Nem guerra fiscal de outros Estados, nem qualidade de vida comprometida pela criminalidade crescente, nem mesmo a mão-de-obra mais cara do País. Os inimigos mais perversos do parque produtor do Grande ABC chamam-se Porto de Santos e logística de transporte deficiente, na avaliação do ex-capitão de indústria Itiro Hirano. Um dos cinco irmãos que ergueram o império Nakata, de Diadema, Itiro afirma ter crença fabulosa no potencial da região. Mas é insistente em dizer que as oportunidades para reconduzir o Grande ABC ao palco nobre da economia nacional estão em Santos, no Rodoanel e, em plano também prioritário, no destino do lixo industrial.
“Se dermos solução a esses problemas pontuais, não tenho dúvidas de que teremos a segunda onda de industrialização do ABC e quem foi embora vai voltar” — exagera esse falante e simpático filho de imigrantes japoneses, que rompeu o pacto de silêncio de quase um ano e meio com a Imprensa depois que a família, como a maioria de quem comandou autopeças no Brasil, curvou-se ao capital multinacional e passou a empresa às mãos da norte-americana Dana.
Hoje à frente de outra organização familiar, a FSN Participações, de São Bernardo, Itiro Hirano recorre às grandes cidades do mundo que estão dentro ou próximas de terminais marítimos para sustentar a tese de que Santos, como porta da rota exportadora, e o Rodoanel, para romper o gargalo viário metropolitano rumo ao mercado consumidor do País inteiro, são o passaporte do desenvolvimento regional. São até, na sua visão, fatores determinantes no processo de qualificação que a indústria automobilística promove nas fábricas locais.
“Precisamos tornar Santos mais competitivo e à altura de sua importância ao servir ao maior Produto Interno do País, o Estado de São Paulo, que produz 46% das riquezas brasileiras. Para o Grande ABC, contar com um terminal barato, eficiente e moderno é crucial” — opina Itiro Hirano. Como superporto, o maior da América Latina ao movimentar 38 milhões de toneladas no ano passado, Santos perde para estruturas menores como Sepetiba (RJ), Rio Grande (RS) e Paranaguá (PR). Mesmo privatizadas por meio de arrendamento dos terminais para particulares, as operações em Santos são consideradas caras — R$ 153 cada contêiner, para R$ 103 de Paranaguá, por exemplo –, além de uma das três mais perigosas do mundo em pirataria.
Itiro Hirano acha Santos estratégico. Reprova inclusive a comparação do Grande ABC com a outrora capital mundial do automóvel, Detroit, justamente devido ao diferencial marítimo. A posição geográfica do Grande ABC impediu que chegasse ao fundo do poço como Detroit, a seu ver, porque a cidade norte-americana está longe de um porto. “Desde os vickings, as grandes conquistas se dão pelo mar” — compara. “Não adianta produzir riquezas se não temos como escoar” — sustenta, ao atribuir igual importância ao anel viário de 162 quilômetros que circundará e ligará a Grande São Paulo a 10 rodovias paulistas e que se conectará na região ao sistema Anchieta-Imigrantes.
O destino do lixo industrial é o terceiro elo que deveria mobilizar Poderes Públicos para não quebrar a corrente de confiança de quem aposta no Grande ABC. Do alto de 63 anos de idade e rica vivência empresarial, Itiro Hirano considera até insulto aos empreendedores da região não dispor de locais adequados para o lixo, principalmente o de alta toxidade. “Sofri muito na Nakata. Tinha de embarcar todo meu resíduo para o Espírito Santo, onde o preço de US$ 400 a tonelada incinerada é simplesmente a metade do da região” — relata.
Dizendo-se adepto de receita que tempera a disciplina e humildade dos orientais com a criatividade e jogo de cintura dos brasileiros, Itiro cobra as autoridades do Grande ABC pela demora em criar uma coordenação entre Poderes Públicos e iniciativa privada, algo que só agora começa a ganhar forma com instâncias como Câmara Regional e Consórcio de Prefeitos. Faltou às prefeituras relação mais íntima com os empreendedores, sobretudo os de grande porte, que dão o tom dos negócios regionais, afirma. “Empresário é como alguém adoentado. É carente, quer carinho, quer apoio e atenção do Poder Público” — entrega Itiro.
“Muitas vezes os prefeitos se relacionaram otimamente com pequenas empresas, mas se mantiveram distantes dos planos das grandes. Só agora as prefeituras criaram secretarias de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio. E o que precisamos é de secretários que entrem pela porta da cozinha, sem cerimônia, com parceria suficiente para dizer: preciso de 10 ambulâncias para a cidade. O que você está precisando? Quer que limpe a rua, desobstrua uma área, traga linha de ônibus para facilitar o acesso de seus funcionários? É uma barganha saudável, porque facilita a vida das empresas e tem reciprocidade com o Município” — ensina.
A ausência de relacionamento mais profundo com o parque produtor seria um dos motivos da evasão industrial. Segundo Itiro Hirano, o Grande ABC dormiu na cômoda posição de sediar o maior polo automotivo do País e somente acordou com o barulho do caminhão de mudança das grandes fábricas. “Só que as indústrias não cochilaram. Estiveram sempre acordadas para a redução de custos, para o cerco da concorrência externa. Como outras regiões e Estados não tinham um polo exuberante como o nosso, estavam sempre alertas para atrair empresas” — interpreta.
Itiro Hirano desaprova a guerra fiscal por comprometer orçamentos públicos, mas compreende a conduta dos governantes. Investimentos externos são desejados por qualquer localidade interessada em deixar a periferia do mundo.
O caso Ford-Bahia é, para ele, emblemático. Mesmo mais enxutas e menos empregadoras, as novas montadoras irradiam tecnologias mais avançadas e movimentam riquezas por arrastar autopeças, bancos, escolas, serviços, turismo e toda uma cadeia geradora de emprego e renda. Cita a mineirização promovida pela Fiat, a curitibação e agora a baianização automobilística. Acha, entretanto, que há munição para contra-atacar: “Já que optamos por não entrar na guerra fiscal, temos de sublinhar os itens sedutores: um porto no nosso quintal, a chegada de um anel viário de Primeiro Mundo para receber e escoar produção, a vizinhança com o maior centro consumidor do País, escolas de nível e a proximidade com outros polos paulistas de ponta, como Campinas e São Carlos” — cita.
Itiro Hirano acredita que a mão-de-obra cara, na maioria das vezes o dobro do custo de outras localidades produtoras, deve ser encarada no seu aspecto positivo: é também a mais especializada do País e se enfileira ao lado dos pontos sedutores do Grande ABC, supõe. Segundo ele, a evasão industrial deve-se menos ao custo trabalhista e mais à guerra fiscal milionária de outros Estados, que inclui terrenos e infraestrutura gratuitos.
O adensamento urbano das cidades cosmopolitas não tira o sono de Itiro Hirano. A escala de valores que mede a qualidade de vida tão festejada neste fim de milênio só falha na região, a seu ver, na questão da violência. Ele não acredita que se viva bem no Interior ou em cidades pequenas apenas devido à menor incidência da criminalidade e que isso tenha sido um dos pontos decisivos para a fuga do Grande ABC.
“Cidades como Londres, Paris e Tóquio passaram pelo caos no trânsito, pela periferização e por ondas de violência. Esses problemas estão acentuados no Brasil porque as grandes cidades crescem em moradores e em frota de veículos, algo que outras metrópoles mundiais já vivenciaram e só melhorou porque a população na Europa, por exemplo, parou de crescer”. De resto, na sua visão, é nas metrópoles que se tem melhor oportunidade de emprego e salário, mais equipamentos urbanos, de lazer e culturais, além de maior disponibilidade de bens de consumo.
Filho de imigrantes japoneses que lavraram terras no Paraná quando chegaram ao Brasil, Itiro Hirano acha até interessante para o País a descentralização industrial, como meio de espalhar melhor o emprego e a renda. A globalização econômica, para ele, era processo inevitável. Derrubou mais intensamente empresas brasileiras, em particular as autopeças, porque não vislumbraram o alcance do fenômeno e não se prepararam, interpreta.
Enquanto as multinacionais — precursoras da economia sem fronteiras — há décadas davam o tom de novos processos de gestão e produção, o Brasil continuou acalentando o sonho do Estado grande com a estatização e cercando o território para organizações domésticas tipicamente familiares, porém desatualizadas. O mercado fechado, assim, teve mais aspectos negativos do que a aparente defesa dos interesses nacionais, a seu ver.
“Alguns brasileiros mais atentos farejaram o crescimento e o agrupamento de empresas em corporações, que não é coisa de agora. Há muito tempo as fusões ocorrem lá fora. Quando se olha para Sony, Toshiba e Honda, vê-se que foram famílias que se anteciparam ao jogo global e profissionalizaram as estruturas. Fomos pegos de calças curtas porque não nos preparamos, porque nosso mercado estava fechado. Não escapou ninguém. As grandes autopeças tiveram de se associar às gigantes internacionais e as pequenas de estrutura familiar foram simplesmente engolidas pela absorção do controle acionário por quem detinha mais capital e mais tecnologia. A Nakata só sobreviveria dessa forma” — expõe Itiro, que se mantém fiel ao pacto de silêncio entre os irmãos e não revela valores de negócios.
Especula-se que pelas três fábricas da região e uma em Buenos Aires, responsáveis por 65% do mercado de peças para suspensão e 15% do de amortecedores, a Dana tenha tirado do bolso R$ 40 milhões pela Nakata.
O capital estrangeiro domina hoje 70% do setor, segundo últimos levantamentos do Sindipeças. Itiro divide a responsabilidade da invasão entre o despreparo do empresariado brasileiro e o governo, que abriu o mercado de forma violenta ao jogar as alíquotas de importação do setor para 2% e impedir um período de transição.
Antes disso, também o governo foi culpado pela não consolidação do Brasil como um centro de desenvolvimento de veículos, reduzido a importador de modelos concebidos nas matrizes automotivas. Faltou apoio à pesquisa interna, diz Itiro, e só recursos públicos para empresas brasileiras fariam frente aos maciços investimentos das multinacionais. Foi por falta de apoio oficial que não vingaram os projetos de veículos nacionais da Gurgel e Agrale, cita.
Também pesou, na sua opinião, a visão equivocada do governo de encarar o Brasil sempre como potência agrícola, relegando a industrialização a plano secundário durante anos estratégicos.
Itiro Hirano concorda, porém, que, não fosse por uma política de choque na abertura comercial, o empresário brasileiro não se mexeria. “Continuaríamos a ser sem vergonha, sem dar valor para o mercado interno, para o trabalhador e para o produto feito aqui” — dispara.
O ex-comandante da Nakata já praticava a retórica da modernização com sua bandeira de investir no funcionário como parceiro. Desde 1968 em Diadema, dentro da arena do movimento sindical mais combativo do País, a autopeça nunca enfrentou greves porque exercitou o diálogo e valorizou funcionários com cursos e capacitação.
Em 1994, quatro anos antes de ser absorvida pela Dana, a família concentrou-se no Conselho de Administração e os cargos de comando passaram para executivos profissionais. Com a globalização nos calcanhares, o objetivo era tornar a Nakata palatável, nas palavras de Itiro, a um sócio ou novo dono sem que a empresa e quadro de 1,3 mil funcionários sofressem danos.
Até agora não há notícias de dança de cadeiras. Sucumbiu, entretanto, o cinematográfico jardim oriental com espécies raras de Bonsai cultivadas por jardineiro exclusivo. Itiro Hirano conseguiu salvar as aves e outros animais que criava soltos na imensa área verde, doando-os para o minizôo de São Bernardo.
O alto preço do desemprego pago à nova ordem econômica mundial, com enxugamento de estruturas físicas e de vagas, poderia ter sido amenizado, segundo Itiro, se o País tivesse preparado um colchão de serviços públicos e a modernização do setor terciário para absorver a exclusão da massa de trabalhadores das indústrias.
Também pesou no cenário recorde de desemprego no Grande ABC o baixo índice de escolaridade da população adulta cortada das fábricas. “Bons empregos continuam a existir. Não temos tanta gente capacitada para assumi-los” — constata o empreendedor, para quem o governo também falhou na demora dos programas de reciclagem e requalificação para ocupações que exigem menos capacidade intelectual.
Itiro Hirano afirma que as autopeças que não interessaram ao capital multinacional para serem players como sistemistas ou subsistemistas — que trabalham direta ou indiretamente nas montadoras — terão de se contentar em compor o baixo clero, como fornecedoras das fornecedoras ou do mercado de reposição. Itiro não despreza esses nichos e avisa que também são exigentes na qualidade e pontualidade. Há estudos que indicam que o mercado de reposição brasileiro é o segundo maior do mundo, só perdendo para o México.
Aliás, para fabricantes de peças isoladas que não estão no quintal das automotivas ele recomenda a mesma profissionalização e modernidade de processos: investir em pesquisa, quebrar paradigmas, inovar, motivar o funcionário como equipamento mais importante da empresa e não ter qualquer preconceito ao capital estrangeiro. “A mentalidade deve ser globalizada entre grandes e pequenos empreendedores, entre funcionários do chão de fábrica e de cargos de gerência” — ensina, ao dizer que não são salários fabulosos que medem a valorização de uma empresa à equipe, mas as oportunidades de reciclagem, qualificação e ascensão profissional que cimentem a empregabilidade dos trabalhadores. Isto é, deixá-los sempre preparados para o mercado, algo cultivado na Nakata desde a fundação em 1952, ao desenvolver planos internos de carreira.
Já para as sistemistas, que somam de 20 a 30 nomes em âmbito mundial, Itiro vislumbra grande poder de barganha. A concentração de fornecedores em reduzido número os tornará capazes de virar o jogo onde até agora as montadoras reinaram absolutas ditando regras e preços. “Para se vender, é preciso ter produto bom, barato e poder de comercialização. E poder na sua essência: como fornecedoras globais, dificilmente as montadoras deixarão de comprar. Os sistemistas, escreva aí, vão acabar dando as cartas” — profetiza Itiro Hirano, que fez fama pelas brigas por melhores preços junto às automobilísticas.
Recolhido aos afazeres mais amenos da FSN, que empresta o nome dos patriarcas e fundadores da Nakata, Fukuichi e Sue, Itiro diz que ainda não colocou a leitura em dia, sobretudo de clássicos da história e da geografia mundial que aprecia. A filha Cláudia, de 29 anos, é seu braço de apoio na empresa de participações e o filho Oston, de 27, toca os negócios de consultoria financeira instalados em São Paulo.
Uma casa recentemente adquirida em Campos do Jordão ajuda a descarregar energias acumuladas. Também a neta única, Mariana, de cinco anos, ocupa os momentos de entretenimento. Itiro Hirano não tem em mente desafios como o do colega Abraham Kasinski, ex-big boss da Cofap que recomeça a vida empresarial com uma fábrica de motocicletas. Planeja algo menos exigente, como transmitir sua experiência em palestras a associações de jovens empresários ou pequenos empreendedores familiares.
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18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL