Sociedade

GILVAN E ACISA NUM
JOGO DE IMPRECISÕES

DANIEL LIMA - 05/02/2026

Duas notícias desta semana merecem atenção e reparo e podem contar com tratamento analítico único porque se encaixam perfeitamente numa configuração de insuficiências corretivas e, mais que isso,  resolutivas. Os protagonistas são o prefeito de Santo André,  Gilvan Júnior,  e o presidente da Acisa,  Evenson Dotto.  Acisa, como todos sabem, é o Clube dos Comerciantes e Prestadores de Serviços de Santo André. Tradicionalmente, com exceções, atua burocraticamente. Como todas as demais organizações semelhantes na região. E do Interior afora. Em muitos casos, verdade seja dita e redita, atuam essas entidades como linhas auxiliares dos prefeitos de plantão. O caro leitor não vai ler isso em lugar algum, porque conchavos não permitem que verdades sejam ditas, reditas e impressas.

Vou reproduzir as duas publicações de modo que o leitor vai entender o contexto. Primeiro, a breve reportagem publicada ontem no Diário do Grande ABC sob o título “Prefeito de Santo André defende indústria têxtil durante reunião em Brasília”. Leiam:

O prefeito de Santo André, Gilvan Ferreira (PSDB), esteve em Brasília, nesta terça-feira (3), para reunião no MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) com o secretário-executivo Márcio Fernando Elias Rosa. Ao lado de representantes da Rhodia, empresa sediada no município, o chefe do Executivo andreense reforçou a importância das medidas antidumping (mecanismo de defesa comercial) adotadas pelo governo federal para proteger a indústria nacional. Desde outubro, a medida criou uma sobretaxa para fios produzidos por empresas chinesas e comercializados no Brasil. O objetivo é garantir competitividade às empresas brasileiras do setor têxtil, entre elas a Rhodia, que recentemente anunciou investimento de R$ 100 milhões em sua planta localizada em Santo André. Durante o encontro, o prefeito destacou o papel da indústria no fortalecimento da economia local e na geração de empregos. “Viemos em defesa da indústria têxtil brasileira, em especial a Rhodia, que está sediada em Santo André e recentemente anunciou investimento de R$ 100 milhões. Santo André é líder em geração de emprego e renda justamente porque a gente defende as nossas empresas”, afirmou Gilvan Ferreira.

A Prefeitura de Santo André reforça que iniciativas como essa contribuem para garantir segurança econômica, fortalecer a produção nacional e ampliar oportunidades de trabalho e renda para a população. 

NOSSO CONTRAPONTO 

O prefeito Gilvan Junior tem seguido política de extroversão diplomática. Isso significa que participa de encontros políticos fora das quatro linhas dos gramados da região, especialmente do gramado sintético de Santo André. Está ligadíssimo na Frente Nacional de Prefeitos, entidade da qual virou dirigente. Já esteve com o Clube dos Produtores de Pneus e agora apareceu em Brasília para defender uma indústria do setor têxtil,  no caso a Rhodia. Também fez viagens internacionais. Dessas que se passam mais horas nos aviões e aeroportos do que em encontros frutíferos.

Tudo isso tem uma finalidade evidente, que consiste em buscar moldura que o coloque num patamar que fortaleça a imagem. Como se sabe, Gilvan Júnior é visto com desconfiança porque é jovem e não tem o que chamaria de apelo visual, gestual e retórico de uma tradição política que permita que se venda muito gato por lebre. O antecessor de Gilvan Júnior, Paulinho Serra, é o retrato escarrado da velharia política que Gilvan Júnior tem a felicidade de não repetir, embora, paradoxalmente, esteja em busca de algo semelhante. É um conto de fadas reverso que lembra um perfeito haraquiri para quem não suporta mais o modelo-padrão do político nacional.

De qualquer modo, nada do que Gilvan Júnior faça fora das quatro linhas  locais deva ser desconsiderado no contexto político nacional em que mais vale um passarinho de imagem nas mãos do que uma coleção de ações estruturais locais voando por incapacidade de execuções. 

MUITO A FAZER

Mas convém lembrar ao prefeito que há muito o que fazer internamente para dotar Santo André de medidas compensatórias à desindustrialização. Repetidamente,  os prefeitos de Santo André preferem medidas varejistas a partir do marco desafiador de Celso Daniel. A disposição de  aplicar medidas reformistas é simplesmente ignorada, quando não postergada e mistificada.

Um exemplo? O fracassado projeto Santo André 500 anos, de Paulinho Serra,  há mais de um ano virou sucata programática da gestão de Gilvan Ferreira. Poderia mencionar inúmeras situações que exigem um prefeito atuante no Município, decididamente influenciando relações internas, mas tudo entra como tapa-buraco.

Dou apenas um exemplo do muito que poderia ser feito: quando o prefeito vai botar a mão na massa e se dedicará à empreitada de ouvir representantes de pequenos  negócios para conciliar as dificuldades econômicas impostas pelo governo federal e os custos tributários municipais cada vez maiores? 

COMÉRCIO INVADIDO

Querem mais? Quando Gilvan Júnior vai rodar a baiana de aversão ao comodismo e botará o bloco na rua para um enfrentamento que se torna cada vez mais ameaçador –- a invasão do comércio eletrônico numa arena repleta de canibalismos de negócios em busca de sobrevivência?  Parece utopia? Bobagem. Falta mesmo é iniciativa a partir de estudos e planejamento.

Poderia sem nenhuma dificuldade produzir uma lista enorme, enorme mesmo, de desafios que estão aí na expectativa de que Gilvan Júnior e os demais prefeitos da região marquem nomes na história ao menos como agentes públicos preocupados com o futuro que sempre chega. Tudo isso no campo econômico.

Mas o que parece persistir mesmo, sempre com apoio midiático, são incursões pontuais em defesa apenas propagandística de interesses econômicos específicos, de grandes empresas, enquanto os empreendedores de pequeno porte mergulham em dificuldades gigantescas. É mais fácil vender a imagem de modernidade política, que não passa de adequação ao padrão exigido por marqueteiros, do que suar a camisa e botar a cabeça para pensar.

NOTA DA ACISA

ACISA repudia aumento salarial dos servidores do Legislativo. Enquanto cidadãos e empresários aguardam o corte das despesas públicas, o Congresso Nacional surpreende ao aprovar um aumento salarial que poderá exceder o teto constitucional. Com a medida, os rendimentos mensais de funcionários da Câmara dos Deputados podem chegar a R$ 77 mil, com impacto estimado de R$ 4 bilhões no orçamento federal. Outra distorção é a nova regra de benefícios, que prevê uma folga a cada três dias trabalhados. Caso o servidor opte por trabalhar no dia de descanso, haverá indenização por meio da criação de uma gratificação. Diante desse cenário, a ACISA – Associação Comercial e Industrial de Santo André – vem a público manifestar seu total repúdio à medida. “Nós, empresários, que geramos emprego e renda e contribuímos para o desenvolvimento econômico, não recebemos nenhum benefício por parte do governo, apenas novos tributos e o ônus de   conviver com a segunda maior taxa real de juros do mundo”, declara Evenson Robles Dotto, presidente da ACISA. A Associação Comercial espera que os deputados federais eleitos pela região do ABC estejam, de fato, trabalhando em favor de seus eleitores e que tenham se posicionado contrariamente a esse aumento de despesa pública.

NOSSO CONTRAPONTO

A iniciativa da Acisa (que poderia ser ação regional, combinada e muito mais impactante caso houvesse um mínimo de integração com entidades congêneres do Grande ABC repartido e individualista) é meritória,  mas soa oportunista.

A razão conclusiva é simples: até prova em contrário, há dezenas de anos que a entidade e tantas outras do setor empresarial do Grande ABC não fazem absolutamente nada para um enfrentamento muito mais importante: a gulodice tributária e as sinecuras na gestão de Recursos Humanos das prefeituras da região.

Como já provei em inúmeras análises, os gestores públicos do Grande ABC se especializaram neste século --  em contraposição burra ao processo de desindustrialização -- em aumentar vigorosamente a Carga Tributária Municipal. Cada vez mais os moradores e empreendedores do Grande ABC pagam o pato do esvaziamento econômico com medidas administrativas dos mandantes nos paços municipais.

A pergunta que faço do alto de minha teimosia que também é estupidez que também é idiotice que também é burrice: quando as entidades empresariais  que se dizem defensoras dos empreendedores da região vão arregaçar as mangas da autonomia em relação aos paços municipais e entrarão em campo para valer para uma vigorosa reação que permita mudanças significativas no ambiente regional de prostração completa?



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