Jamais imaginei que um dia, passados muitos anos de convicções consolidadas, não só admitiria como sugeriria que as redes sociais entrassem em campo para ocupar espaços do jornalismo profissional controlado, quando não submetido, aos donos do poder. A minoria de cafajestes que ocupam aplicativos de Internet não pode ser associada à maioria que, participante ou apenas voyeurista, preocupa-se silenciosamente com os acontecimentos.
Essa premissa, para entendimento dos leitores, deve ser enquadrada exclusivamente no território regional, embora pudesse ser transposta a outras plagas. A combatividade civilizada deveria ditar o ritmo da cidadania na região, mas, como se sabe e somente os desatentos negam, temos uma Sociedade Servil e Desorganizada incapaz de chegar ao intento proposto. Mas não custa plantar sementes da rebeldia bem-intencionada. Aliás, é o que pratico há 300 anos.
Tenho comigo que as campanhas explícitas e subliminares que deslocam os usuários de redes sociais a um único compartimento, de sumária desclassificação, não passam mesmo do canto do cisne de um modelo de jornalismo de cartas marcadas e audiência escassa.
QUEDA LIVRE
Pesquisas diversas já registram que o jornalismo profissional em qualquer plataforma mas sob o escravagismo de interesses específicos cada vez mais desmascarados está perdendo fôlego em forma de redução de audiência e influência.
Demonizar as redes sociais, atribuindo aos ocupantes do espaço digital a centralidade de fake news, por exemplo, é uma esperteza e tanto do jornalismo tradicional feito supostamente por profissionais intocáveis. Mas é uma esperteza cada vez menos suscetível à credibilidade.
A rivalidade estabelecida entre jornalismo profissional e sociedade consumidora de informação em redes está estabelecida. Polarização não é uma porção comportamental desprezível quando ganha forma de questionamento à ordem estabelecida por usurpadores da realidade.
O jornalismo dito profissional, ostensivamente contrário à democratização da informação (isso vale para todo o território do globo), sabe que já perdeu a guerra de concentração de poderes. Gostem ou não, têm de dividir a arena da opinião pública com todo tipo de praticante, inclusive os cafajestes. A barafunda está instalada? Claro que está. Mas o leitor prefere a barafunda com perspectiva de correções e mesmo punições aos excessos praticados por marginais ou a paz dos enganadores?
PAPEL PASSADO
Mesmo diante dessa nova situação posta no âmbito nacional, mas completamente amordaçada na região, essa realidade não arrefece a voracidade da mídia profissional na sanha de adulterar os fatos. E por serem profissionais na matéria, e contarem com a chancela de marcas consagradas pela tradição, que não é tudo em lugar nenhum, usam e abusam dos consumidoras de informação.
Aquela música de Chico Buarque é subjetivamente o lema do jornalismo profissional avesso à repartição do bolo de conquista dos leitores. Do alto da arrogância e do esnobismo, quando não do terror de ver as portas do monopólio arrombadas, os representantes da mídia tradicional buscam proteção na desordem das redes sociais, tratando-as como Genis. Uma desordem com evidentes desvios. Os amadores, em geral, desconhecem o ardiloso terreno dos profissionais ensaboados. Há mais de 20 anos escrevi o livro “Meias-Verdades”, com cases sobre as barbaridades da mídia nacional. As redes sociais nem existiam. Eram lixos produzidos pelo jornalismo profissional. De papel passado.
Somos a prova provada de duradoura experiência profissional em diversas plataformas de comunicação. Cada vez mais a divisão de fontes de informação ganha espaços digitais e fora do roteiro do jornalismo tradicional de papel.
MARGEM DE DESVIOS
O conhecimento acumulado me permite tomar atalhos de produtividade com reduzida carga de deformidades. Detecto com facilidade quem é quem no mundo sem fronteiras da comunicação. E, principalmente, encontro segurança no jornalismo profissional ainda resistente a injunções arbitrárias.
Mais que isso, e esclarecendo: quando se tem o domínio da característica conceitual do jornalismo profissional, é possível precificar a margem de erro de desvios.
Há alguns idiotas juramentados nas redes sociais que frequento no Grande ABC. Eles são a tipologia que fornece combustível de críticas da mídia tradicional quando se trata de pisar no pescoço da sustentabilidade informativa.
Entretanto, como geralmente ficam isolados nas intervenções, a conclusão evidente é de que a maioria silenciosa é muito mais apetrechada e atenta do que parece.
IGUAL, MAS DIFERENTE
Seria a glória a chegada do dia em que as redes sociais no Grande ABC contassem com engajamento participativo como exibem nas temáticas nacionais em intervenções calorosas. Quem observa alguns participantes revoltosos com o ambiente nacional subscreveria diagnóstico que os colocariam como portadores de esquizofrenia.
Situações iguais em ambientes distintos, municipal ou regional, e o nacional, são tratadas distintamente. Há uma sentença para cada situação. O político municipal que não passa de incompetente é glorificado, mas irmãos siameses na política federal ou mesmo estadual são massacrados. Dois pesos ideológicos e duas medidas oportunistas.
Teríamos uma reviravolta extraordinária no Grande ABC se as redes sociais locais fossem incandescentes. As questões locais ocupam o quarto de despejo e, em proporções gigantescas, sempre em defesa dos políticos de plantão. Sem contar, claro, com os sinais exteriores de vassalagem remunerada. Jamais os detentores de poderes no Grande ABC contaram com tantas vantagens protetivas.
Participo apenas de grupos e listas relacionadas a um aplicativo. Minhas listas de transmissão são restritivas. Os participantes foram selecionados durante anos. Eles são formadores de opinião e tomadores de decisões tratados individualmente. Já os grupos de terceiros são completamente públicos. Não sou administrador de nenhum.
O comportamento das duas turmas do WhatsApp é distinto. As listas que administro são mais produtivas e férteis. Os grupos de terceiros raramente contam com minha participação efetiva, exceto a remessa da produção diária editado na lista de transmissão.
RIVALIDADE INCOMODA
Para chegar à conclusão de que as redes sociais e congêneres devem ser incentivadas e depuradas pelos próprios participantes, rivalizando-se com o jornalismo profissional como fonte de informação, fiquei muito atento às transformações ao longo dos anos.
Nada, nadinha, me abala nas redes sociais, quando a origem são os bandidos sociais conhecidos. Eles consagram aqueles que os contrariam. Os colaboradores mais importantes estão mesmo nas listas de leitores mais longevos. Muitos me oferecem infinitas razões para seguir em frente. A confidencialidade e o respeito nos unem.
Prefiro estes tempos de jornalismo do que a fórmula impressa do passado presente no presente. A edição de um jornal diário ou de uma revista mensal sem a pressão da mídia digital submetida ao cheiro no cangote dos leitores era mais confortável, mas muito menos prospectiva.
Faço permanentes exercícios diários de resiliência. Muitas ideias brotam na medida em que meu voyerismo está ativo.
SEM CONTRADITÓRIO
O jornalismo profissional que combate frequentemente o mundo digital está cada vez mais distribuído em múltiplas plataformas. E no ambiente regional, vê-se em maus lençóis. Quando a sociedade acordar para a importância de valorizar o próprio quintal, teremos muitos templos de poderosos em chamas.
Essa perspectiva, convém ponderar, não parece muito próxima. O gataborralheiresmo prevalece. Talvez o processo seja lento e gradual.
Entretanto, qualquer avanço já é alguma coisa. Os dirigentes públicos e mesmo as representações econômicas do Grande ABC vivem num mundo sem contraditório. E, pior que isso, tocam trombones constrangedores. O ambiente político nacional os protege e, em muitos casos, os canonizam em pleno inferno regional.
Reconheço os obstáculos cada vez maiores enfrentados pelo jornalismo profissional em qualquer plataforma tecnológica. A barra está pesada. O financiamento pelo Poder Público de forma direta e indireta avacalhou a atividade. O comprometimento editorial chega a ser vexatório. O oficialismo é ultrajante.
Quando se junta a vontade de comer de financiamento editorial público com a fome do egocentrismo político, o resultado é ruinoso para a sociedade. Daí a importância de participar do processo de depuração coletiva dos fatos que, mal ou bem, as redes sociais estimulam.
UNANIMIDADE PREMIADA
O ambiente nacional polarizado e condenado é um contraponto mais interessante que a unanimidade burra e premiada, subsidiada e manipulada. Chegamos no Grande ABC a um estágio de desinformação tão acintoso que, recentemente, desisti de produzir um ranking devastador. Mostraria todas as meias-mentiras e mentiras-inteiras das administrações municipais na mídia regional.
Não demorei para chegar à conclusão que a avalanche seria uma loucura em forma de contabilização. As autoridades públicas locais, à frente das prefeituras, não economizam barbaridades que o jornalismo profissional coloca nas prateleiras da aberração.
As redes sociais que tratam principalmente da política nacional e dos desdobramentos econômicos e culturais são torcidas organizadas prontas para o combate. No Grande ABC, as redes sociais no tratamento às questões locais, são turmas que marcam encontro para assistirem a uma peça de teatro, com direito a uma saideira de chope antes de retornar.
Com raríssimas exceções, algumas almas penadas ousam apontar semelhanças entre o local, o regional, o estadual e principalmente o federal.
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12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS