Regionalidade

Celso ganha e o
consenso acaba

DANIEL LIMA - 05/02/2001

Morreu o consenso improdutivo no Grande ABC. Eis o principal resultado da demoradíssima reunião que manteve o prefeito Celso Daniel no comando da Agência de Desenvolvimento Econômico. Decidida sábado, 2 de fevereiro, na sede da Acisa (Associação Comercial e Industrial de Santo André), a recondução de Celso Daniel era esperada pela própria distribuição dos eleitores. Afinal, a combinação matemática dos votos dos representantes indicados pelo Consórcio Intermunicipal de Prefeitos com os dos sindicatos dos trabalhadores excluía a livre iniciativa de qualquer possibilidade prática de vencer uma disputa. O placar natural é de no mínimo 5 a 4 -- quatro votos do Consórcio e um dos sindicatos, contra o restante dos empreendedores. 

Só faltou mesmo a disputa voto a voto entre Celso Daniel e Antonio José Monte, presidente da Coop, indicado pelas associações comerciais e Ciesps e que acabou eleito diretor-adjunto. A assembléia geral que antecedeu a votação foi um divisor de águas na mais recente história institucional da região. Houve tantos ataques da livre iniciativa e tantas tentativas de valorizar o desempenho da Agência por parte de representantes governamentais e trabalhistas que não faltaram projeções de ruptura. Mas, salvo algum lance surpreendente, os empreendedores vão continuar agregados à entidade. Provavelmente mais participativos, inclusive no pagamento das mensalidades.

Herança da cultura do Fórum da Cidadania, concebido há seis anos para unir os contrários em pontos estratégicos que não apresentassem qualquer possibilidade de contraposições, o vírus da consensualidade morreu de morte matada durante o encontro na Acisa. Na realidade, morreu antes. Exatamente em dezembro, quando LivreMercado apresentou a Reportagem de Capa Devagar Quase Parando, na qual expõe o fracasso do Fórum da Cidadania, do Consórcio Intermunicipal, da Câmara Regional e da Agência de Desenvolvimento Econômico na operação de reordenamento social e econômico do Grande ABC. Reportagem no Diário do Grande ABC 10 dias antes da disputa eleitoral na Agência, relatando a insatisfação da iniciativa privada com a condução da entidade fundada há pouco mais de dois anos, completou o quadro preliminar de insurreição. O setor empresarial se deu por satisfeito momentaneamente, diante da diretoria-adjunta e da possível mudança de rota nas investigações estatísticas. 

O confronto entre empreendedores e governantes se estabeleceu basicamente por causa da performance da Agência. Representante do Ciesp e um dos principais responsáveis pela força-tarefa institucional que a região passou a montar a partir de meados dos anos 90 -- com Fórum, Agência e Câmara Regional se somando ao Consórcio de Prefeitos --, Fausto Cestari bateu forte no que chama de falta de resultados práticos. Cestari quer ver a Agência mais dinâmica, auto-suficiente financeiramente, propositiva e capaz de estabelecer indicadores setoriais sobre a realidade da região. Não quer simples dados acadêmicos, como qualificou as pesquisas da entidade. "Os projetos não atendem aos anseios da iniciativa privada" -- pontua o empresário. Resumidamente, a Agência não tem o perfil empreendedor de como foi projetada, considera Cestari. 

O prefeito Celso Daniel procurou golpear os argumentos de Fausto Cestari com a classe dos esgrimistas. Insistiu no conteúdo empreendedor da Agência sem que isso, frisou, tivesse conotação de negócio, de lucro. "A composição mista da Agência não permite que seja uma empresa ou um órgão público, mas uma mistura dos dois modelos" -- definiu o prefeito de Santo André. Celso Daniel também se opôs à proposta de auto-suficiência financeira da Agência, considerando isso impossível exatamente por não ser um empreendimento privado. Mais tarde, Fausto Cestari voltou a bater na tecla da auto-suficiência e do aspecto negocial. O que separa os dois protagonistas é emblematicamente o que distancia a Agência dos resultados efetivos: a entidade atua à imagem de seu comandante, que é um homem público, acostumado ao macroplanejamento, ao recolhimento de impostos e a todas as tarefas preferenciais de um administrador municipal, e não como instituição pragmática na ações e voltada a buscar recursos financeiros, como é a atividade do empresário Fausto Cestari. 

Houve diversas manifestações numa reunião com 40 convidados. Uma das mais instigantes partiu do espanhol Francisco Albuquerque, contratado com recursos do BID para prestar consultoria à Agência. Ele ficou surpreso com o interesse do empresariado em assumir a entidade: "Na Europa é o contrário. Eles só querem receber os recursos oficiais de bancos de fomento". Com base em experiência prática de modelos mundiais de regionalidades, Francisco Albuquerque entende que a Agência precisa atuar prioritariamente como agente de desempenho empresarial, não apenas de pesquisa. Fausto Cestari e outros empreendedores sorriram discretamente com o reforço inesperado, já que Albuquerque era convidado da Agência. 

Certo mesmo é que o organismo deverá ganhar novos rumos nos dois próximos anos de gestão de Celso Daniel. Será uma fase de preparação à administração seguinte de um representante da livre iniciativa, conforme acertado ao final da reunião. A suposta vitória empresarial no resultado da eleição não foi exatamente a subida de Antonio José Monte à diretoria-adjunta e, sim, a implosão de eventual sucessão de Celso Daniel por Vicentinho Paulo dos Santos. A manobra não foi oficialmente exposta, mas encontrou resistência dos prefeitos de São Bernardo, Maurício Soares, e de São Caetano, Luiz Tortorello. Afinal, Vicentinho está de olho no Paço de São Bernardo, depois de conseguir 35% dos votos nas últimas eleições municipais. O sindicalista ganharia vitrine invejável junto a empreendedores de que tanto precisa para aumentar sua margem de votos.  

Em nenhum momento da reunião na Acisa se colocou oficialmente a candidatura de Vicentinho. Nem mesmo após a exclusão de todos os convidados da sala, onde permaneceram apenas representantes das instituições com direito a voto. Até mesmo o anfitrião presidente da Acisa, Wilson Ambrósio da Silva, teve de deixar a sala. A blindagem do processo eleitoral da Agência não é uma decisão comprometida com a transparência de uma entidade não-governamental.  

E a Multibrás?  -- A anunciada demissão de 1.050 funcionários da Multibrás em São Bernardo, com cronograma de consumação marcado para 31 de julho, não mereceu um instante sequer de debate durante a reunião da Agência. A manifestação dos trabalhadores dois dias depois em protesto contra o fechamento da unidade foi mais um lance de pressão contra a multinacional Whirlpool Corporation, controladora mundial da empresa que produz as marcas Consul e Brastemp na região. Instalada desde 1948 em São Bernardo, a Multibrás já deixou o Grande ABC há muito tempo. Afinal, a unidade já contou com 15 mil funcionários.

Embora representantes da Multibrás tenham agido diplomaticamente e insistido no discurso de ociosidade de 40% da planta, cujas máquinas e equipamentos serão transferidos para a unidade de Joinville, os custos produtivos estão na origem da decisão. O próprio presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Luiz Marinho, admite a diferença de salário médio entre os trabalhadores da região e da cidade catarinense -- R$ 1 mil contra R$ 500. 

A decisão da norte-americana Whirlpool está conectada à irreversível globalização da economia. A corporação vai fechar duas mil vagas em todo o mundo. Nesse jogo de custos, leva desvantagem quem apresenta baixa competitividade. Tanto quanto o golpe de exclusão social que mais de mil demissões representarão num Grande ABC proletarizado nos últimos 15 anos, a decisão fere o orgulho institucional de uma região que não admite estar perdendo a guerra dos custos de produção. 

O choque é tão grande que se ensaiava no início do mês uma reação de várias organizações públicas e não-governamentais contra a Multibrás. Até o governo do Estado prometia intervir para reverter a posição da empresa, provavelmente com vantagens fiscais como já havia contemplado a Elevadores Otis, em igual situação de perda de competitividade.

Em artigo assinado na edição de domingo, 4 de fevereiro, no Diário do Grande ABC, Luiz Marinho, moderado líder dos metalúrgicos, dava a idéia do quanto o capital ainda é hostilizado pelo trabalho na região: "A Whirlpool quer apenas atender a sua gana insaciável de lucros. Decide reunir suas atividades no Brasil em Joinville com ganhos de escala e praticando o famigerado dumping social, sem nenhuma preocupação com os trabalhadores que explorou durante décadas no ABC" -- afirmou.



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