Sociedade

Lembrando Milton Andrade

DANIEL LIMA - 02/12/2009

A morte do multicultural Milton Andrade jamais colocará um ponto final na carreira de quem tanto dignificou o sentimento de cidadania e regionalidade. Muito mais que isso: esse brilhante profissional ajudou a mostrar a céticas platéias extra-muros que não somos apenas (ou fomos no passado) apertadores de parafusos, com todo o respeito que a atividade ligada ao passado industrial do Grande ABC merece. Também contávamos e contamos com cérebros.


As lembranças que tenho de Milton Andrade são inúmeras, mesmo sem ter tido o prazer de conviver com ele o mínimo necessário. Teria muito a ganhar se de vez em quando tirasse umas horas para conversar com esse agitador cultural. Mas não estou sozinho na orfandade, porque nenhum agente de comunicação terá tido intensidade informativa para analisar Milton Andrade sem cometer o erro da subestimação. Por isso, o faremos dentro das possibilidades que nos restaram.


Para começar, reproduziremos na Editoria de “Sociedade” um texto maravilhoso de Malu Marcoccia, publicado na edição de janeiro de 1998 na revista LivreMercado (não confundir com a “Deus me livre” destes últimos tempos, sob o comando do recuperador de impostos Walter Sebastião dos Santos).


Sob o título “Um polivalente cultural”, Malu Marcoccia mostra com clareza a diferença entre jornalista de fato e de direito e jornalista apenas de fachada. Uma profissional à altura do entrevistado, diria.


Um outro texto que recuperamos e expomos à saciedade dos leitores foi escrito do próprio punho por Milton Andrade e integra o livro “Nosso Século XXI”, Versão 1, lançado em dezembro de 2001 num completamente lotado Clube Atlético Aramaçan.


Sob o título “Aparelho cultural está desatualizado”, Milton Andrade discorre sobre o setor no Grande ABC. “O Grande ABC, que até aqui sobreviveu à nebulosa pré-história cultural, espera neste século novo por uma cultura nova. Uma cultura que contemple a preservação de bens e de documentos indispensáveis à leitura do seu passado e que possibilite o registro fiel do tempo em que vive, através da arte” — eis um dos trechos do artigo bem à moda de Milton Andrade, crítico sem deixar de ser prospectivo, ácido sem perder a ternura.


Não sei se deveria revelar aos leitores mas como não costumo esconder quase nada, eis que fiquei intrigado ao preparar este texto. Procurei nos arquivos deste site o artigo de Milton Andrade preparado para a edição de “Nosso Século XXI”. Infelizmente, não encontrei. Como pode? Decidi conferir, agora com a edição impressa em papel. Dos 27 convidados a participar daquela até então maior obra coletiva do Grande ABC (superada em 2008 por uma segunda versão, agora com 36 participantes) apenas e incrivelmente o ensaio de Milton Andrade não constava do acervo digital.


Não me perguntem a razão. Minha assessoria também não consegue explicar. Não acredito que algum hacker tenha boicotado o site, retirando-lhe uma pedra preciosa. Finalmente me dei conta de que buscar explicações seria perda de tempo. Movi-me no sentido de sanar o problema. Capturei o texto em outro arquivo e solicitei a consequente introdução neste site.


Agora só falta os leitores conhecerem um pouco mais de Milton Andrade, essa figuraça de voz grave, de olhar sempre atento, que preenchia todos os espaços que a inteligência e o carisma permitiam.


Meus sentimentos de gratidão a Milton Andrade vão além do fato de ter acompanhado sua performance mesmo à distância na maioria das vezes, inclusive como discreto personagem de telenovelas da Globo.


Quando ele travestiu-se do personagem de São Caetano na obra Complexo de Gata Borralheira, em leitura dramática naquela noite de 16 de abril de 2002 num Teatro Municipal de Santo André completamente lotado, jamais me senti tão recompensado pelo faro fino de Euclides Rocco, o teatrólogo que o escolheu para personificar o quase aristocrático Município do Grande ABC.


Milton Andrade foi extraordinário. Como os demais municípios da região levados ao palco por outros experientes atores voluntários e ainda sob o impacto da morte do prefeito Celso Daniel, Milton Andrade proporcionou uma das maiores alegrias de minha carreira. Meus personagens ganharam vida.


Eleito democrática e transparentemente Imortal do Grande ABC, uma premiação que coordenei à frente do Conselho Editorial de LivreMercado, que, nos últimos tempos, chegou a contar com mais de 250 integrantes, Milton Andrade obteve em vida o reconhecimento da sociedade regional que jamais se permitirá esquecê-lo. Pelo menos enquanto este site estiver no ar.


A colaboração de Milton Andrade a “Nosso Século XXI” com uma bem elaborada proposta de fortalecimento da cultura regional é o testemunho do quanto pretendia ver um Grande ABC menos provinciano. “Já estamos no século XXI e é necessário que nos apressemos a vivê-lo mais bem aparelhados do que estamos. É preciso planejar o amanhã. Não fazer isso é muito maior falta de siso e de senso de ridículo do que tentar vislumbrar um pouco dos dias que virão” — escreveu o Imortal.


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