Regionalidade

Competência não se
restringe às grandes

DANIEL LIMA E MALU MARCOCCIA - 05/03/1997

As montadoras de veículos são o pedaço mais visível e mais esmiuçado da economia do Grande ABC, além de as principais responsáveis pelas receitas tributárias diretas e indiretas, mas não são as únicas manifestações concretas de progresso só abalado nos últimos 15, 20 anos. Se as perdas econômicas da região já não são contestadas sem que se coloque em dúvida a sanidade mental do interlocutor, isto não significa dizer que a região está definitivamente entregue à sorte e não possa reagir.


Há exemplos de sobra que comprovam a capacidade de inspiração, transpiração e adaptação dos empreendedores, cujos negócios se multiplicam e cujas iniciativas tornam-se paradigmas. Identidades jurídicas pouco ou nada conhecidas no cenário estadual e nacional ajudam a erguer barricadas de resistência e de competitividade econômica do Grande ABC.


O sucesso da Casas Bahia, a mais poderosa rede varejista do País, ultrapassou as fronteiras da região. Da mesma forma a Cofap, que se tornou multinacional, e o Uemura, que alargou os muros para a Capital e Interior. O Grande ABC tem dezenas de nomes reluzentes, casos de Alcan, Kolynos, TRW, Tintas Coral, Panex, Glasurit, Nakata, Philips e tantos outros. Mas o Estado de São Paulo e o Brasil praticamente desconhecem as empresas domésticas do Grande ABC. Aliás, o próprio Grande ABC conhece muito pouco suas organizações. Há exemplos em profusão que comprovam haver vida empresarial na região, além das colossais montadoras e da constelação de organizações reconhecidas muitas vezes pelo simples exibir do logotipo.


A Cooperhodia, maior cooperativa de consumo da América Latina, dona de 10 lojas, nove das quais no Grande ABC, é um bom exemplo. A empresa, atirada na arena de um dos setores mais disputados do mercado, cujos principais concorrentes se dividem entre grandes empresas nacionais e grupos multinacionais, está digerindo transformações estruturais que incluíram, só no ano passado, 38 mil horas de treinamento para o quadro de 2,8 mil funcionários. A Cooperhodia tem 500 mil associados com carteirinha e deve faturar este ano R$ 450 milhões, montante que deverá significar o 13º lugar no ranking nacional dos supermercados.


Com 42 anos de atividades, é uma espécie de patrimônio regional, depois de ter surgido dentro das unidades da Rhodia em Santo André para atender exclusivamente funcionários e dependentes dessa multinacional instalada desde o começo do século na região. “Há uma intimidade entre a Cooperhodia e seus associados que a distingue do varejo convencional” — afirma o presidente Antonio José Monte. Ele quer dizer com isso que a origem da organização, de facilitar a vida do consumidor-trabalhador, permanece intocada, mesmo depois da abertura à comunidade.


Um outro grupo, também do setor comercial e genuinamente regional, é a Casa do Escapamento, que ainda não completou 10 anos de atividades e conta com 15 lojas espalhadas pelo Grande ABC, todas controladas por Carlos Bastos Coimbra, de 43 anos. O Grupo conta com 158 funcionários e é a maior rede regional de serviços de suspensão e escapamentos. Sintonizado com a modernização das relações entre capital e trabalho, insumo belicoso na região, a Casa do Escapamento tornou-se aliada dos funcionários através, entre outras decisões, de política de participação nos resultados introduzida muito antes da Medida Provisória do governo federal.


A Esportiva é outra rede varejista que comprova a mobilidade social no Grande ABC. Líder na área de material esportivo e comandada pela família Alves Duarte, de origem modesta, a rede A Esportiva foi criada há 35 anos e conta com nove lojas, seis das quais na região. São 150 funcionários e permanente preocupação com atualização. Feiras internacionais sempre contam com um representante da direção. Espécie de supermercado esportivo, a rede não se deixou levar pela segmentação de materiais que vicejou no mercado. A especialização num determinado segmento não assegura as vantagens da rentabilidade proporcionada pela multiplicidade de itens. Pelo menos por enquanto, garantem os irmãos Silvio Luiz, Luiz Carlos e Paulo Rogério, acompanhados do pai, Silvio Alves, que comandam o empreendimento.


Já o Grupo Lambais, sediado em São Caetano, cresce com a terceirização dentro e fora do Grande ABC. Fundado há 12 anos por Celso Antonio Lambais, o Grupo começou com as atividades da Manserv, especializada em manutenção e instalação industrial. Depois vieram a LSI para atender ao mercado de limpeza industrial e comercial, mão-de-obra e transporte, e a KLL, que constrói e reforma prédios industriais e comerciais. O Grupo Lambais conta com 2,4 mil funcionários e o faturamento só depende 15% do Grande ABC. Enfim, é uma empresa regional cujas ramificações atingem vários Estados. Celso Lambais explica um dos segredos do crescimento: “Diminuímos o grau de dependência do setor estatal”. A Petrobrás já representou 80% das receitas. Agora só 25%.


O Colégio Singular também é exemplo de sucesso empresarial no Grande ABC. Em 30 anos de atividades multiplicou por 10 o número de endereços e conta com mais de cinco mil alunos. É referência obrigatória na área cultural, interligando-a à educação de forma pedagógica. A área de teatro é destaque, com cursos de iniciação e de complementação em artes cênicas. No ano passado, 17.600 pessoas assistiram espetáculos de teatro e de cinema, seguidos de debates. “Reconhecidamente o Poder Público não tem mais condições de garantir o sucesso da cultura da cidade; então, as organizações privadas é que devem arregaçar a manga” — sentencia o professor Alexandre Takara, diretor do Centro de Cultura, Lazer e Esportes da organização.


Como o Estado, em suas várias esferas, também vai mal das pernas no setor educacional, as soluções acabam aparecendo na livre-iniciativa. O Projeto Escola Termomecânica é outro bom exemplo. A primeira leva de estudantes que vivenciam sistema de ensino inusitado no País deverá estar no mercado de trabalho dentro de dois anos, quando se encerrará o ciclo da primeira turma da Fundação Salvador Arena. Nessa escola gratuita, o ano letivo tem 251 dias, e não 180 do calendário escolar tradicional. A carga diária é de oito horas, intercaladas com lanches e almoço. Folgas, só aos domingos.Desde o pré, os pequenos se familiarizam com agricultura, cerâmica, princípios de química e física e inglês. São 642 alunos, 116 dos quais do sexo feminino. As 80 vagas disponíveis no ano passado foram disputadas por 3,5 mil concorrentes. Comandante da melhor empresa do setor de siderurgia e metalurgia do ranking das Melhores e Maiores da Revista Exame, o polêmico Salvador Arena investe R$ 4 milhões por ano. Cada aluno custa à Fundação cerca de US$ 3.600 por ano, contra US$ 260 que o governo federal reserva a cada estudante no País.


Também na saúde o Grande ABC proporciona muitos exemplos de sensibilidade. A Casa da Esperança é uma instituição médico-filantrópica de Santo André que trata acidentados e doentes congênitos com abordagem multidisciplinar de psicólogos, fonoaudiólogos, fisioterapeutas, entre outras especialidades. A organização tem investido em tecnologia graças à sintonia administrativa que contempla a cobrança de serviços de um lado e atendimento gratuito a carentes de outro. É a junção do profissionalismo com o voluntarismo que surgiu em 1954 no Rotary Clube e hoje é comandada pelo executivo Antonio Bueno da Silva.


Algo parecido com o histórico da Avape, também com sede em Santo André, mas que surgiu no início dos anos 80 nos interiores da Volkswagen, em São Bernardo, para oferecer aos portadores de deficiência atendimento clínico e preparo profissional que o Estado falimentar já na ocasião negava. A Avape, dirigida igualmente por um educativo profissional, Marcos Antonio Gonçalves, esmera-se tanto em organização que no ano passado recebeu o Certificado ISO 9000, inédito no setor assistencial. A terceirização de mão-de-obra de deficientes ou não é uma de suas principais fontes de receitas.


Outra instituição voltada à área assistencial é a Comunidade Terapêutica Bezerra de Menezes, em São Bernardo. Depois de 28 anos de atividades, contabiliza 65 mil pessoas atendidas graças à sustentação de convênios com 108 empresas, que lhe conferem condição de hospital extraclasse no tratamento de portadores de transtornos mentais e de dependentes químicos.


O Bezerra de Menezes coleciona portfólio de clientes em que desfilam desde multinacionais até organismos públicos. Os 130 leitos estão sistematicamente ocupados. Um grupo de 145 profissionais integra o quadro de funcionários. O presidente Cláudio Lopes pinta com cores amenas a realidade que envolve o Bezerra de Menezes e as empresas conveniadas. “Globalização com humanização no relacionamento entre empresas e funcionários é a regra que temos observado junto aos clientes” — afirma.


Até no trânsito a iniciativa privada faz escola no Grande ABC. A Associação Comercial e Industrial de São Caetano já repassou para dezenas de municípios brasileiros o know-how acumulado durante 13 anos na administração da Zona Azul. Concessão da Prefeitura, a Zona Azul é autosustentável e até se dá ao luxo de reforçar equipamentos, viaturas e salários da Polícia Militar e também do Departamento de Trânsito e Vias Públicas da Prefeitura.


O controle da Zona Azul abrange três dezenas de ruas centrais e de bairros que têm atividade comercial e de serviços significativa. A Zona Azul de São Caetano funciona bem, é mais barata que a da Capital e que os estacionamentos particulares. E preenche exatamente as necessidades do Município de apenas 15 quilômetros quadrados de território, algo semelhante a toda a área do Aeroporto de Cumbica em São Paulo. São Caetano detém a maior densidade demográfica do País e, proporcionalmente, conta com a maior frota de veículos da Grande São Paulo.


A modernização do parque industrial do Grande ABC corta empregos em grandes proporções, mas também gera oportunidades de negócios. Caso da Sea do Brasil, síntese de indústria de Primeiro Mundo que se instalou recentemente em São Bernardo num galpão de 2,5 mil metros quadrados. A Sea do Brasil reúne número enxutíssimo de funcionários, todos altamente especializados, a tecnologia dos produtos é de ponta, o sistema de terceirização da produção é intensivamente utilizado e a parceria com fornecedores e clientes tornou-se rotina. Com o engenheiro eletrônico João Carlos Mota à frente, a Sea atua em duas divisões igualmente promissoras: robótica em estamparia e soldagem e máquinas de soldas de última geração.


Se novos empreendedores desembarcam na região, há exemplos também de antigos que não perdem o transatlântico da modernidade. A Irmãos Chiea, indústria de peças usinadas especiais para veículos, tratores, caminhões, máquinas agrícolas e elevadores, completou 48 anos de atividades e vive o ápice da segunda geração de administradores. A empresa, sediada em São Caetano, está em fase final de implantação do ISO 9002, consequência natural do perfil do atendimento de um mercado que exige altíssimo grau de especialização. A empresa é dirigida por um grupo de familiares. O diretor-comercial é Vladimir Chiea, irmão da diretora administrativa e financeira Sandra Chiea.


José Roberto, diretor industrial, é irmão de Carlos Alberto Chiea, diretor de engenharia. A primeira dupla de irmãos é formada por filhos de Rubens Chiea e a segunda de Oswaldo Chiea, igualmente irmãos. Eles fundaram a empresa mas não participam mais do dia a dia dos negócios. Preferem dar coordenadas do conselho de administração.Outros dois irmãos, Marcelo Fornasieri, diretor industrial, e Levi Fornasieri, diretor comercial, comandam a Metalúrgica A. Pedro, autopeças de estamparia de metais fundada há 34 anos e primeira do segmento a obter o ISO 9002 pela ABS Quality Evolutions.

Colecionadora de prêmios nacionais de qualidade da Fiat, e Melhor das Melhores do Prêmio Desempenho Empresarial, a Metalúrgica A. Pedro também é, como a Irmãos Chiea, uma empresa familiar que dá certo, porque se recicla permanentemente. A empresa conta com 270 funcionários e devido a exiguidade de espaços em São Caetano, está subdividida em três unidades próximas, mas mantém-se afinadíssima nas decisões estratégicas. Marcelo e Levi representam a terceira geração dos Fornasieri à frente da empresa fundada pelo avô Alberto Pedro.


A Fábrica de Artefatos Metalúrgicos Itá, a Fami-Itá, tem de atividades praticamente a soma da experiência dos Chiea e dos Fornasieri. São 82 anos de fundação por Romeu Masini, imigrante italiano bisavô de William Pesinato e tataravô de Alexandre Nardi, que comandam a empresa atualmente. A Fami-Itá também tem sede em São Caetano e parentesco só na direção, porque entre os 50 funcionários nenhum tem identidade com a família do fundador e suas ramificações. Os produtos são em grande parte de estamparia de artigos médicos, hospitalares e odontológicos, como estojos para esterilização, tambores, comadres, papagaios e cubas em aço inoxidável.


Leia mais matérias desta seção: Regionalidade

Total de 520 matérias | Página 1

18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL
16/02/2026 CLUBE DOS PREFEITOS PERDIDOS NO TEMPO
11/02/2026 TEMOS O PIOR CLUBE DOS PREFEITOS DA HISTÓRIA
28/01/2026 DIVISIONISMO REGIONAL FRUSTRA A SOCIEDADE
21/01/2026 VÁRZEA VALE MAIS QUE MONTADORAS
14/01/2026 ESPARADRAPOS INSTITUCIONAIS
07/01/2026 DO CONTO DE FADAS AO CONTO DO VIGÁRIO
16/12/2025 UM OSCAR DE PATETICE PARA GATOS PINGADOS
15/08/2025 PF ACABA COM A FARRA DO CLUBE DOS PREFEITOS
31/07/2025 AZEDA A RELAÇÃO ENTRE MARCELO LIMA E TARCÍSIO
24/07/2025 CAPITAL É BARRADA DO BAILE REGIONAL?
11/07/2025 MENOS BRASÍLIA E MAIS GRANDE ABC
02/07/2025 GATA BORRALHEIRA E OS SETE ANÕES
03/06/2025 CLUBE DOS PREFEITOS COM TRIPLO COMANDO
25/04/2025 ENTENDA AS TRÊS MAIORES AMEAÇAS AO GRANDE ABC
24/04/2025 GRANDES INDÚSTRIAS CONSAGRAM PROPOSTA
01/04/2025 O QUE TITE SENTE COMO FILHO DE SEPARATISTA?
21/03/2025 CLUBE DOS PREFEITOS: FORTUNA OU MIXARIA?
17/03/2025 UM CALHAMBEQUE SEM COMBUSTÍVEL