Regionalidade

Água industrial já
não causa disputa

DANIEL LIMA - 05/05/1998

A Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) recuou na tentativa de abastecer o Grande ABC com água industrial sem participação dos serviços municipais do setor. A solução para reduzir esse importante item do chamado Custo ABC caminha para a construção de uma estação de reuso de água que atenda inicialmente o corredor da Avenida dos Estados até Mauá. Num primeiro momento, essa alternativa atenderia prioritariamente ao Pólo Petroquímico de Capuava, que mais se ressente da escassez e do custo da água potável distribuída pelo Semasa e Sama, autarquias municipais do setor desses dois Municípios que abrigam o conjunto de indústrias processadoras de derivados de petróleo. 


Ainda há série de alternativas para a questão, mas tudo indica que a construção de uma estação de tratamento de efluentes ligada à ETE-ABC (Estação de Tratamento de Esgotos do ABC) ganhará a preferência. A repercussão do anúncio do vice-presidente operacional, Orlando Cassetari, feito há dois meses em LivreMercado, levou a Sabesp repensar a sugerida desintermediação. Houve mobilização de todos os serviços municipais de água e saneamento do Grande ABC contra o que entendem ser invasão territorial e gerencial da estatal paulista.


A ERA (Estação de Reúso de Água) nos moldes em que foi planejada está completamente descartada. Maurício Mindrisz, superintendente do Semasa, é enfático ao afirmar que a autarquia de Santo André isoladamente não reúne recursos financeiros para a obra, como pretendia seu antecessor no cargo, o engenheiro Ajan Marques de Oliveira. O investimento caberá à iniciativa privada por meio de participação consorciada com as duas autarquias municipais e empresas do Pólo de Capuava.


Um documento sucinto assinado por representantes do Semasa, da Sama, por executivos da Sabesp e do Pólo de Capuava resume as perspectivas de substituição da água potável por água industrial em diversos processos produtivos. O mesmo documento, resultado de reunião do Grupo de Trabalho do Pólo Petroquímico da Câmara Regional do Grande ABC realizada na sede do Consórcio Intermunicipal, definiu a formação de grupo multilateral para equacionar a questão. Participam membros dos três segmentos interessados -- Poder Público municipal, Poder Público estadual e empresas. 


Para que a estação de tratamento se consolide e gere água industrial é preciso, entre várias ponderáveis, que haja definição de garantias relativas à quantidade e à qualidade do efluente a ser provavelmente disponibilizado pela Sabesp. A matéria-prima da água industrial deve ser o efluente da ETE-ABC (Estação de Tratamento de Esgotos) que a Sabesp vai inaugurar ainda este ano na divisa entre São Caetano e o Bairro de Heliópolis, em São Paulo. Inicialmente, segundo projeto da Sabesp, a ETE-ABC acoplaria unidade complementar de produção de água industrial, para posterior distribuição no Grande ABC. 


Custo baixo -- Água industrial é assunto tão inédito quando complicado. Mas os efeitos práticos são compensadores. A expectativa é de que o custo do metro cúbico de água desabe na mesma proporção do avanço da disponibilidade, escassa no Pólo de Capuava. O Custo ABC no abastecimento de água potável às indústrias é fator de desequilíbrio na planilha de despesas das empresas. A Petroquímica União, maior consumidora do Pólo de Capuava, é exemplo emblemático: a diferença entre seus custos com água e os das outras duas centrais petroquímicas do País -- Bahia e Rio Grande do Sul -- equivale a cinco folhas de pagamento dos 600 funcionários, de R$ 2 milhões mensais, ou seja, R$ 10 milhões/ano. O metro cúbico de água potável na região custa entre R$ 4,60 e R$ 4,80, contra R$ 0,50 nos outros dois pólos petroquímicos.


A introdução de água economicamente mais interessante para usuários industriais em relação à água potável deverá provocar mudanças na estrutura de preços dos serviços públicos municipais de Santo André e Mauá, sob pena de perda substantiva de receitas. Afinal, indiretamente o custo do metro cúbico da água potável que é hoje distribuída às empresas acaba por subsidiar a população em geral, em escalas diferenciadas. Trata-se de espécie de política robinhoodiana de favorecer consumidores residenciais fortemente carentes ou não. Uma política tarifária tão antiga que deverá provocar ruídos quando o rompimento se tornar economicamente indispensável para garantir o equilíbrio funcional das companhias e departamentos municipais responsáveis pelo setor.  


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