Sociedade

Quem mandou ignorar a lógica
de desenvolvimento econômico?

DANIEL LIMA - 23/06/2004

Quem mandou não ouvir o bom senso? Quem mandou bater o pé da teimosia? Quem mandou não ter sensibilidade econômica para minimizar as contraturas sociais? Quem mandou enxergar só o próprio umbigo? Quem mandou optar pelo confronto em vez da cooperação?


Foi exatamente por essa série de razões e outras mais que o Consórcio de Prefeitos e boa parte do grupo encarregado de preparar o perfil da Universidade Federal do Grande ABC tiveram de ouvir de um representante do Ministério de Educação uma reprimenda claríssima. Disse Manuel Palácios, diretor de Desenvolvimento do Ensino Superior da Secretaria de Ensino Superior do MEC: “Um dos pontos que deixei claro é que o setor produtivo deve ser incluído no processo, porque o ministério insiste na interação da universidade com as indústrias” — afirmou.


Até leitores menos atentos desta newsletter sabem o quanto defendemos a lógica cartesiana de que uma universidade, qualquer universidade, principalmente pública, mantida com dinheiro dos contribuintes, não pode ignorar as forças produtivas numa região como o Grande ABC, que perdeu dois quintos de seu PIB industrial nos oito anos recentemente encerrados do governo Fernando Henrique Cardoso.


Estamos batendo nessa tecla desde antes de o presidente Lula da Silva presentear o Exército de Brancaleone do Grande ABC (prefeitos, deputados federais e alguns sindicalistas) que o visitou em 18 de maio para reivindicar a Universidade Federal. À resposta de Lula da Silva de encaminhar celeremente a aprovação da escola superior no Congresso, na sequência da formulação de um perfil preparado por supostas lideranças da região, o que tivemos nos últimos 30 dias foi um festival de aparvalhamento sob administração descoordenada do Consórcio de Prefeitos.


Agiu-se de forma tão insanamente corporativa que, da relação de 16 membros de iluminados que tratariam de se reunir para forjar as linhas mestras da instituição, constou apenas um representante do setor empreendedor. E mesmo assim de uma Acisa (Associação Comercial e Industrial de Santo André) que é um arremedo de participação institucional. Uma Acisa, para ser reto e direto, que não se credenciou ao longo dos anos (muito pelo contrário, porque se omitiu o tempo todo de forma deliberadamente voltada a um equilibrismo improdutivo) e que, portanto, independentemente de quem tenha sido indicado, jamais poderia ser guindada ao compartilhamento de propostas.


Enquanto isso, setores incisivamente fortes na região, como químico, petroquímico, autopeças e cosméticos, foram olimpicamente ignorados.


Analisado sob o prisma retrospectivo, o alheamento do Consórcio de Prefeitos não deveria surpreender. A instituição idealizada pela sensibilidade contemporânea de um Celso Daniel que sobrava em capacidade articuladora em relação aos demais prefeitos não cabe além do armário de aço do corporativismo público. A iniciativa privada é apenas uma vaca leiteira de arrecadação de impostos sobre a qual o poder público, de maneira geral, se dá ao ordenhamento tão apressado quanto predador.


Sim, porque o histórico regional dos gerenciadores públicos é escandalosamente despudorado no tratamento extrativista dos meios de produção. Não existe e jamais existiu — salvo exceções à regra como o pólo de cosméticos de Diadema recentemente descoberto — engenharia de relacionamento com representantes das atividades industriais.


Solicitem às secretarias municipais da região, criadas somente há sete anos, informações mais substantivas sobre espectros do universo de fábricas dos respectivos territórios e o que terão como resposta, acreditem, serão estatísticas de arrecadação de impostos.


Ao que parece — e as informações de bastidores caminham nesse sentido –, o grupo que aparentemente conduziria o formato da Universidade Federal do Grande ABC está irreversivelmente escanteado pelo governo federal. Afinal, é muito dinheiro que se vai colocar nesse empreendimento bancado pela volúpia regionalista do presidente Lula da Silva. Seria estultice permitir abusos e devaneios filosóficos e doutrinários de gente que ainda não consegue compreender a conexão entre universidade e mercado para a ressurreição de regiões devastadas pela imprevidência.


Uma universidade pública vocacionada ao empreendedorismo e que seja suficientemente capaz de nos retirar do pantanal de dificuldades de recuperação econômica — eis o que nos interessa de fato.


Não será esse modelo falimentar do Consórcio de Prefeitos, que se transformou num clube fechado de amigos do peito, que resolverá nossos problemas. Até porque, num gesto de grandeza e humildade pouco comum a quem se julga acima de qualquer suspeita, o Consórcio de Prefeitos já se deu conta de que desmanchou-se em ineficiência a ponto de contratar a Fundação Getúlio Vargas para esculpir um modelo minimamente ancorado nesses tempos em que competitividade não é apenas um palavrão no sentido de encadeamento de letras, mas um baita problema para quem dorme em berço esplêndido.


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