Sociedade

Cuidado, Ademir Medici

DANIEL LIMA - 07/12/2009

O jornalista Ademir Medici, que dignifica o jornalismo no Grande ABC recheado de piratas, tem de tomar cuidado para não sentir ferroadas de zangões de plantão avessos a críticas.


Ferroadas de zangões, nesse caso, é metáfora, claro, porque zangões de fato não ferroam ninguém. No caso dos zagões políticos, ferroam até demais, mas o fazem de forma tão dissimulada que transmitem a sensação de que são como os zangões biológicos.


Ademir Medici, memorialista que está entre os Imortais do Grande ABC, premiação de valor inestimável porque foi concedida pela sociedade na forma do Conselho Editorial da Editora Livre Mercado (não confundam com a pobre revista Livre Mercado destes tempos de recuperador tributário) deu de cutucar a onça do governo Aidan Ravin com a vara curta de uma reivindicação.


Ademir Medici quer ver o prédio do Nosso Bar preservado pelo Poder Público. Nada de extravagante, levando-se em conta as características externas do imóvel que em 2014 vai completar 100 anos no centro velho de Santo André.


Não é improvável a administração Aidan Ravin ceder à demanda do jornalista, embora o secretário de Cultura tenha se manifestado, como apontou Ademir Medici, de forma generalista, gélida e distante demais no email enviado ao proponente.


Aidan Ravin tem faro fino para o marketing, por isso dificilmente se deixará pressionar por Ademir Medici sem dar resposta convincente. Talvez até não faça nada, porque tanto Aidan Ravin quanto outras autoridades públicas nacionais não estão nem aí com patrimônio histórico, mas não se descarta a possibilidade de o chefe do Executivo de Santo André dar um jeitinho de sugerir que vai tomar providências.


Quem ainda não entendeu o que quero dizer vai entender agora: duvido que Aidan Ravin deixe esse rabo de complicações crescer além do que lhe interessaria para, na sequência, agir com o estardalhaço habitual, porque se tem algo que o prefeito de Santo André sabe fazer como poucos é marketing. O portal da transparência é mais um caso emblemático dessa política de comunicação, mas escreveremos sobre o assunto em outra oportunidade.


O que talvez coloque Aidan Ravin em posição mais conservadora e que tolha a vontade imensa que já tem de fazer uma média requentada com o Nosso Bar seja o que viria a seguir. E o que viria a seguir? Uma enxurrada de demandas assemelhadas, porque há muito patrimônio histórico a ser preservado numa Santo André mais que quatrocentona.


Não vou entrar no mérito da iniciativa de Ademir Medici, porque não sou especialista em patrimônio histórico, mas se o grande jornalista que o Diário do Grande ABC preserva como fonte inesgotável de enquadramento do passado da região em página diária diz que é importante, só tenho de acreditar.


O que sei por experiência própria de observador da cena regional é que Santo André jamais se recuperará daquela que considero a maior barbaridade já cometida num passado não muito distante. Estou me referindo à destruição irresponsável do Estádio Américo Guazzelli, onde Pelé marcou o primeiro gol de uma série de 1280. Sim, o gramado e as arquibancadas do Estádio do Corinthinha, como era mais conhecido, foram para o beleleu por conta de uma associação trágica de insensatez, ignorância, ganância e desprezo à história.


O cuidado que Ademir Medici tem de tomar quando mexe nesse formigueiro não é fruto de imaginação. Há uma rede de proteção ao prefeito de Santo André que procura neutralizar quem ousa opor-lhe algum tipo de crítica. Essa mesma rede é especializada em táticas nem sempre nobres que afetam a reputação de oponentes circunstanciais ou não.


Imaginem os leitores se Aidan Ravin fosse Lula da Silva e um Diogo Mainardi estivesse de plantão a lhe espicaçar a alma?


Talvez falte mesmo um Diogo Mainardi na vida de Aidan Ravin, mas não creio que há disponível no Grande ABC um jornalista com semelhante característica porque além de talento é necessário também a retaguarda de mídia ideológica e independente e, além disso, predisposição ao massacre.


Talvez o prefeito de Santo André não participe direta ou indiretamente da rede de deformadores de informações, mas seus aliados são tão ciosos do dever de sustentar a cidadela conquistada que todo e qualquer tipo de análise que fuja do elogio justo ou do puxassaquismo descarado é vista com extrema desconfiança. Um dos rótulos que mais propagam é de que a administração está sendo vítima de profissionais comprometidos com outras legendas partidárias.


Provavelmente Aidan Ravin esteja pagando o preço de relacionamentos complexos porque é novato na arte da política e também porque coloque no mesmo saco gregos e troianos da imprensa regional.


Não custa nada alertar Ademir Medici porque não faltarão aqueles que, dadas às características digamos menos beligerantes de seu trabalho, já estejam preparando arsenal de maledicências para colocá-lo na zona de suspeição.


Espero que o desfecho do Nosso Bar não seja uma ação pontualmente de marketing, mas sim uma definição de políticas mais consistentes de preservação das riquezas patrimoniais que Santo André detém. Algo muito difícil de acreditar também se o caso se desse em qualquer outro Município do Grande ABC. Não temos cultura preservacionista.


O desmanche da manjedoura de gols de Pelé é a prova suprema dos descasos históricos.


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