O professor Luiz Roberto Alves é a nova perda de Nosso Século XXI, a obra coletiva mais importante da história regional. Dos 29 articulistas convidados pela direção da revista de papel LivreMercado, antecessora de CapitalSocial, esta é a nona baixa. Luiz Roberto Alves está sendo sepultado hoje.
Nosso Século XXI contou com duas versões, a primeira em 2001, a mais retumbante, e em 2007, semelhantemente portentosa com 36 articulistas, vários dos quais da primeira edição.
Em dezembro de 2001, quando da primeira versão, a festa no Clube Atlético Aramaçan, em Santo André, reuniu trêsmil convidados. Foi a última aparição pública de Celso Daniel, então prefeito de Santo André e um dos autores da obra coletiva. Em janeiro do ano seguinte, Celso Daniel foi embora. E o processo de fragilização de uma regionalidade ainda incipiente fez do Grande ABC uma arquitetura de despudoradas apoplexias econômicas, sociais e políticas.
OBRA HISTÓRICA
A reprodução de alguns trechos da apresentação de Nosso Século XXI, assinada pela jornalista Malu Marcoccia, é essencial à compreensão daquele projeto. Afinal, coloca os leitores em contato com o espírito daquela empreitada. Os articulistas foram impecáveis no compromisso com o futuro que sempre chega em forma de presente-presente. Vejam o que escreveu a coordenadora-geral do projeto:
“Nosso Século XXI foi estruturado em torno de uma unidade temática – o terceiro milênio que desabrocha – tendo como polo irradiador uma região que ainda se constitui num dos pedaços de vanguarda da imensa colcha de retalhos chamado Brasil. Apesar do tema único, Nosso Século XXI faz concessão a variados estilos e pontos de vista. Cada um dos 29 ensaistas abre um campo do olhar sobre o que ocorreu nestas terras de passado glorioso, de dinastias econômicas fartas e linha de frente da classe operária, mas aviltadas por rarefeita integração política, combatida identidade regional e desatualização fabril crônica. De meca da imigração e musa da industrialização brasileira, o Grande ABC passou a sintetizar a nova ordem econômica mundial de eficiência, estruturas enxutas, acirrada competitividade e sucesso profissional. Mas se mostrou despreparado para o desafio globalizante” – escreveu a jornalista que durante uma década viveu intensamente o dia-a-dia revolucionário do jornalismo de LivreMercado de militância regionalista com olhos voltados para o mundo.
O que os leitores vão ler em seguida é um conjunto dos primeiros trechos dos articulistas de Nosso Século XXI de 2001 que já se foram desta vida. Salvo engano, que é possível, não encontrei registro de qualquer outra baixa nesse período de mais de duas décadas pós-publicação. Para completar o trabalho, reproduzimos o texto completo de Luiz Roberto Alves.
O que viveremos
depois da diáspora?
ANTONIO POSSIDONIO SAMPAIO
Que refletir sobre o passado — como forma de entender o presente e prognosticar o futuro — é preciso, já ensinaste, Conselheiro Acácio. Mas se nem história confiável possuímos, como falar do passado da região com segurança a fim de entender nosso futuro? O futuro depende de nós, também afirmou o conhecido personagem do escritor Eça de Queirós. Porém, já começamos a desocultar nosso passado através de congressos de história do Grande ABC, realizados de dois em dois anos em cada uma das sete cidades da região. O primeiro ocorreu há 10 anos em Santo André; o último, em Ribeirão Pires em agosto de 2000; o próximo deverá ser realizado em Rio Grande da Serra em 2002, com encerramento do ciclo, cabendo a Santo André reiniciá-lo em 2004.
População é que
decidirá destino
CELSO DANIEL
Este texto possui dois objetivos correlatos: fazer uma avaliação a respeito da evolução e do estágio recente do Grande ABC em seus aspectos econômicos, sociais, urbanos e culturais e examinar o sentido do processo de integração regional, iniciado — do ponto de vista institucional — em 1990 com a criação do Consórcio Intermunicipal, envolvendo as prefeituras locais. Convém recordar que a região, no início deste século XXI, vive um momento de transição, de crise. Essa circunstância sugere ser mais adequada uma análise que não se detenha no curto prazo, mas busque resgatar a herança histórica regional. Em outras palavras, trata-se de, ao considerar a conjuntura, ir além disso, buscando captar os traços estruturais que marcaram e marcam o Grande ABC, leito no qual se inscrevem as alternativas de futuro para sua população e para sua economia.
Identidade em xeque
exige ações diversas
CLÁUDIO RUBENS PEREIRA
A primeira ocupação humana moderna no Grande ABC teve a função de proteger os grupos que demandavam o Planalto Paulista. Ao vencer o paredão da Serra do Mar, cada excursão chegava a um planalto ocupado por índios que recebiam com reservas o invasor europeu. O trabalho pesado nessas viagens era feito por mulas. Em todo o deslocamento havia paradas para descanso. Na Serra, no máximo a cada légua (6,6 quilômetros). No Planalto, a necessidade de parada para descanso a cada duas léguas determinava a distância a ser percorrida entre dois acampamentos, alguns tornados permanentes. Apaziguados os índios da região, necessários para a consolidação do novo núcleo que surgira no planalto, as forças foram removidas para as cercanias do Colégio dos Jesuítas.
Vontade política
na gestão urbana
JERSON OURIVES
As profundas transformações de nossa época têm duas componentes interligadas, porém não necessariamente determinantes do processo. Uma é a dos geradores de cultura (o chamado Primeiro Mundo) e outra a de seus consumidores (os demais mundos), que vão a reboque dos fatores gerados por aqueles líderes. Sem entrar em profundas análises e discussões de significados e causas, a respeito do que há extensa documentação, verificamos que o número de teorias sobre desenvolvimento econômico e social é diretamente proporcional à capacidade dos geradores de cultura de criar fatos e à incapacidade dos consumidores de alcançá-los.
Não podemos ficar ao
sabor dos ventos
JORGE HEREDA
O Grande ABC é produto de decisões tomadas fora de seu território. Foi assim quando transferiram a Vila de Santo André da Borda do Campo para criar a atual cidade de São Paulo. Com isso, nossa região passou a ser local de ligação de São Paulo ao Porto de Santos, determinando o lugar que o Grande ABC ocupa hoje na Região Metropolitana. No ciclo do café, com a implantação da ferrovia, o Grande ABC viu surgir as bases de seu tecido urbano, formado no entorno das estações da via férrea. Com o processo de metropolização de São Paulo, o atual aglomerado urbano consolidou-se e a construção da Represa Billings, a Lei Estadual de Proteção aos Mananciais e a implantação das vias Anchieta e Imigrantes moldaram o Grande ABC de hoje.
Institucionalidade
depende de todos
MAURICIO SOARES
A perplexidade e o desencanto dos países em desenvolvimento são um dos fenômenos mais angustiantes de nossa era. Frustam-se as esperanças e os esforços. Aprofunda-se o fosso entre os mais ricos e os mais pobres. Por que tudo isso acontece? Pode-se dizer que os sistemas econômicos, a relação entre países ricos e pobres, a voracidade do capital volátil, a globalização, a ditadura do comércio internacional, a dívida externa dos países em desenvolvimento etc, tudo está sendo questionado. A massa crítica forma-se em todos os recantos, desde os países subdesenvolvidos até os centros de riqueza. As reuniões do G-7 e G-8, recentemente ocorridas, mal puderam concluir seus trabalhos. Há revolta generalizada contra a forma como se trata a humanidade nesse limiar de século.
Aparelho cultural
está desatualizado
MILTON ANDRADE
Fazer previsões é tarefa ingrata. Tanto leva ao ridículo quanto a sintomas de insânia. Principalmente se falta àquele que se pretende profeta o misticismo de Nostradamus ou a santidade de São João e o seu apocalipse. Para um simples observador dos fatos, prever a vida cultural do Grande ABC no século XXI é duplamente espinhoso: pode resvalar no ridículo e revelar a falta de siso a quem se aventure à conjectura, mas é tarefa necessária para que nosso campo cultural, tão abandonado, possa começar a ser balizado e até — provocando alguma reflexão sobre o passado cultural recente — lançar pontes para os dias que aí vêm. O que se propõe, de início, aos leitores é remetê-los aos anos 40, quando, ao final da Segunda Grande Guerra, os exércitos aliados derrotaram o nazifascismo europeu e, indiretamente, a ditadura de Getúlio Vargas, abrindo para todos nós um breve período de convivência democrática. Foi quando desapareceu o DIP, famigerado Departamento de Imprensa e Propaganda, encarregado de censurar atividades intelectuais incômodas ao dono da República, cioso de uma imagem pública de amigo dos trabalhadores e de simpático pai da nação brasileira.
Divagações sobre
um futuro possível
RAFAEL GUELTA
Bom dia, sr. Globe. Hoje está um bom dia para prosear. Proponho que façamos um laboratório. Como fazem atores de teatro ao investigar a personalidade de seus personagens; músicos ao dissecar o silêncio em novas harmonias; artistas plásticos ao juntar cores, formas e signos a novos conteúdos de imagens; ou cientistas ao experimentar reações da química e das forças da natureza. Enquanto divago e escrevo, o senhor responde com sua consciência. Escreva tudo o que lhe vier à cabeça e depois me envie por e-mail. Por mais que esta correspondência soe uníssona porque sou eu que escrevo — e a palavra é o bem maior desta prosa –, discorde, proponha, reinvente. Não aceite o que irei dizer. Desconfie. Ninguém é perfeito, tampouco dono da verdade. Preciso das suas ideias tanto quanto o senhor das minhas. Somos mamíferos e mamamos uns nos outros, não é mesmo?
Regionalidade se
faz com cidadania
LUIZ ROBERTO ALVES
Já conhecemos a parábola do notável escritor Franz Kafka. Aberta como qualquer parábola, mas inteligente para se ver ali a exigência de se pensar o tempo como uma totalidade e, se possível, jamais fragmentá-lo. Segundo a metáfora kafkiana, ele (por que não ela) se encontra entre dois lutadores. O de trás o impulsiona; o da frente comprime-o. Entre os dois, esforça-se fisicamente, mas acima de tudo pensa em como fazer para que um o ajude na luta contra o outro.
Sendo difícil a cooptação, começa a buscar a ocorrência de uma noite escura em que possa saltar fora da arena de luta e tornar-se juiz da refrega dos contendores de trás (passado) e da frente (futuro).
Pobre ele ou ela. Mas ao menos é sábio, pois descobriu que se encontra entre duas forças poderosas, da impulsão e da compressão. Se pobre, porque deseja escapar do movimento que o faz sanduíche, saltar de banda e virar observador privilegiado.
Esse lugar de árbitro é irreal, no máximo virtual, quer seja no pensar econômico, quer seja na cultura ou na prática política. Se o domínio do capital acumulado pretender passar de trator sobre a paisagem, as construções e as pessoas para seguir acumulando como se esse movimento fosse a única lei da vida, não somente teria de destruir as forças da frente (que lhe dizem coisas novas) como atropelaria muitos eles e elas.
Nos lugares da ação cultural, o difícil é escapar do prazer do umbigo, que produz tanto a inércia e a anomia quanto o vanguardismo e a espetacularização.
COMO SE FOSSEM RESTO
De um lado, acomodar-se com estéticas e linguagens já conhecidas e aprovadas pelo poder social, deixando de lado os jovens e sua inquietude, o popular e seu apego à base social, o alternativo e suas experimentações. De outro lado, encastelar-se entre pares que pensam do mesmo modo e, do alto do elitismo, olhar para baixo como se os demais fossem o resto.
Nos marcos da política, o gravíssimo erro de não educar-se pelo espírito crítico e, principalmente, não realizar a autocrítica, seguido da falta de canais para a ampliação do papel democratizante das maiorias e a cegueira do vale-tudo para continuar, vencer o tempo e acumular poder.
Ora, os estudos brasileiros e estrangeiros de história, sociologia e geografia humana (Morse, Ianni, Florestan, Cândido, Sader, Souza Martins, Milton Santos…) e a literatura, de Euclides da Cunha a Guimarães Rosa, já mostraram que houve, desde a questionável independência política, boa capacidade de diagnósticos e proposições para mudar e melhorar o País, perdendo-se em seguida na efetiva concretização de direitos sociais, na burocratização corrupta, na falta de mediações adequadas, na contensão e no conformismo ditados por compromissos internacionais. Enfim, frustração.
No vácuo desses projetos rompidos e fragmentados, sobra um próspero espaço para todas as formas abomináveis de políticas de favor, as grosseiras ou sutis relações de toma-lá-dá-cá.
CULTURAS POPULARES
O alento, ou o estímulo para novos projetos, não vem, pois, dessa pertinaz atitude política de fragmentação e ruptura de projetos da sociedade brasileira, mas sim de outros lugares sociais. As culturas populares são um lugar emblemático, pois souberam superar minimamente escravidões e suas consequências, sistema judiciário lento e incompetente, elitismo cultural e universitário, preconceitos e formas de racismo no trabalho, na mídia e na escola; de virada, legaram valores estéticos, musicalidade, exemplos de resistência e proposições de trabalho coletivo.
Veja-se o comércio popular, a roda de samba, a literatura de cordel, os mutirões, a sociabilidade periférica contra a violência estrutural etc.
Quem acompanha os movimentos populares e sindicais, quem visitou no Parque do Ibirapuera a Mostra do Redescobrimento no marco desses 500 anos e quem lê e vê um pouco de literatura e cinema nacional certamente encontra sinais e provas evidentes dessa afirmação.
Antes que estudiosos nos mostrassem que os mitos fundadores da nossa história (nascidos na crise e expansão europeia do século XV que encontram o Brasil em 1500) de fato plasmaram os maiores defeitos políticos ainda em vigor, as culturas das maiorias, diversas, ativas e por vezes contraditórias, já haviam ensinado que o Brasil não foi nem é uma sociedade harmoniosa, muito menos cordial, ordeira e ecológica, mas sim um lugar de notáveis conflitos a serem repensados corajosamente por novos sentidos de cidadania. Cabe, pois, ter olhos e ouvidos mais atentos à delicada, difícil mas possível construção de sentidos para o tecido social em processo.
SENTIDOS DA REGIONALIDADE
O presente do Grande ABC obedece ao ciclo científico do modo como se aguçam os sentidos da regionalidade. Desse modo, convém determinar quando e como desenvolvem-se as preocupações com o regional. Foi no final do século XIX que a geografia e a história voltaram-se para pensar blocos regionais. Com base na experiência romântico-idealista, que valorizava o particular, mas a par dos determinismos evolucionistas, as ciências experimentaram estudos sobre o global e o local. A região é, precisamente, a mediação entre os dois extremos.
Debatia-se a dependência do homem em relação ao meio ambiente e as possibilidades humanas de superarem os meios condicionadores. A professora Sandra Lencione, em recente livro denominado Região e Geografia (Edusp), mostra esse movimento científico, bem como o fato de que os novos projetos de expansão do poder europeu sobre o mundo também ensejavam estudos sobre grupos sociais, povos, culturas.
Apimenta-se o molho com a presença da revolução industrial, cuja ascendência sobre as cidades produzia a dissolução dos lugares sociais de convívio, esgarçava os laços entre as pessoas e enfraquecia a ideia de comunidade local. Desse modo, a preocupação com a regionalidade tinha pelo menos três tendências: a expansão do poder, a busca de identidade e a criação de mediações para melhor compreender a totalidade expandida do mundo.
NOVAS ATITUDES SOCIAIS
Veja-se, pois, que os diversos momentos denominados de modernidade e globalização, como foi também o final do século XIX, provocam — mutatis mutandis — mudanças de conceitos e práticas, introduzem novas atitudes sociais. A partir de então, firmou-se o conceito de regionalidade. E antes mesmo que o Brasil tivesse uma compreensão clara do sentido de regionalismo/regionalidade, as artes e a literatura brasileiras dos anos 20 e 30 definem-se como globalizantes e regionalizantes, isto é, na primeira parte intercambiam-se experiências europeias, americanas e latino-americanas na busca de um sentimento de mundo; já no momento posterior, a reflexão estética localiza-se no espaço regional para sondá-lo, senti-lo e divulgar suas mais profundas realidades. Quem não reconhece isso em Oswald de Andrade de um lado e Rachel de Queiroz ou José Lins do Rego de outro?
O modelo positivista e centralizador determinou o estabelecimento das regiões no Brasil. Sua inspiração central foi a da manutenção do poder. A região tem menor valor como espaço de relação com outra região do que com o centro. Região-centro e não região-região, eis a mão de direção. Para cutucar a atualidade da questão, veja-se como brigam as regiões no contexto da guerra fiscal e como acumulam mágoas associadas a riqueza-pobreza, privilégios e desprestígio, voltando-se todas para o planalto central (simbolicamente o centro) quer para reclamar, quer para pedir ou barganhar. Efetivamente, desde o Atlas do Império produzido por Candido Mendes de Almeida em 1868, as regiões brasileiras obedecem ao mando do poder administrativo, do poder eclesiástico, do poder judiciário e do poder dos distritos eleitorais.
Ora, os últimos 30 anos do século XIX brasileiro afirmavam-se como modernos e globalizantes, até libertadores. Nesse período foram feitas belas análises de conjuntura e indicadas soluções para nossas grandes mazelas: estrutura fundiária, emprego, escravidão, reorganização das cidades, instauração no contexto do capitalismo internacional. No entanto, de fato a divisão das regiões repetia a estrutura colonizadora das antigas capitanias.
LIÇÕES DE PROFESSOR
O professor Francisco de Oliveira mostrou o desvalor desse sistema em artigo publicado na revista do Instituto de Estudos Avançados da USP, 1993. Atrás da divisão regional está o mito da unidade nacional com base na língua e no território. Entrevista nas teias da mistificação, pode-se ver, em verdade, o jogo elitista da modernização, isto é, produz-se a aparência da solução de questões agrárias, dividem-se também aparentemente as atribuições sociais, criam-se novas alianças entre os mesmos grupos do poder e mesmo desloca-se o problema do mercado de trabalho, que simula ser uma coisa local.
A ascensão e queda de Sudene e Sudam, o inchaço de gente e problemas em São Paulo, a insensibilidade perante revoluções populares regionais (tidas como obra de fanáticos), as guerras fiscais, o diversionismo militarista diante da tragédia agrária, fatos conhecidos de nossa história, evidenciam o fracasso dos velhos sentidos do regionalismo, que também lembram a realidade do sul dos Estados Unidos e do sul da Itália.
Racismos, genocídio indígena (Brasil, Argentina), sitiamento de populações (México, Colômbia), máfias e militarismo compõem o tecido de males urdido nos projetos regionalizantes de origem centralizadora. Os resultados? Ora, estão determinando ainda atrasos e percalços neste início de século.
Francisco de Oliveira mostra também o nosso estreito regionalismo como força motivadora da crise entre as classes sociais a partir do mundo do trabalho. Concentração de empregos num lugar e desconcentração noutros, privilégios aqui e negação de direitos acolá. Desde as expansões da cafeicultura e do conflito entre escravidão e homens livres no mercado de trabalho, o resultado foi a criação de arraigados preconceitos contra os não-qualificados, os incultos, nordestinos, baianos, enfim empobrecidos.
ILHOTAS DE OLIGARQUIAS
Daí os murmúrios de separatismo, comparações entre desenvolvidos e subdesenvolvidos dentro do País, promessas de expulsão ou, mais modernamente, o fetichismo da requalificação mágica de milhões, aos quais não se deu o direito de educação no momento justo. No máximo, o projeto regionalista do Brasil produziu ilhotas de oligarcas e botou a cereja em cima do pudim de poucos.
O grande problema é que os projetos de modernização, dentre os quais a regionalização é parte, não avançaram para a crítica dos mitos políticos brasileiros, não produziram sensibilidade perante as culturas do País, não realizaram a ruptura dos elitismos e mistificaram o que poderiam ter sido seus consensos, isto é, um enorme projeto educativo-cultural, a crítica das relações entre capital e trabalho, o questionamento do lucro a qualquer custo, o valor da identidade local-regional para além da patriotada besta, a superação da arrogância entre os diferentes social e politicamente.
Uma das últimas frases do renomado professor pode ser tida como profecia ou mera ilusão. Vale a pena citar: “Uma nova cultura, hegemônica, nascida das duras experiências da ditadura, do novo operariado, das novas classes médias, de uma sociedade plural, está emergindo. A hegemonia burguesa, inacabada, está dispensada de seu papel, que não soube cumprir. Mas o desastre que legou não foi pequeno e o atraso que gerou apenas pode ser reparado a duras penas.”
OLIGARQUIA REGIONAL
Quem ainda tivesse dúvidas sobre o fim do regionalismo oligárquico do Brasil, bastaria assistir ao filme de Sérgio Bianchi Cronicamente Inviável. Trata-se de um painel dos lugares do País: Sudeste, Nordeste, Sul etc, no qual tempo e espaço dialetizam-se a partir de um símbolo, uma via crônica, isto é, uma rua onde sistematicamente sucedem atropelamentos, absurdamente iguais e sem que nada se faça para mudar. A mesma histeria, os mesmos argumentos, o mesmo modo banal.
Paralelamente, constrói-se um cenário de futilidades que parece documentário para turista ver, mas que se volta para os locais e que, repetidos e exacerbados, levam à náusea e ao basta. Do mesmo modo que a via/rua onde cronicamente se sucedem desastres, também é crônica (isto é, estável e institucionalizada) a passarela de situações da vida brasileira a mostrar a sua inviabilidade.
O cronos/tempo repete-se sobre o caminho e o faz absurdamente igual. Pior, banal. Por isso, não há mais via, caminho, e sim somente a marcação da banalidade em movimento. Não há o que escolher, seja Sudeste, Nordeste, Sul, Centro-Oeste, Norte. Os rumos estão truncados pela história banalizada.
A regionalização vivida por setores mais sensíveis das setes cidades da microfísica denominada Grande ABC não foi oferecida nem legalizada, mas percebida sensivelmente, seguindo agora um processo de garimpagem de sentidos, ainda a meio do caminho.
MUITO DIFERENTE
Diferentemente do modelo italiano — legalizado em 1977 segundo Robert Putnam em livro publicado em 1996 –, não foram criadas leis, modelos de governo regional nem um sistema eleitoral. Também não se garantiu para a microrregião o investimento e a atenção conhecidos em Detroit, Vale do Ruhr (Alemanha), Euralpe (partes de Suíça, Áustria, Itália), região de Hong Kong etc.
Aqui trata-se de aproveitar um movimento histórico, interpretar três tendências sociais, superar o peso da história preconceituosa e elitista, garantir indicadores ousadamente consensuais da qualidade de vida regional e produzir competência para todo o processo avaliatório. Tarefa pouco conhecida e experimentada no processo histórico-cultural brasileiro. Mas que exige a instituição e talvez a institucionalização da diferença. Antes de tudo, porém, carece-se de crer na existência do valor social da diferenciação.
Aqui, diferenciação significou a emergência, no processo histórico, da consciência de grupos (jamais do conjunto da sociedade regional) sobre três realidades em tensão, a saber.
Em primeiro lugar, a geografia de passagem entre o Interior e o Litoral favoreceu a comunicabilidade entre etnias e culturas estabelecidas a partir do século XIX, como se, postos num grande corredor, concentrados, os abecedeanos tivessem de produzir informação e comunicação como forma de existência. Os corredores da manutenção, importação e exportação de mantimentos tinham como mercadoria básica a comunicação, exercida não somente pelos transportadores (gente da terra e de fora da terra) como pelos demais trabalhadores de ofício: oleiros, agricultores, antigos marceneiros, carvoeiros, componentes do periférico e ativo corredor.
PERIFERIA REPETITIVA
Se é verdade, como afirma José de Souza Martins em Subúrbio, 1992, que a periferia é o lugar da repetição e não da criação, do fragmento da memória, do vivido e não da História, então esse corredor geográfico e humano fez da passagem um processo de comunicação em que a repetição forjou conjuntos de memória, a vida vivida pelas riquezas étnicas em confronto e colaboração ordenou histórias e os fragmentos do universo do trabalho criaram um corpo de ideias quando a internacionalização do capital definiu a região como lugar de um dos seus mais fortes parques industriais.
De fato, a população regional, que era de 25 mil habitantes em 1920, saltava para 300 mil em 1965, chegando agora a 2,3 milhões de almas. Nesse movimento, os parcos documentos e uma memória ativa dizem que não faltaram reivindicações sociais e lutas políticas tendentes a operar a passagem de agregado a morador e de morador a cidadão, valor ainda não plenamente realizado.
Fragmentação cultural, ausência de escola, política oligárquica, sem dúvida tudo isso foi vivido e conhecido nessas passagens. O importante, porém, é que a dinâmica social precisamente reconheceu nisso a passagem, o movimento para sair de possíveis encalacramentos, fora de qualquer determinismo.
SUCESSÃO DE OLIGARQUIAS
A sucessão política das oligarquias é menos importante e produz menos memória do que os símbolos do trabalho, seus conflitos e suas oportunidades. Pezzolo, Zampol, Flaquer, Gimenez, Michels, Campanela, Saladino, Lauro Gomes, Amazonas, Massei, Braido, Setti, Delta, Dellantonia — todos esses nomes não significam qualquer ato de reinvenção política, pois laboraram nos marcos tradicionais dos partidos, sob força clientelística e alternância tradicional de poder, a serviço de emancipações conservadoras e centralizadas, secundados pela mídia rústica de ocasião.
A despeito do valor pessoal de alguns e da pontualidade produtiva de alguma gestão, não foi por eles que se operou qualquer projeto de emancipação do pensamento político, de planejamento e monitoramento da qualidade de vida ou de conquistas visíveis da cidadania organizada. Portanto, sua força cultural vale mais como trabalhadores, como famílias imigrantes e migrantes, do que como servidores da instituição política tradicional, que marcou o País especialmente entre 1930 e 1970.
Por isso, a segunda tendência desse processo é o embate contínuo entre capital e trabalho, este sim recuperador da comunicabilidade das culturas do ofício e impulsionador dos movimentos novos, mais baseados no consenso social. Na esteira das crises dos sistemas importador-exportador, a industrialização faz-se sinônimo de modernidade. Foi objetivo social, fator de superação final do universo das periferias, descoberta do novo labor humano, exigência de sociabilidade, visto que grupos mais conscientes dessas povoações e cidades descobriram que esse movimento globalizador do capital revelava os sentidos da pluralidade cultural, isto é, a concentração geométrica dos diferentes e distantes sob o diapasão da modernidade industrial, possível fator de alienação segundo teorias e estudos, pôde evidenciar o contrário nas brechas do sistema.
DESCOBERTA DE CONTRADIÇÕES
O reconhecimento da migração e da imigração como fatos consumados permitiu a empatia histórico-geográfica. Segue-se a descoberta das contradições: as cidades opulentas prometem progresso. Ora, progredir deve ser mais do que trabalhar, que pode ter o significado de estagnação no espaço da favela com salários miseráveis. Os sinais das lutas políticas dos últimos 30 anos (com apoio decisivo dos momentos anteriores) não deixam dúvidas de que neste subúrbio produziu-se uma antropologia da comunicação.
As instituições comunais, que acompanhadas desde as sociedades de socorro mútuo, malbarataram as fronteiras das vilas e cidades e fizeram intercâmbio entre sindicato, festa, romaria, greve, reivindicação de bairro, conversa e missa. Necessidade plural criou sentidos plurais da ação, intercâmbio comunicativo. Descobriu-se que a geometria dos dilemas pode ser igual à geometria dos saberes.
Então, basta apontar para os criativos movimentos sociais e sindicais dos anos 70 e 80, que indicam a ampliação do espaço público, diálogo entre socialmente diferentes, ascensão da mulher e seus direitos, ataque à dicotomia dominante-dominado, maturidade no projeto de cidadania, ampliação semântica da solidariedade social, ampliação das vozes na denúncia do País injusto e fabricador de desigualdades. Diminuíram as distâncias entre o saber e o fazer, dialetizaram-se as estruturas socioculturais e chegou-se a algumas precárias vitórias na ordem econômica.
DESAFIO À EDUÇAÇÃO
A terceira tendência se realiza no contexto da mutação tecnológica, da precarização do emprego, do discurso político monotônico, dos distanciamentos provocados pela falsa virtualidade. Mas também no contexto da sociedade de novos conhecimentos e novos modos de tratamento dos problemas. Tempo do desafio à educação, que precisa dirigir os próximos ciclos de desenvolvimento, submetendo a economia à sua instrumentação. Momento em que a comunicação parece ser a ditadora de todas as modas e trejeitos, quando deveria ser a facilitadora de uma ordem social mais digna e justa. A despeito disso, essa modernização globalizadora possibilitou um reencontro local-regional. Antes de serem supostas cidadãs do mundo, as pessoas devem estar presentes onde lhes cabe produzir o maior volume de relações sociais — a cidade.
Como se deu na Europa de final do século XIX, a globalização urbana e tecnológica provoca a dissolução de lugares e relações. Então, dentro da crise a região reata laços, redescobre espaços de diálogos (já estava preparada para tal), amplia sua comunicabilidade e cria instituições capazes de renovação de pactos políticos e novas formas de representação social.
DIFERENÇA HISTÓRICA
Em vez de historiar o desenvolvimento dessas instituições, fato sobejamente conhecido, melhor é destacar que esse corredor suburbano instituiu seu direito à diferença histórica, a saber: criou um processo de comunicação institucional em torno das culturas do trabalho, garantiu relativa vitória sobre a oligarquia, superou os riscos de desintegração física e simbólica pelo reconhecimento do lugar e seu enraizamento, redirecionou o discurso da opulência das cidades para a diminuição da desigualdade social e preparou-se para diálogos consensuais em torno de plataformas superadoras da dicotomia dominante-dominado.
Feito isso, os movimentos do futuro são claros. Carece a região de negar a tendência das modernizações brasileiras, que foram capazes de belas análises de conjuntura e grandes fracassos posteriores, quer pela má avaliação das mediações sociais e culturais, quer na corrupção individualista ou na falta de sentido de missão e compromisso.
Ato contínuo, as instituições emergentes (câmaras, conselhos, consórcios, fóruns) e as antigas (câmaras legislativas, executivo, associações) fixarão códigos de ética que superarão o espírito caudatário, centralista ou cooptador, garantindo o princípio da liberdade de espaço e proposição.
Segue-se a importância de assumir práticas políticas com clara visão teleológica, isto é, conhecer bem o movimento histórico do antigo lugar de passagem e dos embates sociais e pesquisar os movimentos para a consecução de suas finalidades, notadamente na construção educativa, cultural e ética das novas gerações. Ir até o rabo da palavra no monitoramento dos acordos e propostas de força regional, com ênfase nas atividades-fins que garantam efetiva qualidade de vida às maiorias.
DESCUIDO FATAL
Tal monitoramento inclui o trabalho avaliatório sobre a pesquisa, a extensão e o ensino das instituições ligadas à produção do conhecimento, que devem capacitar-se para resposta imediata e precisa da condição e da necessidade das políticas de interesse dos cidadãos e cidadãs. O descuido desse item será fatal para as aspirações regionais, porque negará precisamente o que uma sociedade da informação e do conhecimento deveria fazer.
Do mesmo modo, submeter todo o sistema atual de representação política à rigorosa análise, produzindo proposições de efetiva mudança, tanto a favor da economia pública quanto da qualidade cultural das instituições. Assumir o projeto de revitalização regional como ação plena, culturalmente determinada por memória, parceria de saberes, rigor interpretativo e capacidade avaliatória dos novos passos.
Assim, a regionalidade aqui gestada se estenderá e poderá ser o novo nome da sociedade identificada por compromissos (ou contratos) sociais duradouros e eficientes. Lugar de cidadãos, não somente de agregados, moradores ou contribuintes.
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12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS