O processo de esvaziamento econômico agrava sobremaneira o quadro social de uma região limítrofe à Capital e inserida na Região Metropolitana de São Paulo, igualmente golpeadas pela desindustrialização. Tentar jogar para debaixo do tapete as evidências do empobrecimento de grande parte das comunidades tem o mesmo significado que procurar ensinar um elefante a pilotar jet-ski. No ano passado, a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo concluiu pesquisas sobre os níveis de violência na Grande São Paulo, a região mais complexa do Estado, e constatou que três Municípios do Grande ABC estavam entre os 10 piores do ranking. O estudo, que se baseou em número de homicídios, concluiu que dobrou na Grande São Paulo o volume de assassinatos nos últimos cinco anos, ou cinco vezes mais que o aumento da população.
Isto quer dizer que o Grande ABC não tem o monopólio da violência metropolitana, mas vem avançando celeremente em direção aos primeiros postos. Tanto que só perde para Embu, miserável Município que se confunde com desmanche humano. Diadema, com 8,63 homicídios por 10 mil habitantes, e São Bernardo, com 6,25, aparecem em segundo e terceiro lugares na classificação. Mauá está em sexto com 4,85.
Diadema saltou da condição de vilarejo pegado à Capital para um amontoado urbano de 313 mil habitantes em menos de 20 anos. São Bernardo viveu processo semelhante, duas décadas antes com a chegada das montadoras, e depois assistiu passivamente o incentivo eleitoral de autoridades públicas à favelização de parte de seu território pressupostamente resguardada pela Lei de Proteção dos Mananciais. Mauá, antigo bairro de Santo André, emancipou-se político-administrativamente há décadas e, como Diadema, recebeu grandes contingentes de migrantes.
A periferização do Grande ABC foi confirmada recentemente pelo censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), relativo ao período de 1992 a 1996. A taxa acumulada de crescimento demográfico da região no período, de 8,09%, foi levemente superior à média nacional de 7%. Mas São Bernardo (16,25%), Mauá (16,23%), Ribeirão Pires (17,16%) e Rio Grande da Serra (16,29%) ultrapassaram em muito a média nacional e regional.
O declínio demográfico de São Caetano, que perdeu oito mil habitantes e acumulou taxa negativa de 6,36%, a falta de espaços de Diadema, inteiramente exaurida e com crescimento discreto de 2,58% no período, e a estabilidade de Santo André, com 1,27% de crescimento populacional nos cinco anos dos estudos, mascaram a realidade de inchaço dos Municípios. O IBGE constatou que a explosão de favelas em áreas de mananciais foi um ritual comum aos municípios, exceto a São Caetano, cujo território de apenas 15 quilômetros quadrados inteiramente ocupados e que faz divisa com a Capital é uma espécie de Primeiro Mundo em vários indicadores de qualidade de vida.
A mais emblemática caracterização do avanço da população do Grande ABC rumo à periferia é a transformação do Bairro Montanhão, em São Bernardo, em líder do ranking populacional. Até 1991, no Censo do IBGE, o Montanhão estava em sexto lugar na classificação populacional. O Censo de 1996 alçou-o ao primeiro posto, com 60.868 habitantes. Um crescimento de 60% no período. O Montanhão, nome sem charme, sem marketing, é uma espécie de pequeno Nordeste incrustado no município vice-campeão de arrecadação de impostos no Estado de São Paulo.
Novas ocupações físico-territoriais demandam mais serviços públicos de água, saneamento, transporte, educação, energia elétrica e segurança. Dar equilíbrio a esse jogo, considerando-se que os cofres públicos municipais são tratados de forma perdulária pela maioria dos administradores, vira uma brincadeira do faz-de-conta. Aí a criminalidade vira rotina.
Os números não assustam quando vistos de forma estanque. Um exemplo é o balanço de 1996 do Comando Geral da Polícia Militar no Grande ABC. Os homicídios evoluíram de 764 para 870 ocorrências. Um crescimento de 12,18% no período. Entretanto, basta estabelecer parâmetro com a complexa Nova York, que tem metade da população formada por imigrantes e grande parte representante de negros, para que se observe a gravidade do quadro. Com população 3,5 vezes maior que o Grande ABC, Nova York registrou 985 homicídios no ano passado. Bem menos que os 2.245 registrados em 1990, antes que se iniciasse uma operação comandada por William Bratton, então chefe da polícia e hoje disputadíssimo consultor na área de segurança pública.
O relatório da Polícia Militar do Grande ABC que identifica o crescimento do número de homicídios abranda a incidência de roubos. O documento trata de esclarecer o que poderia ser contraditório. Os criminosos estariam se dedicando mais ao tráfico de entorpecentes e menos a ameaçar o patrimônio alheio. Resultado: as mortes de integrantes de quadrilhas são mais constantes, na luta pelos pontos de drogas, especialmente da periferia. Chacinas, antes episódicas, já ganham certa constância. E não escolhem data. O ano começou com um morto e 10 feridos em Diadema, durante um pagode que reunia 300 pessoas. Para o delegado Marcos Dario, o assassinato foi um simples acerto de contas entre bandidos.
Não é difícil entender porque se mata tanto no Grande ABC. O presidente da subseção da OAB, Ordem dos Advogados do Brasil, de Santo André, Antonio Carlos Cedenho, coordenador do movimento Reage Grande ABC, lista de bate-pronto as deficiências de quadros das polícias Civil e Militar, as sofríveis condições do sistema penitenciário, a morosidade do Judiciário e a inadequação do Código Penal à realidade criminal do País como pontos-base. Só faltou referir-se ao quadro econômico.
O movimento Reage Grande ABC é sintomático da preocupação da sociedade com o esmigalhamento dos níveis de segurança. É formado por entidades civis e autoridades da área de segurança pública. O alarme da banalização de crimes foi a senha que deflagrou o movimento em setembro do ano passado, sob o lema Desarme-se. Sua vida vale mais que um revólver.
O lançamento do Reage Grande ABC reuniu 96 entidades no auditório da Faculdade de Filosofia da Fundação Santo André e é uma espécie de irmão de sangue de um outro movimento, o Fórum da Cidadania do Grande ABC, lançado dois anos antes e voltado para questões político-administrativas dos Municípios locais. Tanto um quanto outro revela nova face do Grande ABC, voltada para a participação comunitária. Tudo indica que os resultados na área de segurança ocorrerão mais vagarosamente, porque o Grande ABC tem efetivo muito aquém do mínimo recomendado pela Organização das Nações Unidas, de um policial para cada grupo de 250 habitantes, não de um para cada 950.
Mas a comunidade parece não se acomodar mais. Está na rua, em forma de faixas, cartazes e outdoor, a campanha Desarme-se, cujo tom é quase um apelo ao desarmamento. O slogan Sua Vida Vale mais que um Revólver é uma mensagem forte. Tanto quanto o agravamento dos indicadores de criminalidade.
Total de 520 matérias | Página 1
18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL