O trabalho da Câmara Regional do Grande ABC está sendo muito divulgado. Porém, existe expectativa exagerada sobre o que está sendo feito e que vai produzir dois resultados diferentes. Um deles é frustrante, porque a sociedade fica na espera de resultados a curto prazo. E isso parece que não vai acontecer por falta de recurso e por não termos discutido relacionamento. Essas diferenças impedirão resultado efetivo de curto prazo.
Depois, será muito natural que num primeiro momento um conjunto de propostas seja genérico, que não tenha muito de concreto. Foram usadas no documento final expressões do tipo articular para... e não colocações concretas como: fazer, executar tal coisa... As propostas são um pouco tímidas. Tenho a impressão de que desse ponto de vista o resultado será frustrante.
Há, porém, algo mais importante do que o resultado concreto de curto prazo. É que aprendemos com isto a trabalhar juntos, a pensar juntos, a envolver os segmentos da sociedade que tiveram oportunidade de escolher os temas em que irão se envolver sem que tenham sido direcionados. Como na Fazenda Modelo do Chico Buarque.
Se num certo momento será frustrante, num outro vai se perceber que esse foi um grande aprendizado. E aí é muito provável que a própria Câmara se modifique no sentido de (já que agora a gente sabe trabalhar junto, que a gente aprendeu como levantar problemas e como discutir as questões que afetam praticamente todo mundo) identificar qual é o mecanismo para se concretizar em as coisas. Existe uma certa tendência de que o Consórcio e a Câmara venham a se tornar quase uma ONU para o Grande ABC. Que a Administração Pública seja quase que única. É o que já existe para a população e que seria muito mais interessante em termos de peso político e de pressão junto ao governo do Estado.
Haverá questões que deverão ser de decisão da maioria e outras que dirão respeito à minoria. Por exemplo: quando se falar de emprego, saúde, daquilo que é social, será um problema da maioria. Quando for tratar de temas que sejam do industrial, do comerciante, da educação, necessariamente serão as minorias que cuidarão disso, dentro dos limites que as afetarem. Quando esses assuntos começarem a afetar a sociedade como um todo, voltarão para a maioria, que passará a debatê-los.
A experiência de Fóruns e Câmaras nunca vamos deixar de ter. Muito pelo contrário, vamos ampliar esse tipo de coisa. E com isso, tranquilamente, a Administração Pública centralizada perde poder. Os prefeitos perderão o poder de decidir tudo sozinhos. Vão ter que gerenciar junto com a sociedade, constituída de grupos minoritários com interesses diferenciados e que, vez por outra, se juntam para tratar de assuntos da maioria. Então, a saudabilidade dessas relações vai estar na articulação entre esses grupos. No futuro, movimentos como a Câmara é que vão governar as atividades comuns do Grande ABC. Esse é o resultado do aprendizado que estamos tendo. Não o de curto prazo que muita gente está esperando.
As grandes desavenças políticas que poderiam surgir estariam calçadas no medo que todos os sete prefeitos têm de que o Grande ABC venha a possuir uma Prefeitura só, o que é impossível. Mas não só os prefeitos têm medo - o Tortorello principalmente. O governo do Estado tem medo e a Prefeitura de São Paulo tem medo. Medo de que a gente se torne um monstro isolado, incontrolável. Ou melhor: uma Medusa de sete cabeças.
É possível, porém, ter sete administrações - cada uma pra seu Município - e um Fórum de Debates de coisas comuns ou de relevância maior que ultrapassem as fronteiras dos Municípios. Não vamos ter saída. Vamos ter que fazer isso. Não é questão de vontade política e sim porque é fundamental. Terá que ser assim porque a sociedade vai conspirar para que seja assim.
Podem surgir idéias para ampliar este tipo de visão organizativa. Por exemplo: a partir do momento em que se identificar em com clareza as questões domésticas de cada Município, as de interesses comuns da região a ONU cuidaria. Vamos fazer um contraponto com modelos políticos vigentes. Não precisará que nenhum Município de forma isolada brigue para ter representatividade na Assembléia Legislativa do Estado. Basta que as boas forças políticas do Grande ABC sejam conduzidas à Assembléia Legislativa do Estado e lá vão defender os interesses da região. Porque para defender os interesses das cidades teremos os vereadores, que tomarão decisões para o Município, porém dentro de um pano de fundo de interesse regional. Em existindo esse tipo de organização, a representatividade passa a ser da região.
Quando estamos falando de uma ONU para o Grande ABC, estamos falando de gerenciamento participativo de cidade. E gerenciamento participativo, por natureza, implica numa dinâmica da organização. As lideranças são dinâmicas num sistema livre. Não vamos ter sempre as mesmas organizações. Esse movimento do Grande ABC vai nos levar a fazer a história como no passado. Tudo vai ser visto numa ótica mais moderna. Numa ONU os prefeitos poderão ser de qualquer partido político, porque as ideologias não terão sentido. Vamos construir valores próprios.
Alguém há de lembrar lá na frente que toda essa transformação começou de uma primeira ação integrada, chamada Fórum da Cidadania.
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09/04/2026 SERÁ QUE FINALMENTE ESTAMOS DESPERTANDO?