Regionalidade

Clube dos Prefeitos: Marinho
dá recado e atesta inutilidade

DANIEL LIMA - 07/12/2016

Pior prefeito da história de São Bernardo (essa avaliação é o resultado do que foi feito e do que poderia ter sido feito, considerando-se o contexto histórico amplamente favorável ao petista chegadíssimo ao presidente Lula da Silva e a Dilma Rousseff) e também mais um comandante que pouco fez à frente do Clube dos Prefeitos do Grande ABC, Luiz Marinho deixou um recado aos eleitos em outubro próximo e que, salvo Lava Jato e quejandos, assumem os respectivos paços municipais em janeiro próximo: mantenham a contribuição financeira à entidade regional. 

Como se sabe, já há quem defenda redução contributiva ao Clube dos Prefeitos, quando a lógica geoeconômica é de aumentar o fluxo de recursos em organizações multilaterais para o enfrentamento de um mundo sem fronteiras -- por mais que Donald Trump pense o contrário. 

Um mergulho na notícia publicada pelo Diário Regional de hoje mostra o quanto a notícia é burocrática e o quanto o prefeito Luiz Marinho é generoso com parceiros de partido, enquanto é estridente revanchista no tratamento aos adversários. 

Balela contributiva 

A notícia é burocrática porque se limita a dar informações sem valor agregado. Com isso, deixa passar em branco um elefante de explicações em forma de interpretação. Por exemplo: a regionalidade contributiva das prefeituras já é uma balela. O título correto da matéria do Diário Regional deveria ser “Marinho defende manutenção de repasses ao Consórcio a municípios inadimplentes”, não simplesmente “De saída, Marinho defende manutenção de repasses ao Consórcio”. Vou explicar.

Segundo a matéria do Diário Regional, Santo André do prefeito petista Carlos Grana, outrora integrante do Fórum da Cidadania, deve nada menos que R$ 4,5 milhões de repasse ao Clube dos Prefeitos. Pela tabela previamente desenhada de repasses à entidade, Santo André deveria ter transferido nesta temporada R$ 5,4 milhões. Como deve R$ 4,5 milhões, dispensa-se legenda sobre o tamanho do rombo. 

Antes de avançar sobre os escombros financeiros do Clube dos Prefeitos, vale a pena explicar sucintamente a gênese do Fórum da Cidadania, movimento multilateral que agitou lideranças da região em meados dos anos 1990. Carlos Grana, então representante do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, era um dos mais brilhantes debatedores. Vinte anos depois custa acreditar que, à frente da Prefeitura de Santo André, tenha negado fogo de repasse financeiro ao Clube dos Prefeitos. 

Cadáver abandonado 

A contribuição das prefeituras ao Clube dos Prefeitos corresponde a 0,5% das Receitas Correntes Líquidas. A previsão de que receberia nesta temporada R$ 27 milhões deu com os burros nágua. Segundo a própria entidade, todos os municípios são devedores, em escalas diferentes. 

A imagem de que familiares reunidos para dividir despesas com cerimonial fúnebre de acordo com as posses financeiras não cumpriram o acordado e deixaram o corpo estendido no chão pode parecer extrema, mas diz bem sobre a situação em que se encontra o cadáver da regionalidade da Província. 

De interessante também na entrevista de Luiz Marinho ao Diário Regional foi a seguinte afirmação: “Fizemos grande esforço para tirar o Consórcio do estado de quase letargia e colocá-lo de fato na condição de exercer, liderar e coordenar serviços que pudessem garantir sinergias regionais. O Centro de Formação das guardas (civis municipais) é um exemplo disso, mas é preciso recursos. Não existe milagre se não houver recursos. Não fosse pelo trabalho do Consórcio, por exemplo, Rio Grande da Serra não teria recebido as verbas que recebeu”. 

Voltando à afirmativa de que a matéria jornalística é burocrática, tratemos então de dar a devida interpretação para que os leitores entendam a situação do Clube dos Prefeitos. 

Quando Luiz Marinho diz que o Clube dos Prefeitos saiu da letargia em que se encontrava (e que vem sendo denunciada sistematicamente por este jornalista, tanto quanto a letargia que ataca indistintamente a quase totalidade das instituições da Província do Grande ABC) isso não quer dizer que esteja nadando de braçadas. Longe disso. O Clube dos Prefeitos ganhou apenas uma porção de marketing, especialidade dos políticos, mas não alterou em nada a rota de desmilinguamento que o caracteriza. 

Pequenez de projetos 

O exemplo do centro de treinamentos dos guardas municipais é o espelho fiel do descompasso entre a magnitude dos problemas econômicos da região e os esparadrapos sociais aplicados. “Esparadrapos sociais” é uma expressão emprestada de uma Reportagem de Capa monumental produzida pela jornalista Malu Marcoccia nos tempos de LivreMercado. 

Ao apontar Rio Grande da Serra como beneficiária de recursos federais decorrentes de ação do Clube dos Prefeitos, Luiz Marinho abriu brecha para, em seguida, a reportagem do Diário Regional registrar que foram R$ 41 milhões liberados para obras em mobilidade urbana. “Rio Grande da Serra foi a única cidade do ABC a ser contemplada com o repasse, dentro de um pacote que previa R$ 500 milhões para projetos nos sete municípios”, escreveu o Diário Regional. 

É claro que não resisto a uma ponderação. Trata-se do seguinte: será que o dinheiro recebido por Rio Grande da Serra foi mesmo consequência de ação do Clube dos Prefeitos? Se foi, como se explica que tenha representado menos de 10% de tudo anunciado freneticamente como investimentos federais que jamais chegaram? 

Obras de mobilidade urbana na pequena Rio Grande da Serra, em detrimento de municípios locais nos quais o caos logístico é acentuado, não seria um despropósito em termos de prioridade? 

Luiz Marinho também disse à reportagem do Diário Regional que os novos prefeitos terão como principal desafio “articular projetos conjuntos regionais para melhoria do transporte público e mobilidade urbana”. E mais: “Do jeito que está é um sistema ineficiente e custoso para o passageiro. Porém, também há desafios nas áreas de drenagem, segurança, saúde. Enfim, é preciso investimento contínuo”.

Confissão da inutilidade

Querem uma tradução irresistível ao discurso de Luiz Marinho? Trata-se da confissão tácita de que os oito anos à frente da Prefeitura de São Bernardo e de três temporadas à frente do Clube dos Prefeitos (no primeiro mandato, sem meios legais de recolhimento de dinheiro federal, Luiz Marinho não deu a menor bola para a entidade), além de 13 anos de poderio federal do PT, a Província do Grande ABC foi praticamente ignorada como território que exige profundas mudanças. 

Não é sempre que Luiz Marinho se dispõe a dar entrevistas. Quando o faz sempre se preocupa em blindar-se de perguntas indesejáveis. Mas mesmo as desejáveis, quando avaliadas atentamente, são um poço sem fundo de contradições e entregas de rapaduras. 



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