Regionalidade

Tradição empreendedora prevalece

DANIEL LIMA E MALU MARCOCCIA - 05/03/1997

A tradição empreendedora do Grande ABC, que remonta à chegada de caudais de imigrantes europeus, notadamente italianos, armênios e espanhóis, entre outros, é a pedra de toque que tem abrandado a pressão social resultante da contínua quebra de postos de trabalho industrial e da já quase exaurida absorção de mão-de-obra nas áreas comercial e de serviços.


Com o mercado de trabalho estrangulado no setor privado e com perspectivas de cortes profundos na área pública, quase toda representada por Prefeituras às voltas com déficits orçamentários e excesso de pessoal, desempregados da região estão virando pequenos empreendedores. Ex-executivos e ex-técnicos especializados tornam-se franqueados de marcas famosas ou mesmo abrem negócios para atender diretamente e muitas vezes com exclusividade sua antiga empregadora, no que se convencionou chamar de terceirização.


Eles investem recursos indenizatórios geralmente substanciosos. Ex-operários abrem, de acordo com o montante do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, mercearias, bares, videolocadoras, lava-rápidos, coisas assim. Com isso, inflam o número de estabelecimentos comerciais e de serviços que estatísticos e desastrados relacionam com desenvolvimento econômico. Trata-se, como se observa, de redistribuição da massa de recursos destinados ao consumo de bens e serviços cada vez menos volumosa, porque a indústria em declínio é o carro-chefe da economia regional.


Nos últimos anos, a transformação econômica do Grande ABC é flagrante. Nem seria preciso recorrer a números estatísticos sobre a ocupação da mão-de-obra para verificar que explodiram os setores comercial e de serviços. Essa mudança tem o lado positivo, de provocar aumento da oferta de bens e serviços, mas também o negativo, de desencadear sistema concorrencial em que se mescla o despreparo técnico-administrativo e uma visão pouco acurada das necessidades de demanda.


O escritório regional do Sebrae em Santo André, uma das mais novas agências do órgão, com apenas três anos de atuação, tem registrado evolução contínua de novos candidatos a empreendedor e de empreendedores à caça de informações, treinamentos e reciclagem. Cursos e consultorias têm alcançado volumes recordes de participantes. Mas muitos desempregados transformados em patrão continuam a virar estatísticas de falências e concordatas ou simplesmente se escondem na informalidade.


Quem está no mercado e sabe que a mais dramática alternativa do sucesso é o fracasso trata de se virar. Tanto que o Sebrae, espécie de porta-da-esperança de quem está assustado com a quase inutilidade da carteira de trabalho, registrou no balanço de 1996 que se fortalece a tendência de pequenos empreendedores tratarem seus negócios de forma distinta dos tempos de inflação alta e de mercado fechado.


Agora, em vez de darem ênfase ao mercado financeiro, que em muitos casos contrabalançava os percalços operacionais, os pequenos negócios primam pela melhoria da administração dos recursos em caixa e do marketing. Num patamar levemente inferior, preocupam-se os pequenos patrões com a modernização com o uso da informática.


Não é exagero algum colocar o Grande ABC na condição de uma das regiões mais privatistas do País. A cultura de empreender, se já era sólida até recentemente, passou a ser doutrina depois que as indústrias começaram a fechar postos de trabalho e o boom comercial e de serviços, com a chegada de vários shoppings centers, supermercados e franquias, já não tem a mesma impetuosidade.


É provável que ainda haja nichos de mercados a explorar, mas a indigência estatística da região não oferece nenhum estudo científico. Procurar descobrir o número exato de estabelecimentos por segmento é sonhar alto demais, quando se sabe que nem o universo regional está sistematizado.


Certo mesmo é que o Grande ABC ainda vive uma febre intensa de novos empreendedores modestos. A dificuldade desses franco-atiradores é saber onde está o alvo. Aqueles que vão atrás de programas de televisão que falam do sucesso de determinados segmentos, e se esquecem que improvisar é o pior dos remédios e que um bom ferramenteiro pode quebrar a cara como dono de butique, acabam engrossando a lista de desventurados.


O Sebrae existe para evitar essas trombadas, mas não tem o controle das vontades depois que presta as informações básicas em seu balcão de atendimento. Desemprego e dinheiro no banco formam dupla mais infernal que Pelé-Coutinho dos tempos de Santos bicampeão do mundo. Muitas vezes o desespero da ociosidade e a coceira da capitalização levam a investimentos sem a menor atenção para critérios elementares de retorno do capital, instrumentalização operacional, conhecimentos burocráticos.


Já os que não têm muitos recursos de indenizações nordestinizam as periferias. Também bairros de classe média assistem a esse processo que consiste na improvisação e na adaptação de áreas residenciais em estabelecimentos comerciais e de serviços. Garagens de veículos ganham formas e conteúdo de uma diversidade de ramos. O termo nordestinação é surrupiado de uma realidade comum no Nordeste brasileiro onde, nas grandes Capitais, a avalanche de comércios e serviços de subsistência é característica forte.


O Sebrae é parceiro importante no preparo de antigos trabalhadores que decidem virar microempresários, mas parcela pouco expressiva procura seus profissionais, comparativamente ao potencial de demanda. Mesmo assim, os números do balanço do ano passado são instigantes. O balcão de atendimentos registrou 23.919 interessados em obter algum tipo de informação. A área de treinamentos atingiu 2.138 inscrições, contra pouco mais da metade, 1.253, do ano anterior. Os cursos saltaram de 86 para 107 entre 1995 e 1996.


Apesar da relevância desses programas, grande parcela dos patrões da periferia, aqueles que têm o foco centrado na subsistência, prefere conduzir seus negócios à base da intuição. Praticamente não colocam questões cooperativas na agenda. Sindicatos e associações de classes pouco lhes interessam e se a filiação não for obrigatória, desprezam a relação.


Só os moveleiros de São Bernardo, classe tradicional que, antes da chegada dos automóveis, representavam a maior parcela da arrecadação e de empregos do Município, e também donos de pequenas farmácias, agregados num sistema associativo, efetivamente utilizam-se das armas do cooperativismo. Os micropatrões que em outros tempos se organizaram e se fizeram respeitar como operários, por força da atuação sindical, dizem que não têm tempo para ações conjuntas, como compras através de uma central. Comprar bem é fundamental para ter competitividade. Escala é ponto decisivo no barateamento unitário. Quando não se tem isso, é fácil imaginar os transtornos diante de concorrentes de maior poder de fogo.


E não faltam grandes empreendedores no Grande ABC. Desde que há 11 anos o Shopping Mappin, agora Shopping ABC, chegou em Santo André, uma torrente de investimentos inebriou formadores de opinião e os tornaram até insensíveis à realidade da outra ponta da economia, em forma de emagrecimento industrial.


Há tantos shoppings na região e tantas novas lojas em construção nos que já estão instalados e nos que estão se instalando que uma grande dúvida passou a povoar o pensamento e as estratégias de boa parte dos lojistas e administradores: será que vai haver tantos consumidores assim? Desconfia-se que não.

Por mais que quase 2,3 milhões de habitantes sejam número expressivo, e que ganham mais robustez se adicionados os consumidores do conjunto de bairros paulistanos que faz vizinhança com a região, cujo acesso foi facilitado pelo corredor de trólebus, os tempos estão bicudos por causa do contínuo dispensar de mão-de-obra da indústria e da flexibilidade informal das relações trabalhistas.


Menos mal que há uma compensação que vem sendo bem explorada e, por isso, tem permitido certa acomodação do mercado. Trata-se da evasão de consumidores rumo à Capital. Nos tempos em que o Grande ABC era literalmente uma província comercial e de serviços, em que grandes supermercados, shoppings e franquias ainda não haviam descoberto o potencial de consumo da região, o tráfego em direção a São Paulo era intenso.


De uns tempos para cá desacelerou-se a sangria, porque a oferta local ganhou tanto quantidade quanto qualidade. Desta forma, as perdas relativas de uma economia que se fragiliza a partir do setor industrial foram contrabalançadas, em proporções não identificadas, pela redução da debandada de consumidores.

Os últimos números divulgados pelo IMES (Instituto Municipal de Ensino Superior de São Caetano), única instituição regional que reúne determinados indicadores da temperatura econômica do Grande ABC, detectou que a taxa de desemprego de novembro de 1996 entre moradores de Santo André, São Bernardo e São Caetano, os três municípios mais importantes da região, foi equivalente a 10,8% da População Economicamente Ativa (PEA).


O bom senso indica que esses números já não refletem a realidade, porque o segundo semestre é naturalmente mais pródigo na economia, ainda mais em período eleitoral. Tanto que a taxa de crescimento do PIB nacional alcançou 6,5% de crescimento no período. Além desse anabolizante circunstancial, se a pesquisa envolvesse os demais municípios, comprovadamente de indicadores socioeconômicos mais modestos, o percentual seria substancialmente elevado.


A mesma pesquisa registrou outra face de quem perde emprego industrial na região e não consegue montar o próprio negócio, ou monta e fracassa: nada menos que 33% dos entrevistados que estavam desempregados são formados por mão-de-obra considerada especializada. As agências de emprego da região nunca estiveram tão abarrotadas de pretendentes a cargos cada vez mais restritivos quanto à competência da mão-de-obra. A proporção de candidatos cadastrados e de vagas disponíveis é alarmante.


Uma dessas agências tem 21 mil nomes de desempregados na fila de espera e mal consegue colocar 250 profissionais por mês no mercado de trabalho. Se a globalização é intrinsecamente inexorável, é também célere na região, porque jamais em sua história a indústria local vivenciou tantas transformações, justamente por estar na linha de frente da economia nacional.


Há também quem prefira não se aventurar em empreendimento, e isso os sensores do Sebrae registram permanentemente, e passam a atuar como autônomos. A pesquisa do IMES constatou que 27% da mão-de-obra empregada está nesta situação. Outros 13% estão empregados, mas não têm carteira assinada e provavelmente não contam com grande parte dos benefícios sociais previstos na legislação. Tanto os autônomos como os sem-carteira devem ser catalogados como personagens do que se convencionou chamar de processo de precarização da qualidade de vida.


Essa situação acaba refletindo-se em vários pontos, entre os quais no rebaixamento do perfil de consumo de produtos e serviços. E também na necessidade, igualmente registrada pelo IMES, de mais membros de uma família lançarem-se no mercado de trabalho.


O vazamento do emprego industrial para as áreas de serviços e de comércio também está no estudo do IMES. Na primeira pesquisa, realizada em 1984, essa escola de Terceiro Grau de São Caetano contabilizou 52,2% dos trabalhadores ocupados em indústrias, contra 11,6% do comércio e 36% dos serviços. Doze anos depois, o contraste é tão flagrante quanto preocupante para os especialistas que correlacionam salários e benefícios do emprego industrial com qualidade de vida. Agora a indústria da região registra apenas 30,6% dos trabalhadores, numa queda relativa de 71%, enquanto o comércio passou para 17,2% e os serviços para 69,4%.


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