo de ocasião. Agora são os tucanos que dão as cartas na Província do Grande ABC, após a hecatombe petista. Estou sentindo um cheiro diferente, embora semelhantemente característico de tragédia administrativa-regional no ar. Tomara que esteja enganado, mas noticiário sempre superficial encaminha a essa interpretação crítica. 

Descaminho duplo 

Ainda vou escrever mais sobre as Dez Medidas que propus na edição de ontem desta revista digital para colocar o Clube dos Prefeitos no caminho da efetividade. Aliás, pretendia voltar ao assunto nesta edição ao fundamentar em termos orçamentários e práticos aquelas sugestões. Entretanto, fui surpreendido com dois fatos horrorosamente novos: Orlando Morando, Paulinho Serra e José Auricchio falam em acrescentar ao organograma do Clube dos Prefeitos uma autoridade do governo do Estado; e os prefeitos eleitos como um todo revelam interesse em reduzir sem qualquer estudo mais apropriado os repasses dos municípios ao funcionamento manquitola da entidade. 

Centralizo minhas críticas em Orlando Morando porque ele é considerado o próximo presidente do Clube dos Prefeitos. Morando se manifestou hoje em entrevista ao Diário do Grande ABC sobre a abertura de espaço a um representante do governo tucano do Estado no quadro diretivo da organização representativa dos Executivos da região. Morando não só elogiou a iniciativa como também expôs a identidade do possível futuro integrante, no caso Edmur Mesquita, subsecretário de Assuntos Metropolitanos do governo Geraldo Alckmin. 

Mário Covas abandonou

A introdução de um tucano paulista de segundo escalão no quadro diretivo do Clube dos Prefeitos é uma redundância que nada vai acrescentar à dinâmica de que tanto precisamos. Fosse a gestão estadual tucana exemplo de eficiência de regionalidade na Província do Grande ABC, até se admitiria a proximidade. 

Como o governo Alckmin, antecedido do governo Mário Covas, é um fracasso em metropolização, sobretudo na Grande São Paulo, território abandonado ao longo de década em tudo que diz respeito a interatividade econômica, o que teremos será mais do mesmo. Teremos muito marketing e pouco resultado prático. 

Os números históricos do comportamento da economia da Grande São Paulo só não são piores porque, em contraponto à derrocada da Província do Grande ABC, houve avanços de investimentos e geração de riqueza em outros municípios por vontade de seus próprios dirigentes públicos, não necessariamente por política estadual de gestão compartilhada. 

Há nesta revista digital análises históricas sobre o comportamento da economia de Guarulhos, Osasco, Barueri e outros municípios da Região Metropolitana de São Paulo. Aliás, CapitalSocial segue o roteiro que estabeleci na revista LivreMercado. 

Recorrendo à história 

Provavelmente nenhum dos atuais prefeitos eleitos na Província do Grande ABC tem conhecimento de fatos pretéritos, de meados dos anos 1990, que justificam a desconfiança da utilidade de um integrante do governo estadual no Clube dos Prefeitos. Atraiu-se há duas décadas o próprio governador do Estado, Mario Covas, às demandas regionais. Criou-se, então, a Câmara Regional do Grande ABC, espécie de Clube dos Prefeitos ampliado com a participação de deputados estaduais e deputados federais, secretários estaduais e representações de instituições regionais. 

O resultado final, mesmo com a liderança de Celso Daniel e de Mário Covas, foi zero vezes zero. O governador fez um discurso entusiasmado no lançamento, em São Bernardo, mas depois refluiu. Nem comparecia às reuniões. Os secretários de Estado também refugaram. A Câmara Regional morreu de morte natural, mas de vez em quando algum mal informado tem a cara de pau de aludir sucesso àquela iniciativa. Uma barbaridade de ignorância. 

Entretanto, trata-se de uma ignorância plenamente curável. Basta recorrer aos arquivos desta publicação. Há nada menos que 306 matérias-análises que tratam direta ou indiretamente da Câmara Regional.  Selecionei duas para os links logo abaixo. Vale a pena informar-se antes de se cometerem novas burradas. 

Regionalismo desprezado

O que quero dizer com tudo isso – e a sucessão de fatos está aí para provar – é que o governo do Estado de São Paulo, assim como o governo federal petista recentemente enterrado, jamais deu bola a qualquer coisa que lembre regionalidade no campo econômico. O mapa de interesses tanto de avermelhados quanto de azulados sempre se pautou pelo interesse politico-eleitoral mais simples, de caça às votos com politicas de curto prazo. 

Regionalidade com valor agregado, como a proposta por este jornalista na edição de ontem e que, repito, ainda terá mais elementos, exige tanto resultados de curto prazo quanto conexão com o futuro. Daí ter colocado o que chamei de Planejamento Estratégico como centro catalizador e gerador de ações. 

Quanto ao corte orçamentário que se pretende aplicar no Clube dos Prefeitos, por conta do estado degenerativo dos cofres municipais que seguiram a mesma trilha do governo central e da maioria dos governos estaduais, trata-se de manifesta aberração. O Clube dos Prefeitos precisa priorizar – até por conta de ação diferenciada de gestão administrativa que sugeri – a redução do quadro de funcionários instalados pelo petismo corporativista de Luiz Marinho. A substituição da maioria de colaboradores sem domínio da especialidade desenvolvimentista que sugeri no documento de ontem pela terceirização de projetos e ações será tremendamente mais produtiva. 

Agência para quê? 

Iria mais longe e também de forma contundente, porque a hora não é apropriada a salamaleques: a configuração proposta ao Clube dos Prefeitos, com gente especializada em competitividade econômica internacional a dar as cartas no comando profissional da instituição, dispensa a manutenção da Agência de Desenvolvimento Econômico. 

Na verdade, a Agência está a sobrar no organograma de regionalidade da Província do Grande ABC desde sempre, porque jamais exerceu protagonismo desenhado por Celso Daniel. Até porque não conta com recursos financeiros para tanto – e muito menos com capital político. 

A sobreposição entre Agência e Clube dos Prefeitos é um desperdício arraigado que se tornaria uma aberração gerencial caso os prefeitos eleitos levem a sério a contratação de consultorias especializadas para conduzir tecnicamente os destinos da regionalidade. 

Importante mesmo em termos de comunicação com a sociedade consumidora de informações é que o Clube dos Prefeitos não passa de uma farsa institucional que não se sustentou ao longo dos tempos entre outras razões porque seus próprios integrantes – os prefeitos – não lhe dão o devido valor e respeito. 

Inadimplência democrática 

Tanto é verdade que o jornal Diário Regional ainda outro dia publicou matéria (sem a indignação necessária para quem faz jornalismo) com a lista de inadimplentes com os cofres do Clube dos Prefeitos, cujo resumo é (a interpretação é minha) a generalização da democracia no que existe de pior, ou seja, abrange todos os paços municipais. 

Quando me perguntam quais são os pontos cardiais desta revista digital (como se o perfil editorial não estivesse claramente exposto nos acervos), costumo responder que se resumem aos conceitos de regionalidade que há quase três décadas martelamos nos veículos de comunicação aos quais procuro repassar dedicação, honradez e honestidade intelectual. Fora isso, torna-se realmente muito pouco provável que possa estabelecer diálogos sobre regionalidade com os comandos das respectivas administrações municipais. 

A sociedade da Província do Grande ABC não poderá ser mais uma vez enganada com falsidades programáticas mais que conhecidas, porque repetitivas. O Clube dos Prefeitos precisa ser reconfigurado e dinamizado, mas não o será com orçamento rebaixado sem estudos prévios e muito menos com o desembarque partidário de representações extra-região de um governo estadual há muito instalado na coluna de déficit de regionalidade dentro da metropolização.  

Senhores novos prefeitos da Província do Grande ABC, por gentileza, não frustrem nossas expectativas. Sejam realmente diferentes, reformuladores, impiedosos na luta contra a mesmice inútil.

Leiam também: 

Câmara Regional não passa de grande blefe

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