O Seminário Internacional Cidades Produtivas e Inclusivas promovido pela Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC estabeleceu positivo ambiente de tensão do qual a região tanto necessita para evoluir: o encontro realizado em 10 e 11 de junho no Teatro Municipal de Santo André marcou a disposição de lideranças públicas e também de alguns fragmentos empresariais e sociais do Grande ABC em buscar alternativas de recuperação socioeconômica de olhos bem abertos sobre as experiências internacionais.
A realização do evento, patrocinado pela Organização das Nações Unidas e por vários organismos globais, sinaliza momento histórico de relacionamento internacional sediado pela região. E a melhor maneira para compreender o salto institucional embutido nas 14 horas de exposições e debates é contextualizar o seminário no traumático processo de reestruturação microeconômica que envolve o Grande ABC nos últimos anos.
Durante décadas, o ambiente produtivo regional foi dominado por absoluta pasmaceira. O regime de substituição de importações que vigorou durante quase todo o século XX levou a indústria a se comportar como se estivesse em uma ilha de prosperidade. Ninguém investia em gestão moderna e aprimoramento tecnológico porque, além das altas tarifas alfandegárias que incidiam sobre bens de produção importados, os produtos made in Brasil encontravam mercado cativo em consumidores sem alternativas além-fronteiras.
A comodidade proporcionada pelo regime de substituição de importações gerou reflexo correspondente na esfera institucional. Lideranças públicas e privadas mimetizaram o comportamento em vigor nas fábricas e permaneceram deitadas em berço esplêndido enquanto a economia girava fácil. As receitas fartas garantidas pelo mercado fechado e a inflação maquiadora de ineficiências proporcionaram vida tranquila e sem maiores sobressaltos à sociedade regional, que teve praticamente atrofiado o senso de mobilização e cidadania, embora contemplasse um movimento sindical tão importante quanto corporativo.
A situação virou de cabeça para baixo nos anos 90. A abertura comercial iniciada por Fernando Collor e intensificada por Fernando Henrique caiu como bomba de nêutrons sobre o território então mais industrializado e protegido do País. As montadoras investiram pesadamente em robôs e outras tecnologias para elevar a produtividade, mais de 100 mil metalúrgicos perderam empregos e centenas de autopeças familiares tradicionais sucumbiram à liberalização exagerada.
Às mudanças no panorama produtivo se seguiram alterações na esfera institucional. O Grande ABC criou instâncias integracionistas para discutir os problemas regionais, mas a preponderância de interesses pessoais e políticos e a consequente falta de visão prospectiva impediram avanços reais no processo de regionalidade. Os esforços embutidos na realização do seminário internacional da ONU parecem ter colocado os pingos nos is da institucionalidade até então semicompleta.
O passo seguinte ao reconhecimento da delicada situação do Grande ABC é a busca de mecanismos de reconversão socioeconômica. Também nesse ponto o seminário tornou-se de grande utilidade. Não que tudo o que foi mostrado e falado serve como luva à realidade do Grande ABC. Regiões de continentes tão distintos quanto África e Europa guardam especificidades culturais, estruturais e financeiras que precisam ser respeitadas sob pena de comprometer o tratamento com base em diagnósticos equivocados. Mas boa parte dos conceitos exibidos pelos especialistas internacionais precisam ser digeridos, metabolizados e absorvidos com inteligência por lideranças da região, ao melhor estilo do mote Pense Globalmente, Aja Localmente.
Muitas das peças que formam o quebra-cabeças do Grande ABC do futuro podem ser pinçadas nas experiências relatadas por italianos, norte-americanos, sul-americanos, asiáticos e também brasileiros presentes no Teatro Municipal de Santo André.
Do presidente da Agência de Desenvolvimento do Norte de Milão, Luigi Vimercati, é preciso assimilar a lição de que não adianta tentar empurrar a desindustrialização para debaixo do tapete da omissão. O lixo escamoteado sempre aparece em forma de galpões industriais abandonados, queda de índices socioeconômicos e criminalidade em alta. Muito mais sensato é transformar a constatação de que as indústrias foram embora em oportunidade para desenvolver novas matrizes sintonizadas com a era do conhecimento -- e com participação da comunidade local. O saldo da desindustrialização italiana, apresentado sem constrangimentos pelo expositor, foi de três milhões de metros quadrados de galpões vazios.
Luigi Vimercati também contra-indica a atração de grandes redes comerciais para repor as indústrias que se foram. Tal atitude só agravaria o quadro socioeconômico do Norte de Milão porque o pequeno comércio que representa o coração da região seria dizimado no embate desigual com os grandalhões. Uma lição que talvez seja tarde demais para o Grande ABC absorver, depois da liberalidade com que festejou a chegada de grandes conglomerados.
O norte-americano Richard Hollingsworth apresentou à sociedade regional outra lição de humildade: presidente da agência Gateway Cities Partnership, que representa 27 cidades da costa sudeste da Califórnia, o representante da nação mais poderosa do planeta não teve problemas em afirmar que o declínio da região norte-americana nos últimos anos é resultado direto dos baixos níveis de qualificação e escolaridade em relação a outras áreas industrializadas dos Estados Unidos.
O Grande ABC também deve capitalizar muito do que foi revelado de regiões da Ásia e da África que implantaram estratégias de desenvolvimento com suporte financeiro de organismos internacionais sob o guarda-chuva da Cities Alliance (Aliança de Cidades). Da experiência realizada na região de Colombo, no Sri Lanka, por exemplo, emerge a constatação de que a comunidade deve participar ativamente na formatação de diagnósticos que sirvam como plataforma a projetos de desenvolvimento econômico e redução de pobreza.
O expositor Dinesh Mehta mostrou que as ações estratégias realizadas na região asiática foram baseadas em informações fornecidas por 126 entidades comunitárias de núcleos favelados -- justamente os que estão em contato direto com as agruras.
A aproximação entre a Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC e organizações especializadas em consultoria imobiliária como as paulistanas Herzog e Bamberg, que conhecem como poucos os motivos que levam indústrias a deixar o Grande ABC para se instalar em outras regiões, seria de valor igualmente inestimável. Poder-se-ia atacar os reais pontos fracos do Grande ABC, os motivos específicos que fazem a região perder investimentos para outros territórios, da mesma forma que o treinador de futebol inteligente vislumbra buracos técnicos e táticos antes da partida.
Assim como Colombo, a equatoriana Cuenca baseou planos de desenvolvimento em intensa participação social. Um Permanent Workshop funcionou em período integral por um mês durante a estruturação dos trabalhos de campo. A expositora Carmem Valarezo também mostrou que Cuenca e o Grande ABC têm pelo menos um grande anseio em comum: criação de um banco de desenvolvimento regional. Em Johannesburgo, o chamado Capital Social também é uma das marcas mais visíveis. Conselhos de moradoras não apenas levantam necessidades como fiscalizam a aplicação de dinheiro e serviços públicos. O tempo que a burocracia estatal levava para aprovar documentos caiu de três anos para apenas seis meses, expôs Roland Hunter, chefe financeiro oficial da Capital sul-africana.
Além de oferecer manancial de conhecimentos para representantes de uma sociedade ávida por novos caminhos, o seminário estreitou laços do Grande ABC com organismos internacionais que se dedicam a levantar recursos financeiros para projetos de recuperação econômica. Uma saída para quem cansou de esperar em vão pelo auxílio dos governos estadual e federal, que pouco fazem para minimizar as chagas sociais regionais.
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18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL