Um dos mais brilhantes jornalistas macroeconômicos do País, Joelmir Beting provou que economia regional não é um bicho-de-sete-cabeças, ao fazer análise sobre o Grande ABC em recente palestra que lotou uma sala de cinema do Shopping ABC. Diante de público composto de lojistas, empresários, dirigentes públicos e de entidades classistas, o articulista de O Estado de São Paulo e outros 46 jornais brasileiros inseriu o esvaziamento industrial e econômico da região no contexto internacional ditado pela tendência irreversível da desmetropolização. Além de enxergar o Grande ABC pelo amplo telescópio das dinâmicas internacionais, Joelmir Beting fechou o foco de análise em problemas regionais específicos que drenam a competitividade das empresas, como o oneroso e ineficiente Porto de Santos.
O jornalista cita que o fenômeno da desmetropolização é universal e até mesmo natural, porque pessoas e empresas tendem a migrar para localidades que ofereçam mais qualidade de vida, menos custos operacionais e outros benefícios que se tornaram escassos nos grandes centros urbanos do mundo. "Não que a população esteja se mandando das metrópoles, mas a que vinha já não vem mais" -- afirma, ao citar o exemplo da Capital paulista, cujo índice de crescimento populacional está estagnado há três anos.
"As metrópoles são consideradas regiões doentes: doentes no trânsito, na água, na segurança e na qualidade do ar, e as novas empresas tendem a se instalar em regiões que ofereçam melhores condições de vida aos recursos humanos, que representam o capital mais importante das organizações na era do conhecimento" -- lembra.
No Brasil, a desmetropolização ganha impulso adicional com a guerra fiscal, por meio da qual Estados e municípios atraem organizações com vantagens tributárias e fiscais como isenção de IPTU e redução de ICMS. Joelmir Beting detecta ingredientes específicos que dão impulso ainda maior à desmetropolização do Grande ABC: a abertura comercial do início dos anos 90 expandiu sem precedentes as alternativas de suprimentos das montadoras de automóveis, que sempre rebocaram a economia regional. A instauração do global sourcing (suprimento global) a partir da queda das barreiras alfandegárias repercutiu negativamente nas autopeças locais, a maioria de origem familiar e de pequeno e médio porte, que passaram a disputar mercado com concorrentes internacionais mais preparados. Joelmir também poderia ter dito que a abertura econômica levou ao enxugamento de quadros funcionais das montadoras e autopeças -- e consequentemente ao aumento do desemprego e dos problemas sociais. Exposta à concorrência global, a indústria automobilística correu atrás da competitividade perdida e incorporou robôs e equipamentos automatizados descartadores de mão-de-obra humana.
A fragilidade operacional do vizinho Porto de Santos é apontada por Joelmir Beting como o maior calcanhar-de-Aquiles da logística de transportes do Grande ABC. "O chamado esvaziamento econômico foi incrementado pelo afundamento do Porto de Santos, que poderia estar colaborando, mas está prejudicando a região até hoje" -- afirma. Ele cita exemplos de organizações do Grande ABC para as quais é mais vantajoso exportar por meio de portos como o de Sepetiba, no Rio.
Joelmir enfatiza que a desmetropolização sempre vem acompanhada pela mudança de perfil econômico. A Capital paulista, que perdeu centenas de indústrias nos últimos anos, tornou-se o principal pólo latino-americano do turismo de negócios. "Das 170 maiores feiras brasileiras, 140 são realizadas em São Paulo" -- destaca. O jornalista lembra que a Capital tornou-se também o centro brasileiro das empresas de Internet, com mais 80 mil empregos de boa qualidade. "A Vila Olímpia é o Vale do Silício. É ali que estou montando site de análises econômicas que gerará 15 empregos, dos quais sete para jornalistas. É um mercado de trabalho que simplesmente não existia há apenas cinco anos" -- ilustra.
A ferida -- que o jornalista não apontou -- é que o Grande ABC não encontrou vocação que amenize perdas industriais. As grandes redes comercias que chegaram nos últimos anos apenas canibalizaram o pequeno comércio familiar de bairro e estão longe de ter o mesmo significado que empresas de telecomunicações representam para Campinas ou a Internet está significando para a Capital.
Total de 520 matérias | Página 1
18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL