Sociedade

Individual e coletivo

DANIEL LIMA - 15/06/2009

Um dos prazeres na coordenação geral do Prêmio Desempenho era acompanhar a votação dos Imortais do Grande ABC. A participação dos conselheiros editoriais sempre foi interessante. Eles próprios apontavam parte dos concorrentes. Eles próprios votavam nos concorrentes. Em média, mais de 200 indicados eram colocados por edição na arena da preferência de mais de duas centenas de cabeças diferentes que representam a classe média da região.


Eventuais erros e acertos devem ser creditados e debitados ao colégio eleitoral. Creio que eles acertaram muito mais do que eventualmente erraram. Era praticamente impossível ou pouco provável que alguém que não merecesse estar entre os primeiros convencesse tantos conselheiros a sufragar-lhe votos, porque a contagem de pontos obedecia a critério semelhante ao da Fórmula-1.


Confesso que chegava a torcer, nas etapas decisivas de cada categoria, para determinados candidatos. Nem sempre o resultado final me agradava, mas como não mandava patavina, me mantinha calado. Jamais fiz mesmo confidencialmente qualquer tipo de comentário sobre os escolhidos que não eram de minha admiração.


A eleição dos Imortais do Grande ABC compensava em parte a tristeza de ver esse conglomerado de sete municípios espatifar-se nos obstáculos do coletivismo. Reunimos brilhantes personagens em atividades diversas, mas somos incapazes de agrupá-las para valer em torno de objetivos em comum que ultrapassem as fronteiras do corporativismo econômico, sindical, social ou cultural. Pagamos muito caro pelo individualismo. Nosso coletivismo, quando aponta o nariz sobre as águas da inércia, geralmente é uma farsa.


Foram muitas as vezes em que sugeri a incorporação de um Conselho Consultivo no organograma do Clube dos Prefeitos, mas devo confessar que uma pontinha de preocupação sempre me dominou. Será que os eventuais reforços chamados para amalgamar a pobre regionalidade do Grande ABC não seriam neutralizados pela força do Estado, no caso dos municípios?
Teriam eles papéis relevantes no apontamento de prioridades regionais? Seriam eles de fato ouvidos nas reuniões ou se prestariam somente a dar ares democráticos a uma instância fechadíssima?


Um dos motivos de o Fórum da Cidadania naufragar depois de surgir como a salvação da lavoura regional em meados da última década do século passado foi a cooptação de algumas lideranças pelo Poder Público. O Fórum da Cidadania surgiu como a convergência dos opostos tendo o consenso como evangelho, mas contraditoriamente elegeu o Poder Público como inimigo a ser combatido. Não faltaram reações em surdina para desalojar a instituição do pedestal que galgou nos primeiros tempos. Muitos dos que debandaram fizeram de caso pensado. O Fórum da Cidadania foi um instrumento para valorização do passe. Outros saltaram para o outro lado do rio porque viram nessa possibilidade, pós-morte do Fórum da Cidadania, uma forma de contribuir com a regionalidade.


Não temos cultura de participação regional e dificilmente chegaremos a esse estágio porque os personagens que poderiam patrocinar essa empreitada vivem intensamente o ambiente municipal por si só já complicadíssimo por conta do jogo político-partidário inerente da atividade pública e cada vez mais contaminador de setores sociais impregnados pelo pensamento municipalista. Mais ainda: há a predominância de interesses pessoais e de interesses corporativos em larga escala entre os protagonistas das principais instituições municipais da região.


Ou seja: além de ter de se livrar das amarras municipalistas carregadas de bairrismo opositor ou no mínimo indiferente aos demais municípios locais, os agentes que poderiam fazer a diferença no Grande ABC carregam o sobrepeso de duas armaduras que dificultam os passos em direção à liberdade extra-municipal: o interesse de classe ou de categoria e, sobretudo, a medição cuidadosa do que eventuais passos poderiam significar de prejuízos pessoais. Pouquíssimos têm peito para colocar alguma coisa na reta quando reta no caso é uma metáfora, apenas uma metáfora.


Provavelmente por não ter nascido no Grande ABC (um pecado capital para os buldogues que se acham donos do pedaço) e por ter residido em três dos municípios locais, não tenho o viés municipalista em minhas veias e muito menos em minha mente. Não consigo pensar apenas como morador de São Bernardo que sou, depois de morar em Santo André e também em Mauá. Penso como cidadão do Grande ABC. Até no campo esportivo, o tempo acabou me levando para uma torcida regional, dos times locais. O Santo André está mais próximo do peito, mas os demais não estão longe. Na economia, na política e na cultura, sou militante irrevogável do Grande ABC Sociedade Ilimitada, do Partido de Reconstrução do Grande ABC e da Associação Cultural do Grande ABC.


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