O Grande ABC tem de se preocupar mais com a qualidade de vida, sobretudo com melhor aproveitamento das riquezas naturais, para estimular o desenvolvimento econômico. Essa foi uma das mensagens deixadas no mês passado pelo economista francês Alain Lipietz, um dos fundadores da Teoria da Regulação e militante do Partido Verde francês. Alain passou quatro dias em Santo André contratado pela Prefeitura e inserido no programa de consultores internacionais que têm visitado o Município.
O francês manteve contatos com empresários, executivos públicos e Imprensa sem se deixar apertar no idioma. Com sotaque francês, ele se utilizou de portunhol suficientemente claro para explicar suas posições. Mostrou-se bem informado sobre o Grande ABC do presente, assessorado pela equipe do prefeito Celso Daniel, que o abasteceu de notícias e artigos publicados na mídia impressa regional.
Ao fazer a defesa de melhor aproveitamento do acervo ambiental do Grande ABC, sobretudo o cinturão da região dos mananciais da Represa Billings e da Mata Atlântica, Alain Lipietz não caiu no lugar comum de muitos ambientalistas locais que incompatibilizam qualidade de vida e desenvolvimento econômico. O francês entende que o Grande ABC deve utilizar as reservas ambientais como marketing para atrair empresas de alta tecnologia e profissionais qualificados que valorizam condições favoráveis de moradia e entretenimento.
Formado em engenharia na Escola Polytécnica de Paris, com pós-graduação em economia, Lipietz é professor da École Nationale de Ponts e Chausses e diretor de pesquisas no Cepremap (Centro de Estudos Prospectivos de Economia e Matemática Aplicada ao Planejamento). Ele faz parte do Conselho de Análise Econômica do primeiro-ministro francês Lionel Jospin e já foi eleito vereador e deputado da região de Paris. Lipietz definiu a globalização como guerra econômica que tem na educação componente decisivo, alertando sobre a necessidade de investimentos na área. "O Brasil perde pontos a cada dia para a Ásia" -- comparou.
Independência -- Bem informado sobre a estrutura institucional do Grande ABC, que tem no Fórum da Cidadania, no Consórcio Intermunicipal e na Câmara Regional organizações complementares que reúnem autoridades públicas, capital, trabalho e comunidade, Lipietz afirmou que o melhor para a região é buscar alternativas locais de desenvolvimento, independente da Federação e do Estado. Mas reconheceu que há pedras no caminho de um País tradicionalmente de comando estratégico centralizador. Tanto que sugeriu empenho regional para o fim do monopólio do abastecimento do Pólo Petroquímico de Capuava, cujo desempenho depende da Petrobrás. "Como na região de Paris, onde a indústria petroquímica avançou para áreas mais nobres, casos da química fina, farmácia e biotecnologia, vocês têm de pensar nesse tipo de evolução" -- declarou.
Alain Lipietz mostrou-se preocupado também com o inchaço das regiões metropolitanas, fenômeno mundial que refluiu no Primeiro Mundo com políticas econômicas descentralizadoras. Ele considera vital para reduzir o ônus social do desemprego industrial de mão-de-obra menos qualificada que atinge o Grande ABC a introdução de reforma agrária em âmbito nacional, capaz de reverter o fluxo migratório em direção ao campo.
O professor francês bateu na mesma tecla do urbanista catalão Jordi Borja e do espanhol Andrés Rodríguez-Pose, especialista em Geografia Econômica e diretor da London School of Economics & Politic Sciense, que o antecederam no projeto Santo André Cidade Futuro: a conjunção entre Poder Público, empresários, sindicalistas e representações educacionais é a massa crítica de que o Grande ABC poderá se valer para reestruturar-se economicamente e reagir politicamente.
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18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL