Sociedade

Forma e conteúdo

DANIEL LIMA - 10/03/2005

É comum a distorção de tomar a forma pelo conteúdo. Há especialistas em dourar a pílula da forma para maquiar a flacidez do conteúdo. Não faltam também quem troque os pés do conteúdo pelas mãos da forma, por isso geralmente não é entendido. Sim, o sincronismo de forma e de conteúdo nos relacionamentos humanos é engenharia que nem todos estão preparados para aplicar.


Há os especialistas em dar forma a conteúdos execráveis. Falam com a mansidão dos monges. Não movem um músculo sequer da face. São espetaculares atores. Pena que o script geralmente seja enfadonho, superado, manjadíssimo de desculpas. Os incautos são capazes de canonizá-los como exemplares de equilíbrio emocional. Mal sabem que a frieza na articulação verbal e gestual é calculadamente o enredo de quem não tem mais nada a oferecer, exceto um jogo de cena que pode ser protagonizado até na sacristia sem que os anjos se sintam minimamente incomodados.


Os artifícios de quem sabe manipular como poucos a coreografia da sensatez, embora vazia, embora tola, são um predicado que não pode ser menosprezado. Ainda mais nestes tempos de estresse cotidiano, em que a fronteira entre o bem e o mal é estreita e difusa. Demonstrar nervos de aço nesses dias tumultuados passou a ser instrumental acriticamente valorizado, porque dispensa o conteúdo transformador, quando não revolucionário.
Chegamos, portanto, à idade da forma e à condenação do conteúdo que não consiga manter-se no enquadramento de figurino caricato, gélido, inautêntico.


Encontramo-nos, portanto, no auge da abstração e da subjetividade, em detrimento da essencialidade de transpor para o campo prático o conteúdo reformista, sobretudo quando é indispensável exercer com alguma dose de paixão o retrabalho que outros, geralmente professorais na forma e desastrados no conteúdo, deixaram por fazer.


Os protagonistas da forma, entretanto, não conseguem longevidade. O prazo de validade escasseia na intensidade dos resultados que fogem pelos vãos dos dedos da incompetência. Entretanto, mesmo que esse enredo insista em se reafirmar a cada temporada, nem sempre os portadores de conteúdo conseguem resistir porque contra eles há uma blitz organizadamente preparada para antagonizá-los às premissas de diplomacia eventualmente sacrificada em nome do bom senso.


Ter a consciência de que mais vale a estridência de um golpe possivelmente mal avaliado por terceiros do que o acovardamento de gestos e ações fidalgas para sustentar motivações obscuras, eis o grande desafio a todos que se propõem a ser diferentes em mundo pasteurizado de regras comportamentais.


As relações interpessoais e suas consequências de avaliação comportamental também sofrem alguns rescaldos influenciados por estes tempos de virtualidades internéticas que formalizam os diálogos, tornando-os assépticos. Há os fanáticos por emeios que transportam vícios de linguagem nos contatos pessoais.


Expressam-se em letras de forma. Uma maneira de manter os interlocutores a certa distância. Uma fórmula de anestesiar os diálogos, tornando-os extensão dos manuais de secretárias invulneráveis sequer a uma simples troca de letra, tal o cuidado com que movem as digitais.


Muitos ainda não perceberam, mas a forma escraviza o conteúdo, quando não o substitui, porque pelo menos temporariamente vale a pena fazer companhia aos confrades da mistificação. O problema é a sublimação do jeito em detrimento da essência. Saco vazio de conteúdo não se sustenta em pé pelo vento da forma.


Tudo bem que em certas ocasiões, principalmente públicas, onde a imagem está em jogo na forma e no conteúdo, cuidados redobrados devem ser tomados para que o politicamente correto não seja objeto de restrições inapagáveis. Ninguém tem o direito de exercitar em público a qualquer momento, sem que uma justificativa muito sólida o sustente, um insuportável mau humor, uma indelicadeza, uma irritação, um descarrego verbal, como se vê, por exemplo, de vez em quando no noticiário político e esportivo.


Mas que não se confunda jamais diplomacia com covardia. Sim, porque há momentos, mesmo em público, diante de circunstância excepcionais, em que a forma e o conteúdo podem e devem saltar acrobaticamente em semelhante intensidade. Até porque, só a forma, sem o conteúdo, ou o conteúdo de rebeldia, sem a forma, tornaria a operação rocambolesca.


Por isso, abaixo a hipocrisia da forma suave para sufocar o conteúdo libertador. Viva a forma e o conteúdo ajustados às circunstâncias inequivocamente justas.


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