Regionalidade

Nada é mais lucrativo que
bancar custo da integração

DANIEL LIMA - 22/12/2022

O rompimento das comportas da hipocrisia associada à incompetência na trajetória do Clube dos Prefeitos do Grande ABC, também conhecido como Consórcio Intermunicipal dos Prefeitos, provocou vários tipos de reação.  

E nenhum desses movimentos foi saudável quando se considera algo que jamais deveria ser contestado: o custo da não-regionalidade ou da regionalidade do faz-de-conta é muito mais alto que os investimentos e a produtividade pró-regionalidade.  

Afinal, aqueles são perdulários e estes abrem portas ao Desenvolvimento Econômico. 

Nesse jogo de multiplicação de erros durante 32 anos de trajetória da entidade, entram como protagonistas tanto o prefeito de São Bernardo, Orlando Morando, quanto o deputado federal Alex Manente. Sem contar, claro, o prefeito Paulinho Serra, de Santo André.  

CAMADAS AVALIATIVAS  

Vou tentar colocar cada um deles numa determinada camada de avaliação e, para o bem de todos e felicidade geral da região, instalarei também todos eles, agora coletivamente, em camadas sobrepostas.  

Não há individualidades que resistam ao compromisso e aos rescaldos de cunho regional. 

Numa entrevista disseminada nas redes sociais, o prefeito Orlando Morando, um dos pivôs da ruptura do Clube dos Prefeitos, justificou a decisão tendo em vista tanto a ineficiência da instituição quanto a cota de custos orçamentários, de R$ 350 mil a cada mês.  

Além disso, lamentou nas entrelinhas que o prefeito de Mauá, Marcelo Oliveira, escolhido pela maioria coordenada por Paulinho Serra, não tenha apresentado programa de reestruturação da entidade. 

PUXADINHO NÃO DÁ  

Por fim, sugeriu Orlando Morando que o Clube de Prefeitos se torne puxadinho de cada Prefeitura, que teria representação operacional com a liberação de determinados funcionários mantidos pelos Executivos.  

Ou seja: a estrutura coletiva num ambiente específico seria praticamente desativada, para reduzir custos.  

Orlando Morando deixou claro que a regionalidade do Grande ABC interessa desde que não cause danos orçamentários aos cofres das respectivas prefeituras.  

Lembrou o chefe do Executivo de São Bernardo que, durante o período em que se tornou prefeito dos prefeitos, reduziu drasticamente o orçamento (e os dispêndios municipais) de manutenção da instituição herdada do petista Luiz Marinho, recordista de transferência de recursos financeiros das prefeituras.  

MUITA IMPORTÂNCIA  

A premissa de que o Clube dos Prefeitos não tem importância praticamente nenhuma está evidenciada nas declarações de Orlando Morando.  

Deve-se levar em conta dois fatores essenciais: primeiro, o fracasso coletivo histórico da entidade, inclusive durante o período em que esteve na presidência, e o alto grau de independência econômica de São Bernardo em relação aos demais municípios da região. 

Já escrevi demais tanto sobre uma coisa quanto sobre outra coisa, e não convém ser repetitivo.  

As razões de Orlando Morando terão sempre peso justificativo inferior às demandas de integração regional para o enfrentamento do mundo dos negócios e de institucionalidades. E, também, mesmo que a independência de São Bernardo seja elemento real, há perdas intangíveis a ser contextualizadas.  

PESOS E CONTRAPESOS  

Individualmente, como imagem, São Bernardo é menos que a soma dos sete municípios, o Grande ABC tão conhecido.  

Os investidores de maneira geral observam o Grande ABC como um todo, porque sempre foi assim que o público externo entendeu e entende a região. A territorialidade dividida por emancipacionistas serve apenas, nesse ponto, para consumo e complicações internas.  

Há exceções que confirmam a regra, claro. No setor de logística, por exemplo, nem mesmo o território municipal é levado rigidamente em conta pelos empreendedores. Basta estar num ponto estratégico qualquer do mapa de interesses que os galpões são instalados. Já no varejo, é outra história. 

MANENTE, MANENTE  

Quanto ao deputado federal Alex Manente, de domicílio eleitoral em São Bernardo mas de atuação político-partidária mais abrangente, o mínimo que se pode constatar é que qualquer coisa que lembre regionalidade não poderia nem passar pelo buraco da fechadura da porta de seu gabinete. Manente nada entende do assunto. Exceto no campo eleitoral. 

Reeleito ao terceiro mandato em Brasília, depois de mandatos na Assembleia Legislativa, sugeriria a Alex Manente que saia do quadradismo da convencionalidade eleitoral que baliza seus passos e coloque a mão na massa.  

A regionalidade do Grande ABC está em frangalhos institucionais porque a classe política, da qual Alex Manente faz parte, especialmente da classe política que atua na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados, jamais se preocupou com o futuro de quase três milhões de habitantes.  

Repasses de emendas parlamentares são uma obrigação respaldada pelas facilidades do sistema de apropriação de dinheiros dos contribuintes por agentes públicos sempre em busca de votos.  

Milionários fundos eleitorais asseguram benesses e escoam volumes caudalosos sempre de acordo com o calendário eleitoral. Essa situação cíclica torna a disputa por vagas desigual, beneficiando detentores de mandatos.   

JOGO DESENHADO   

 Já o prefeito de Santo André, Paulinho Serra, não deu ao público em geral versão minimamente sustentável e responsável dos acontecimentos no Clube dos Prefeitos, do qual é o titular presidencial.  

Até prova em contrário, a origem da crise teria fundo partidário ou pessoal. Ao conduzir a votação pela presidência do Clube dos Prefeitos tendo a prerrogativa do sétimo sufrágio, e tendo como tinha o empate parcial como placar desenhadíssimo, Paulinho Serra contaria com várias alternativas para dar àquele encontro algo menos traumático.  

Adiar a decisão, por exemplo, teria sido um gesto cooperativo, reflexivo e providencial para adequar o destino do Clube dos Prefeitos a um novo patamar de responsabilidade social.  

RESULTADO LÓGICO  

Paulinho Serra programou um jogo sabendo antecipadamente que estaria em seus pés a bola decisiva sem goleiro, pingando a um metro da linha fatal.  

Mais que isso: sabia que ao empurrá-la rede adentro, provocaria a interrupção escandalosa de uma disputa de pernas de pau, é verdade, mas um jogo que seguia determinadas regras.  

Também pesa nos ombros de Paulinho Serra a continuidade de um histórico de politização operacional do Clube dos Prefeitos.  

Os executivos que ocuparam e ocupam o posto-chave da instituição jamais poderiam sequer integrar qualquer lista especulativa de requisitos ao preenchimento da vaga. 

CLÁUSULA PÉTREA  

O Clube dos Prefeitos sempre sob o controle do prefeito dos prefeitos de plantão manteve com Paulinho Serra uma política de compadrio administrativo-eleitoral.  

A diferença em relação à maioria dos antecessores é que Paulinho Serra caprichou no modelito, inspirado pela constelação de parceiros de governança. 

O custo de manutenção do Clube dos Prefeitos seria uma merreca a cada contribuinte. Bastaria para tanto que a regionalidade do Grande ABC fosse institucionalizada como cláusula pétrea. 

Não deveriam faltar recursos financeiros atrelados às receitas gerais e, sobretudo, dentro de um arcabouço que contemplasse a condução do organismo por profissionais de linhagem técnica direcionada ao Desenvolvimento Econômico em primeiro, em segundo e em terceiro lugares.  

TOADA CONHECIDA  

Enquanto não se organizar como conjunto de sete endereços convexos que tratariam o futuro da economia do Grande ABC como prioridade das prioridades, ao invés de perder o foco com proselitismos temáticos politicamente corretos mas economicamente descartáveis, o Clube dos Prefeitos seguirá toada do desperdício.  

Dessa forma, as contribuições das prefeituras, merrecas de fato, sempre parecerão fortunas ante os resultados escorregadios e mais graves a cada temporada.  

Se nem a queda de 22% do PIB nos seis anos contados a partir de 2015 foi suficiente para despertar a sensibilidade dos dirigentes, o que esperar agora com a divisão do Clube dos Prefeitos entre os grupos de Paulinho Serra e de Orlando Morando? 

Talvez seja esse desenlace, paradoxalmente, a salvação da lavoura a eventual reorganização do organismo. Entre o ruim escondido e o péssimo escancarado, quem sabe apareça no horizonte um senso crítico mais amplo que redefina o desenho que se esgotou?



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