O que teria se passado com o consultor norte-americano Marc Weiss, especialista em políticas públicas e metropolização trazido à região pela Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC e que, em menos de 24 horas, mudou completamente de opinião a respeito do papel da Imprensa na análise de ações públicas e institucionais de desenvolvimento regional? Como o anunciado ex-assessor para assuntos de desenvolvimento urbano do presidente Bill Clinton pôde enaltecer o papel da Imprensa livre e independente na cobertura de assuntos públicos para -- no breve intervalo de um amanhecer -- desdizer tudo, a ponto de recomendar que dirigentes públicos e institucionais ignorem matérias e reportagens negativas, que contrariem seus interesses? Pois essa proeza de contradição intelectual foi protagonizada por Marc Weiss durante os dois dias em que permaneceu na região.
A exposição de experiências internacionais programada para a primeira parte da reunião da Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC, realizada na tarde de 20 de novembro, se transformou num banquete indigesto para a democracia e a liberdade de expressão. O que se viu foi uma sessão deliberada de linchamento à Impressa executada por Marc Weiss na medida em que era estrategicamente solicitado por alguns dos participantes sobre a função da mídia no acompanhamento de questões institucionais.
Enquanto Marc Weiss afirmava que a Imprensa norte-americana havia sido extremamente negativa na cobertura de projeto de desenvolvimento urbanístico e econômico por ele conduzido em Washington D.C, e que não se deve dar muita bola para o que a mídia supostamente negativista tem a dizer, algumas lideranças públicas do Grande ABC, incomodadas pela independência de LivreMercado, riam indisfarçavelmente. Houve até quem exercitasse o idioma do consultor para fazer comparações. "Here we have the same thing (Aqui nós temos a mesma coisa)" -- disse um dos participantes, em inglês primitivo. Questionado por uma segunda vez sobre a mídia, Marc Weiss foi mais enfático: "A Imprensa pode representar uma grande desvantagem, um grande obstáculo. Porém, um obstáculo que sempre pode ser transposto".
As declarações de Marc Weiss não condizem com um consultor internacional vindo do país mais democrático do planeta, onde um dos maiores escândalos públicos de todos os tempos -- o caso Watergate -- veio à tona justamente devido à perspicácia, à determinação e à coragem de jornalistas do The Washington Post. O papel do jornalismo apartidário e compromissado com o destino dos recursos públicos é tão valorizado pelos norte-americanos que criaram até uma expressão idiomática para identificá-lo: watch-dog-role, ou o papel do cão guardador.
As palavras de Marc Weiss configurariam apenas visão equivocada à luz da democracia e da liberdade de expressão se o consultor não tivesse opinado exatamente o contrário sobre o papel da Imprensa durante entrevista exclusiva à LivreMercado no final da tarde do dia anterior. Depois de ser informado pela reportagem de LM de que o Grande ABC sofreu queda substancial de Valor Adicionado, além de ter perdido 125 mil empregos industriais na última década, Marc Weiss mostrou-se sensibilizado com o trabalho investigativo da revista e disse textualmente:
"Uma das coisas mais importantes é ter uma Imprensa livre. Vou te dar um exemplo do que estou falando: estive envolvido em uma batalha dentro de uma grande instituição, cujos integrantes estavam fazendo coisas muito ruins, coisas verdadeiramente erradas, e a primeira atitude que tomei foi recorrer à mídia e dizer a verdade. Bastou a Imprensa escrever sobre o assunto e a instituição voltou atrás" -- contou o consultor, que foi além na análise. "Sem Imprensa livre é muito difícil corrigir erros, sobretudo devido à existência daquilo que nós chamamos de arrogância do poder. O poder corrompe. Quanto mais você tem um poder que não é desafiado, pior fica. Ter uma Imprensa livre que desafia o poder é sempre bom e importante" -- observou.
A primeira versão, gravada na tarde de 19 de novembro, é a antítese perfeita da segunda, proferida diante de representantes públicos. Mas não há o menor risco de falhas de interpretação porque a entrevista à LivreMercado dispensou intermediação de tradutor.
A mudança radical de opinião leva à conclusão inequívoca de que existiram interferências para que o consultor disparasse contra o alvo da mídia de forma a atingir com estilhaços a Imprensa regional que cobra dos poderes públicos ações pragmáticas de desenvolvimento sustentado. Como a reportagem de LM presenteou o consultor com várias edições da revista, e ele disse ser capaz de ler em português por conta de conhecimentos em francês e espanhol, que são línguas latinas próximas, espera-se que Marc Weiss consiga distinguir o joio da manipulação estatística e dos interesses eleitoreiros do trigo da análise descompromissada.
Cobrança incômoda -- O discurso antidemocrático de Marc Weiss não é fato isolado. Pela segunda vez em duas semanas a Imprensa foi alçada à posição de vilã durante evento público realizado no Grande ABC. A primeira ocorreu no seminário Retratos Metropolitanos, realizado no Imes, quando o prefeito de Santo André e diretor-titular da Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC, Celso Daniel, denunciou o que chamou de descarrilamento na cobertura jornalística regional, que estaria enfatizando apenas fatos negativos em detrimento dos positivos. O fato é que nunca como nos últimos meses LivreMercado se dedicou tanto a cobrar postura pragmática de dirigentes públicos, após anos de apoio irrestrito a formulações teoricamente integracionistas que naufragaram num mar de interesses conflitantes e não surtiram resultados práticos.
É fato, também, que a apatia dos homens públicos em relação à necessidade de se operar mecanismos de desenvolvimento sustentado na região nunca foi tão claramente diagnosticada. Prova disso é que os executivos municipais não se moveram diante da bomba-relógio de que mais 40 indústrias de médio porte colocaram imóveis à venda para deixar o Grande ABC, revelada em recente Reportagem de Capa de LM. O quadro de esvaziamento industrial e enfraquecimento socioeconômico está pegando fogo, boa parte da comunidade regional está ávida por atitudes e soluções, e os executivos públicos fingem que não é com eles.
Nada de individualismos -- A despeito do deslize sobre o papel da Imprensa no acompanhamento de ações de desenvolvimento regional, a exposição do consultor sobre cidades produtivas e estratégias de economias metropolitanas é interessante porque reforça muito do que vem sendo discutido no Grande ABC. Uma das principais conclusões de Marc Weiss é a mesma de LivreMercado: não se deve tentar recuperar cidades individualmente, sem ações mais abrangentes que envolvam a região ou a área metropolitana. A experiência internacional mostra que os atores econômicos sempre estão sedimentados em territórios mais amplos, que vão além de limites municipais.
"A forma como as cidades são formatadas sob o ponto de vista político-administrativo não condiz com a maneira como a economia se organiza, em redes industriais que extrapolam os municípios" -- explica o consultor. "Os governos municipais normalmente não reconhecem a existência de economias regionais, e quando reconhecem, normalmente não sabem como fazer desenvolvimento econômico diferente do modo convencional, que leva em conta apenas sua própria jurisdição" -- observa.
Marc Weiss explica que a transferência de indústrias de áreas metropolitanas para regiões mais novas, que oferecem custos mais baixos de mão-de-obra, impostos e espaço físico, é um fenômeno natural e universal que, em si mesmo, não deveria preocupar. Mas transforma-se num enorme problema na medida em que a região afetada não adota estratégia eficiente de desenvolvimento sustentado para compensar ou contrabalancear as perdas provocadas pelas deserções industriais.
"É obvio que o Grande ABC não voltará a ter o poderio industrial que recebeu praticamente de mão beijada no passado. Por isso precisa se mexer para se desenvolver em novas frentes" -- alertou. O ecoturismo pode ser transformado em boa matriz econômica -- sugeriu o especialista, depois de conhecer Ribeirão Pires ao lado da prefeita Maria Inês Soares. "Outra solução pode ser a construção de um grande centro de convenções para acolher feiras e exposições. Essas atividades movimentam a economia com desdobramentos positivos" -- apontou o consultor, que se surpreendeu ao saber que Santo André ganhou o primeiro hotel três estrelas há apenas quatro meses.
Um dos exemplos internacionais de reconversão socioeconômica citados por Marc Weiss em seus estudos foi o da Região Metropolitana de Akron, nos Estados Unidos. A região que já foi considerada centro mundial de produção de pneus por concentrar Goodyear, Firestone, Goodrich e General Tire bateu no fundo do poço ao testemunhar a debandada das unidades industriais das chamadas big four. "Mais de 40 mil empregos industriais foram ceifados entre os anos 70 e 80 e um futuro de pobreza pairava sobre os cidadãos" -- afirma Marc Weiss.
A reconstrução começou quando lideranças públicas da região, administradores da Akron University e de instituições como Akron Regional Development Board (Grupo de Desenvolvimento Regional de Akron) e Akron Tomorrow (Akron do Amanhã) se uniram ao governo de Ohio para traçar estratégia de desenvolvimento metropolitano. "A plataforma dessa estratégia foi o reconhecimento de que Akron não voltaria a ser o berço das indústrias de pneus e que, portanto, era necessário desenvolver rota alternativa com base no conhecimento, nas habilidades, no capital físico e nas relações institucionais inerentes à região" -- afirma Weiss.
Akron ressurgiu com base no conhecimento em produção de borracha sintética, desenvolvido e acumulado durante o período em que se viu impossibilitada de abastecer-se da China em razão da Segunda Guerra Mundial. Um centro de pesquisa em borracha foi ampliado e transformado no College of Polimer Science and Engineering (Faculdade de Ciência em Engenharia de Polímeros) e a Região Metropolitana de Akron se transformou em um dos maiores celeiros internacionais em polímeros.
Em Akron floresceram mais de 500 empresas especializadas em polímeros, incluindo centros de pesquisas e laboratórios das grandes indústrias que deixaram o território. Talvez o melhor símbolo da reconstrução seja o Canal Place, galpão abandonado pela Goodyear transformado em incubadora de empresas, além de quartel-general da Advanced Elastomer Systems (Sistemas Elastômeros Avançados), com centenas de empregados. "Akron ensina que nem sempre a saída está nos segmento da moda, como softwares" -- afirma Weiss. "Melhor do que adotar modelos prontos e acabados é desenvolver estratégica específica sustentada nas peculiaridades da região" -- completa. É exatamente disso que o Grande ABC precisa, por mais que os menos afeitos à liberdade de expressão tentem manipular.
"Regiões se reerguem por dois motivos básicos: por oportunidade, como as cidades que se revitalizaram para sediar olimpíadas, ou pela crise, que é o caso do Grande ABC" -- enfatizou o consultor norte-americano.
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18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL