Regionalidade

Realidade não tem limites
para os sonhadores

VERA GUAZZELLI - 05/02/2000

The dream is over. A célebre frase com a qual John Lennon sintetizou o fim da banda The Beatles não integra o manual de procedimentos de funcionários e executivos da Fundação Abraham Kasinski. A entidade fundada em 1993 funciona à imagem e semelhança de seu presidente e pode ser considerada a usina de sonhos do atual comandante da montadora de motos Cofave (Companhia Fabricadora de Veículos) e ex-presidente da Cofap, Abraham Kasinski. O recém-inaugurado Parque Florestal Quedas do Rio Bonito, em Lavras, Minas Gerais, é o mais novo empreendimento que leva a grife de ousadia da Fundação. Juntamente com o Colégio Barão de Mauá e o CTPB (Centro Técnico de Pesquisas Biológicas), em Mauá, engrossa a lista de projetos que ganharam vida pelas mãos de profissionais contaminados com o vírus do desafio. Desafio que finalmente vai tirar do papel a Universidade do Trabalhador, após sete anos de tentativas e trapalhadas do Poder Público. 

Se dependesse exclusivamente da Fundação, a Universidade do Trabalhador já estaria em funcionamento.  A intenção de Kasinski não mudou desde 1993, quando o projeto foi concebido. Também é a mesma a determinação de formar tecnólogos para suprir lacuna na mão-de-obra industrial, onde a demanda por bacharéis e doutores há muito foi suplantada por técnicos especializados. E está cada vez mais fortalecida diante das dificuldades e exigências do mercado de trabalho, que despreza a falta de formação especializada e exige capacitação constante. Continuam valendo os cursos de Química Fina, Eletromecânica, Práticas Comerciais e Secretariado Executivo protocolados desde 1996 no Conselho Estadual de Educação. Também estão de pé as 450 vagas, os horários de revezamento para atender o aluno-trabalhador em três turnos e o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento para oferecer serviços às empresas da região. 

O que mudou durante quase uma década de tentativas de viabilizar o centro acadêmico foi a localização. A Universidade do Trabalhador esbarrou na falta de área. Por isso, tornou-se nômade antes mesmo de ser edificada. O projeto virou refém de sucessivas e jamais concretizadas promessas de doação de área por parte da Prefeitura de Mauá. Agora que a Fundação decidiu construir a Universidade do Trabalhador em terreno próprio, o projeto arquitetônico está sendo refeito pela terceira vez. Somente após a conclusão será possível estipular o valor da obra, o tempo necessário para execução e o investimento desperdiçado nos dois projetos inutilizados. A expectativa é estar iniciando projeto e obras nos próximos dois anos.  "Foi necessário refazer o trabalho por causa das diferenças topográficas dos terrenos" -- explica o diretor Antonio Roberto Adabo. 

A primeira área prometida pela Prefeitura de Mauá à Fundação Abraham Kasinski pertence ao INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) e não foi possível viabilizar a liberação do imóvel. Também foi por terra a proposta de construir a Universidade do Trabalhador no Parque do Guapituba, área pública do Município. O Executivo recuou da intenção de doar parte da área de 450 mil metros quadrados diante da oposição dos ecologistas. Como não proliferou o debate público sobre o assunto, as partes envolvidas acabaram por desconhecer detalhes do rico projeto de preservação ambiental e a possibilidade de a comunidade utilizar quadras e áreas esportivas do campus nos finais de semana. A Prefeitura ainda tentou oferecer outra área no Pólo Industrial do Sertãozinho, mas a dificuldade de acesso, principalmente para alunos do período noturno, desestimulou a Fundação. 

A Universidade do Trabalhador vai ocupar parte dos 140 mil metros quadrados do Centro Técnico de Pesquisas Biológicas, em Mauá. É outra área ecológica, mas pertence à Fundação, que ironicamente vai provar duas coisas assim que colocar a Universidade do Trabalhador para funcionar: primeiro, que idealiza projetos para serem concretizados; segundo, que o mundo acadêmico e a natureza podem viver harmonicamente. 

"Quem imaginou que iríamos degradar um centímetro da mata do Guapituba devia conhecer o que fizemos em Lavras" -- desafia o comandante Abraham Kasinski. O presidente da Fundação se refere ao recém-inaugurado Parque Florestal Quedas do Rio Bonito, na cidade mineira de Lavras. A instituição investiu cerca de US$ 5 milhões em cinco anos para reflorestar 250 hectares, construir trilhas, sanitários, vestiários, quiosques, quadras poliesportivas, estacionamento e teatro de arena, entre outras melhorias. 

A infra-estrutura ocupa apenas 10% da área e acomoda com conforto duas mil pessoas diariamente. Para preservar o restante do parque a Fundação firmou convênio com a Universidade Federal de Lavras e o Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais. Sob orientação de técnicos das duas instituições, a mata nativa foi revegetada com 200 mil árvores adquiridas e plantadas pela Fundação, que devolveu ao local o habitat natural do ano de 1800. 

Também em Lavras houve problemas com ecologistas. Ao contrário do que reza a tradição mineira, eles não trabalharam em silêncio. A Câmara Municipal ficou lotada de manifestantes no dia que o projeto de doação da área para a Fundação monopolizou a ordem do dia. Mas o apelo ecológico do projeto convenceu. O peculiar é que a Fundação nunca solicitou a área mineira. Como a Cofap possuía unidade de amortecedores na cidade, o prefeito resolveu homenagear o empreendedor e batizou o parque com o nome de Abraham Kasinski. Em contrapartida, sugeriu que o empresário zelasse pela área. O pedido foi mais do que atendido: entre outros benefícios, a reestruturação do local, situado a apenas nove quilômetros do Centro de Lavras, valorizou os imóveis do entorno e impulsionou o turismo local. O ingresso pago pelos visitantes destina-se exclusivamente à manutenção. 

A vocação ambiental da Fundação encontra respaldo no empreendedorismo de Abraham Kasinski. O ex-dirigente da Cofap há muito transformou a paixão por orquídeas em negócio. No Centro Técnico de Pesquisas Biológicas estão 100 mil mudas da planta. A produção de espécies tropicais atende aos mercados interno e externo de feiras, colecionadores e atacadistas. Há também cultivo de orquídeas de outras partes do mundo. Essas esculturas da natureza, algumas cuja raridade leva-as a custar R$ 5 mil, viverão em harmonia não apenas com os futuros universitários, mas também com alunos do Colégio Barão de Mauá, braço educacional da Fundação. As atividades extra-curriculares no CTPB serão intensificadas durante o atual ano letivo para que crianças e jovens criem vínculo estreito com a natureza.  


Barão e referência -- É por meio do Colégio Barão de Mauá que a Fundação Abraham Kasinski colhe os resultados mais palpáveis de suas atividades. A escola de 1,5 mil alunos e índice de evasão zero em 1999 recebeu injeção de recursos de US$ 1,5 milhão nos últimos anos. A reforma das salas de aula e dos laboratórios de língua e informática deu a largada na reestruturação das dependências. Parque aquático, piscinas semi-olímpicas, novos prédios de salas de aula e da Educação Infantil complementam o projeto de ampliação.  Se ainda é mantida sob sigilo a data para a conclusão das obras, o histórico da entidade não deixa dúvidas de que serão executadas.

Bonito por fora, estruturado por dentro. A melhoria física do Barão não é a única responsável pelo aumento de 30% na procura por vagas em relação ao ano passado. A preocupação humanística movimenta espectro pouco visível a olho nu, mas que dá frutos a médio e longo prazos. Todos os professores contam com nível universitário e tiveram recentemente os salários alinhados com os das principais escolas da região. Com auxílio da equipe multidisciplinar, alunos e pais participam de programas pedagógicos que enfocam cidadania e mercado de trabalho. 

O Programa Convivendo e Aprendendo alcançou 80% de resultado positivo na detecção de distúrbios de aprendizagem provocados por problemas extra-pedagógicos. A atividade orienta os pais para melhorar a qualidade de relacionamento com os filhos e a tratar com segurança assuntos embaraçosos como desemprego, separação, alcoolismo, doenças na família e drogas. 

O programa toma o cuidado de não interferir na relação familiar, mas procura mostrar que a criança compreende tudo, só que a seu jeito. "Não basta falar. Tem de provar, já que os princípios morais são aprendidos na infância. Bom dia, com licença e obrigado se aprendem em casa. Transferir essa responsabilidade para a escola é um equívoco" -- analisa a diretora do colégio, Aparecida Petak. Este ano a escola vai contar também com auxílio de especialistas na preparação de professores para orientação antidrogas. O trabalho de prevenção vai envolver alunos da quinta à oitava série e do Ensino Médio. 

Quanto custa tudo isso? "O preço justo que o pai pode pagar" -- garante o diretor da Fundação Roberto Adabo. Como a escola não visa lucro, a conjugação entre valor atrativo da mensalidade e qualidade de ensino fez a demanda do Barão ultrapassar fronteiras. Alunos de Santo André, Ribeirão Pires e até de São Paulo frequentam cada vez mais as salas de aula do colégio. A frota de bananas-bus, como foram apelidados pelos alunos os ônibus escolares amarelos, aumentou de três para cinco. A escola conseguiu os veículos por meio de convênio com fundação canadense e os utiliza para transportar alunos que moram nas cidades vizinhas a Mauá e em excursões. 

A Fundação é completamente transparente. As contas e os livros estão abertos. Mesmo assim, a entidade não escapou da sede de arrecadação comum às prefeituras do Grande ABC no último ano. Apesar do abrigo legal, já que é entidade pública de caráter privado e é amparada pela Constituição Federal para não pagar determinados impostos municipais, a Prefeitura de Mauá pretendeu cobrar ISS (Imposto Sobre Serviços) das atividades desenvolvidas no Município. "É preciso ficar claro que não recebemos nenhum benefício fiscal. Estamos amparados na lei, porque não somos uma empresa que distribui lucro. Somos uma Fundação que reinveste tudo na melhoria das atividades" -- esclarece Adabo. 

Enquanto amarga decepções com o mundo político, a Fundação Abraham Kasinski contabiliza dividendos de forma pouco tradicional no universo capitalista. Apesar de todas as unidades serem auto-sustentáveis, os resultados não estão necessariamente expressos em cifrões. Reflorestar um parque ecológico, produzir uma espécie rara de orquídea e colocar na faculdade 98% dos alunos formados pelo Colégio Barão de Mauá em 1998 e 1999 não têm preço. O sonho de Kasinski e de seus colaboradores nunca termina. Para alívio dos que conhecem e usufruem dos serviços da Fundação. 


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