Sociedade

A cultura do “não”

DANIEL LIMA - 16/08/2007

Disse outro dia numa reunião corporativa algo que jamais havia sequer imaginado didatizar. Foi coisa de momento, instigado por questionamento sobre determinado assunto. Disse com todas as letras:


“A cultura do “não” é uma erva daninha”.


Agora vou além, porque acho que o assunto interessa a todos, independentemente do ambiente — de negócio, social ou familiar. O “não” é um convite ao convencionalismo, à preguiça, ao lugar-comum. Ao deixa-como-está-para-ver-como-fica. Ao não-me-toques. Ao time-que-está-ganhando-não-se-mexe. Ou ao time-que-está-perdendo-por-um-perde-por-10.


A cultura do “não” é a cultura do empobrecimento intelectual que conta com a suposta salvaguarda do conceito de que o melhor-ataque-é-a-melhor-defesa.


A cultura do “não” é o fundamentalismo permanente, o fatalismo inviolável. É um convite à mediocridade.


O “não” deve povoar nossa mente como dispositivo de suporte para ejetar o “sim”. Não que o “não” tenha de ser necessariamente sempre metabolizado e virar “sim” a todo custo, porque há situações tão esdrúxulas que convidam ao “não” perene, ao “não” imutável, ao “não” inquebrável. Mas são situações-exceção, que confirmam a regra.


Geralmente o “não” é uma porta fechada à criatividade, à resolutividade, ao desafio, sem sequer deixar espaço do buraco da fechadura para a curiosidade do teste gradual.


Dizer “não” e ponto final é como acreditar que o almoço de ontem no restaurante de ontem será sempre igual no dia seguinte. Só permanecerá sendo “não” se nada for possível para mudar. Se não se apresentarem janelas de modificações.


Convém o leitor fazer avaliação permanente do modus operandi da rotina que o mantém ocupado em qualquer tipo de atividade. Do trabalho e do lazer. De tudo. Repare quantas vezes diz “não” para o interlocutor. Aquele “não” é sábio ou acomodatício?


Se o “não” for enfaticamente verbalizado antes mesmo que o questionamento ou a sugestão seja complementada, é sinal de que está impregnado de uma doença contagiosa — a doença do autoritarismo, que é muito mais comprometedora que o “não” macunaímico.


Só cometem pecado maior do que os frequentadores do cubículo do “não” quem tem por costume, a qualquer intervenção de terceiros, a qualquer toque de atenção, a qualquer possibilidade de mudança, a qualquer movimentação diferente do cotidiano, a qualquer ensaio de inovação, a qualquer mobilização grupal, praticar o haraquiri de dizer o “sim” acrítico, o “sim” entreguista, o “sim” delituoso do politicamente correto, o “sim” da vaselinagem improdutiva.


Abaixo, portanto, o “não” e o “sim” acríticos. Não se constroem relacionamentos no piloto automático de vieses de enraizamento que apenas Freud explicaria.


O melhor colaborador de uma empresa, em geral, é quem rejeita o “sim” ou o “não” que lhe pareça inviável, inadequado, inútil.


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