O conceito de assassinato social tendo como alvo o namorador de Alphaville é uma obra-prima de rejeição à multilateralidade de informações que tem como centro de operações o Fantástico, da Rede Globo. Os 14 minutos devastadores na última edição do ano passado, em seguida à publicação na coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S. Paulo, sintetizam o encontro do sensacionalismo com o autoritarismo midiático. Técnicas da dramaturgia televisiva foram utilizadas para uma condenação sem materialidade de provas e com cores sombrias de retaliação passional. Este é o sétimo capítulo de uma série especial que ainda vai longe.
Saul Klein foi massacrado. Os telegráficos contrapontos do advogado de defesa, André Boiani, cumpriram rito de formalidade instrumentalizado como pretenso apetrecho de respeito às partes envolvidas.
A encenação de que os raros e breves apartes do advogado André Boiani cumpriam método sustentável de contra-argumentação é um velho truque que disfarça a quebra de regras éticas e técnicas estabelecidas pela liberdade de imprensa. É uma conversa mole dos oportunistas para boi de piranha dormir.
Pauta rigorosa
A pauta executada com rigor poucas vezes destinado a bandidos juramentados, porque há atenuantes em nome dos Direitos Individuais, não deixou margem a dúvidas: a ordem deliberadamente autoritária ou desastradamente imatura da reportagem e da edição delineava que Saul Klein deveria ser abatido sem dó nem piedade. O assassinato social se consumou.
Mais que o assassinato social implícito e explícito, respirava-se a hipótese de se abrirem as portas a uma deliberação subjacente no inquérito frágil e inconsistente comandando pela promotora criminal Gabriela Manssur: criar um ambiente propício à prisão preventiva do namorador de Alphaville. Chegasse a tanto, o circo de horrores venderia muitos ingressos aos sedentos por sangue.
O homem que ama amar as mulheres por algumas noites ou várias noites seguidas, sempre aos fins de semana, virou um monstro abominável no Fantástico. Chegou ao extremo a condenação o uso de ambiente artificialmente dramático em torno do caso, em combinação com a narrativa de uma ex-namorada do suposto aliciador e estuprador. Repetiu-se com ares impiedosos a engenharia das melhores produções novelescas da casa. O Fantástico virou um tribunal de exceção de regimes sanguinolentos.
Devorador sexual
A mesma pressa que fermentou dias antes a impiedosa abordagem da Folha de S. Paulo, antecipadamente distribuída pelo UOL, reproduziu-se na Globo. A versão única de um inquérito que somente agora começa a ser investigado por quem historicamente entende do assunto, no caso a Polícia Civil, emparedou a ética jornalística naqueles 14 minutos explosivos.
A imagem que o Fantástico construiu do namorador de Alphaville nos minutos metralhadores de apresentação remetem a um devorador sexual de mulheres, agressor continuado e também potencial pedófilo. Os telespectadores foram introduzidos à imaginação fértil de que João de Deus e Roger Abdelmassih ganharam forte concorrente em monstruosidade.
A grande distância que separa um caso dos outros é que tanto o primeiro quanto o segundo são narrativas baseadas em fatos comprovados. Saul Klein – e o tempo vai provar – foi uma presa fácil de quadrilheiros. Sim, quadrilheiros que, apeados do poder de roubar seus dinheiros em forma de controle total de ações de um homem prolongadamente vítima de depressão, decidiram chantageá-lo. Quando a fonte secou, reagiram.
Esquema criminoso
Ana Paula Santos, a Ana Banana, faz parte desse esquema criminoso, como ponta de lança de uma agência que atua na indústria do sexo em São Paulo. Ana Paula tornou-se ao longo dos anos uma inimiga íntima de Saul Klein. Disfarçada de namorada do namorador de Alphaville. Por trás dela havia uma mulher meticulosamente ambiciosa. É claro que o Fantástico ignorou tudo isso e muito mais.
Os dois pontos principais da condenação tácita do Ministério Público Estadual -- aliciamento e estupros -- ganharam as páginas da Folha e a tela da Rede Globo, mas jamais se consolidaram materialmente no Fantástico, como na Folha também.
A dramatização calculadamente orquestrada para pintar de diabo o namorador de Alphaville foi uma extensão da narrativa de Ana Paula Santos, a Ana Banana, uma das protagonistas do Caso Saul Klein.
Fonte desclassificada
Quem acompanha esta série já conhece algumas particularidades comportamentais de Ana Banana. A principal é que é uma ex-namorada inconformada com o rompimento com o namorador de Alphaville. Há outras situações que a colocarão em sérios embaraços.
Ana Banana ganhou foro de personificação da verdade absoluta no inquérito do Ministério Público Estadual e foi catapultada às mídias como centro de credibilidade. O segredo de Justiça foi rompido por alguém interessadíssimo, ou interessadíssima, em demonizar Saul Klein. A relação informal entre jornalistas e autoridades criminais não quebra a legitimidade da atividade de comunicação.
Entretanto, insere-se em determinadas situações como tipificação de algo pecaminoso, sobretudo quando as informações são parcialmente, quando não seletivamente, divulgadas. No caso, os buracos investigatórios condenaram o inquérito à sumária recomposição da Delegacia de Polícia das Mulheres de Barueri. A aceleração desprovida de contraditórios do inquérito montado pela promotora criminal Gabriela Manssur já passa por aferições policiais que seguem o figurino do Código de Processo Penal.
O inquérito ministerial separou arbitrariamente o que seria joio do trigo sem levar em conta a identificação e a especificação de quem é uma coisa e de quem é outra coisa.
Comandando o Fantástico
Ana Banana está longe de ser qualquer coisa que lembre pureza e confiabilidade. Saul Klein é um namorador confesso. O dinheiro é dele. Sem provas materiais, qualquer acusação que o coloque como aliciador e estuprador não passa de fraude. Quanto a namorar uma ou muitas mulheres, é um direito individual inalienável. Tanto quanto quem prefira outras parcerias de gênero.
O Fantástico, assim como a Folha de S. Paulo (e subsidiariamente o UOL) cometeram o delito de atropelar a realidade estrutural dos fatos. Preferiram a superficialidade acomodatícia. Quando uma questão, qualquer que seja, contempla as cores vivas de assassinato social sem materialidade, não há ação jornalística. Há subalternidade a fontes nem sempre preparadas e isentas.
A ausência de critérios editoriais para tornar a narrativa do Ministério Público Estadual minimamente verossímil está caracterizada como aberração no protagonismo de Ana Banana. Essa mulher que escreveu várias cartas de amor ao namorador de Alphaville -- e que se sentiu frustrada ao ser rejeitada – comandou o Fantástico. Ela apareceu o tempo todo com máscara ou com a imagem facial difusa.
Imagem de heroína
Mais que o repórter escalado à operação, Ana Banana atuou como espécie de âncora da reportagem. É claro que, por conta de segredo de justiça, não foi identificada nominalmente. Como se fosse impossível juntar as peças faciais e vocais da mesma mulher que, em setembro (e este será um capítulo específico) foi ao Instagram para acusar Saul Klein inclusive de responsável pelo suicídio de uma das mulheres que frequentou o domicílio de Alphaville.
Ana Banana e a promotora criminal Gabriela Manssur aproximaram-se à construção do Caso Saul Klein. O projeto Justiceiras, comandado pela representante do MP, está na raiz das revelações unilaterais. Gabriela Manssur parece não ter se preocupado em conhecer a informante Ana Banana. O inquérito policial será demolidor.
Será complicado aos crentes na história de heroína de Ana Banana quando começarem a aparecer em forma de inquérito policial as artimanhas comandadas por ela. Não faltam testemunhas formais em defesa de Saul Klein.
Uma operadora oculta
Mais que isso: não faltam provas documentais, como mensagens de aplicativos e áudios, que colocam Ana Banana em situações delicadas. Tratada como protetora de meninas inocentes, Ana Banana ultrapassava os limites da intermediação dos trabalhos em Alphaville e em Boituva para colocar ordem na casa ante tantas mulheres na fila para conviver com Saul Klein. Tudo em nome de uma empresa de eventos comandada por Marta Gomes da Silva. Uma profissional em selecionamento de mulheres que ganhará muito espaço nesta série.
O mais contraditório na constatação de que o Fantástico atuou como torniquete criminal do namorador de Alphaville é que o material jornalístico não oferece aos telespectadores uma imagem sequer que passe pelo crivo de um inquérito policial como peça incriminatória. Distante disso.
As dramatizações comprovam a ausência de materialidade. E as imagens reais de um Saul Klein aparentemente dopado de remédios, como esclarecem várias testemunhas já ouvidas pela Delegacia da Mulher de Barueri, revelam um homem completamente inofensivo.
Mais que isso: as mesmas imagens de uma das festas patrocinadas pelo namorador de Alphaville são também uma contradição que reforça a linha de inocência do anfitrião. O que se vê, mesmo com imagens desfocadas para preservar a identidade das mulheres, é um ambiente de confraternização. Nada que lembre o ataque de um serial sexual, como apontou o Fantástico o tempo todo.
Portanto, enquanto não há um registro de gravação em áudio ou visual que dê corda ao enforcamento criminal de Saul Klein, o Fantástico cometeu o suicídio ético diante dos mais atentos observadores ao tornar a narrativa dissonante quando confrontada às imagens.
Síndrome coletiva
No fundo, isso pouco interessa a quem pretendia mesmo levar a imagem de Saul Klein ao esgoto em forma de aliciador e estuprador compulsivo. Houve tanta inabilidade na condução das reportagens, tanto da Folha quanto do Fantástico, que não se compreende como não se levantou uma voz sequer de alerta à narrativa do inquérito do Ministério Público. Entre as 14 supostas vítimas de Saul Klein, muitas deram conta de que havia muito tempo mantinham relações com o homem que adora namorar mulheres, ou seja, à negação das alegações do próprio MP.
Ante tamanha contradição, só restaria mesmo a psicologia como tentativa de salvar a pátria de patetices encampadas pela Folha e pelo Fantástico, recorrendo-se à Síndrome de Estocolmo, que, em resumo, leva a sequestrada a enamorar-se do sequestrador.
Homem muito especial
Fosse verdade, Saul Klein seria um caso especialíssimo, porque viveria no mundo real a pele de predador sexual tão sedutor que levaria as mulheres à loucura a ponto de as transformar em namoradas doentias. A tese em contrário, de que receavam retaliações se revelassem supostas violências sexuais, conforme consta do inquérito do MP, também não resiste a investigações.
Sabe-se que, no caso específico de Ana Banana, produziu-se um laudo que atestaria ter sido ela vítima da Síndrome de Estocolmo. Tudo para sustentar a tese de que o namorador de Alphaville era mais que namorador. Era aliciador e estuprador.
Duas dezenas de jovens mulheres já se manifestaram em defesa do namorador. Todas as que estão em linha oposta e que se dizem seduzidas à força por Saul Klein saíram de apontamentos de Ana Banana. Apontamentos é uma forma de dizer que Ana Banana dispunha de anotações com o nome de mais de 50 mulheres arregimentadas por ela mesma para servir Saul Klein em forma de companhia e eventuais finalmentes sexuais. Uma lista cor-de-rosa que Ana Banana organizou e gerenciava.
Pois é essa mesma Ana Banana a fonte de informações do Ministério Público Estadual. E da carnificina da mídia.
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12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS